Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Burocracia Burra

O Brasil paga sua língua. Brincou com Portugal e quem visita a nossa metrópole fica de queixo caído: cidades restauradas e seguras, jardins floridos e gente feliz caminhando de madrugada, Lisboa é uma cidade envolta em música. Enquanto nós, aqui…. Onde fomos parar?

Uma das explicações é a burocracia burra que nos emperra. Vamos começar pela tributação. O impostômetro da Associação Comercial não para de registrar o ingresso de dinheiro do povo. Dinheirinho suado, extorquido de quem não dispõe de préstimos de primeira qualidade. As vezes nem de péssima qualidade. Não dispõe de nada.

Não falta dinheiro, portanto. Falta é enxugar a máquina. E simplifica-la para que o contribuinte não se veja sufocando m exigências esdrúxulas, inadmissíveis e espoliadoras.

Hoje vigoram no Brasil 63 tributos e 97 obrigações acessórias. Tudo tem de ser enviado à Receita Federal em prazo pré-estabelecido sob pena de multa. Cada empresa tem de seguir mais de 3.790 normas e, diariamente, cerca de 30 novas regras tributárias são editadas.

As empresas gastam 1.958 horas por ano para calcular e pagar tributos. Enquanto isso, na Itália o prazo é 238 horas, na França, 249, no Reino Unid, 110, na Dinamarca, 130, na Finlândia, 93, e em Singapura apenas 4 horas!

É possível que possamos progredir com esse arcaísmo obsoleto, anacrônico e necrosado?

Enquanto isso, quem nada de braçada? A criminalidade. Ela é realmente organizada. Domina as fronteiras nacionais, tanto a terrestre como a marinha. Faz entrar no Brasil milhares de armas pesadas, muito mais letais do que as fornecidas aos sacrificados policiais militares, que perdem a vida como moscas. Comercializam cocaína com naturalidade. Mas também cigarros, artigos eletrônicos etc, etc.

É urgente uma reforma tributária que contemple o contado de quem trabalha e deixa elevada percentagem para o governo federal. Este precisa ser reduzido em sua dimensão e tornar-se ágil e eficiente.

E nessa reforma, que se contemple o município. Não é justo que fique atormentado com todas as obrigações, inclusive aquelas que são de responsabilidade das demais esferas e não tenho ao menos um terço do montante de tributos religiosamente pago pelos brasileiros.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 12/04/2018

 

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Genialidade é contagiosa?

De quando em vez a humanidade surpreende ao produzir gênios. Primícias da espécie, produzem transformações e podem alterar o rumo da trajetória do ser racional sobre a face da Terra.  O que explica o surgimento de alguns indivíduos diferenciados? Em que eles são diferentes das demais criaturas.

Um livro recente, “Quirky”, escrito por Melissa Schilling e publicado pela PublicAffairs, retrata oito figuras excepcionais e tenta mostrar se é possível imitá-las para chegar ao que significaram para a espécie. São elas: Albert Einstein, Benjamin Franklin, Elon Musk, Dean Kamen, Nikola Tesla, Marie Curie, Thomas Edison e Steve Jobs.

O que há em comum nessas pessoas? Os inventores, criadores, pioneiros e formuladores de estratégias que pareciam, à época, inimagináveis, são todos eles esquisitos. Ou seja, excêntricos, desajustados, parecendo estar em descompasso com a normalidade. Mas, ao mesmo tempo, eram persistentes, tenazes, determinados e incansáveis na busca dos resultados esperados. O exemplo mais emblemático é de Nikola Tesla, que nasceu numa aldeia croata em 1856. Atribui-se a ele a criação de mais de duzentas inovações no campo do rádio, energia elétrica, sistemas de distribuição, lasers e torpedos guiados.

Esse gênio nutria imensa estranha afeição por um pombo, que ele cria fosse sua alma gêmea. Explicitava aversão a objetos esféricos e obsessão pelo número 3. Antes de entrar em qualquer prédio, o circundava por três vezes. Não consumia comida cuja massa cubica não fosse divisível por 3. O banqueiro J.P Morgan entregou a ele cerca de 150 mil dólares para construir uma torre de comunicação e ele não só não iniciou a obra, como empregou o dinheiro em outros gastos.

Existe evidente conexão entre genialidade e mania, entre o gene criativo e a esquisitice. Por isso, não se pode desde logo alijar o aluno que não se consegue observar o regramento estabelecido, que parece um estranho no ninho, talvez seja o gênio sem o qual a humanidade não encontrará solução para muitas questões aparentemente definitivas.

A leitura desse livro quebra preconceitos muito arraigados em nossa consciência, nos torna mais humildes e dispostos a permitir que a cada qual desenvolva suas potencialidades até atingir a plenitude possível. Nós ainda não temos régua adequada para medir o que é normalidade, o que é genialidade e o que é esquisitice. Não desperdicemos vocações, só porque não entendemos perfeitamente como é exuberante a natureza humana.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 08/04/2018

 

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Sem educação, não há salvação

A profunda crise que acometeu o Brasil nos últimos anos derivou de falta de educação. Custa crer que a elite intelectual disso não tenha se apercebido. Educação consistente produz cidadania mais do que ativa: proativa, assertiva, fiscalizadora e exigente.

O Brasil disseminou os direitos sociais antes de investir nos direitos civis. Prodigalizou benefícios sem contraprestação. Manter a pobreza iludida de que bolsas variadas resolveriam sua viagem por uma existência privada de dignidade.

O resultado é a crescente demanda de satisfação de infindáveis novos direitos, sem avaliar as consequências que adviriam de seu atendimento. Um País que não cabe no seu PIB. Legião de despreparados sobrevivem na informalidade e as necessidades da 4ª Revolução Industrial não conseguem ser atendidas porque não se prepara profissional à altura das exigências da era digital.

Tudo isso passa por uma escola decente. Nos últimos tempos, divulga-se a criação de nichos de excelência com unidades educacionais de última geração, predestinadas a acolher futuras lideranças. É bom. Mas é pouco. Quem está a observar o lado cruel do agravamento da desigualdade?

Algumas vozes lúcidas trazem a receita que é conhecida e não constitui novidade. No artigo “Ao sol do novo mundo”, publicado na Ilustríssima da FSP de 4.2.18, Armínio Fraga e Robert Muggar fazem análise do papel do Brasil na nova ordem internacional, sob a crescente influência da China e declínio norte-americano e reconhecem a supervalia da educação: “…não menos importante, a sociedade civil vem se mobilizando para reverter sua profunda e histórica negligência quanto a um ensino público de alta qualidade como fundação para o desenvolvimento econômico e político”.

Menos mal. Tento fazer minha parte. Conclamei mais de 5 mil empresas, bancos, clubes, Igrejas, organizações, entidades e pessoas físicas a “adotarem afetivamente” escolas públicas estaduais. Não é caridade, nem filantropia, nem marketing. É a obrigação da sociedade civil que, ao lado da família e do Estado, é solidariamente responsável pela escola pública. O projeto educacional brasileiro não prescinde da atuação conjunta e consistente dessa tríplice aliança.

A resposta nunca representa o que seria desejável. Mas bons exemplos já frutificam. O melhor é que os adotantes recebem muito mais do que as unidades escolares adotadas. Conviver coma infância e juventude nesta era digital, constatar sua criatividade, engenhosidade, vontade de dominar as ferramentas para uma sobrevivência cada vez mais inesperada é gratificante.

Mas é preciso mais. O crescimento das organizações não governamentais foi um fenômeno estimulado por uma Constituição que acreditou no associativismo e reconheceu que, sozinho, o indivíduo pode ser impotente para o enfrentamento dos gigantescos desafios deste século XXI. Elas podem colaborar para fortalecer a família – ou o que sobrou dela – a fim de que pais, núcleos afetivos, grupos que substituem a “família típica”, também cumpram com o seu dever de participar ativamente da vida da escola.

O projeto “Escola da Família” subsiste, apesar dos altos e baixos do contingenciamento orçamentário e de uma certa paralisia que mantém a inércia e um certo desalento diante de tudo o que as altas esferas oferecem como exemplo do que não deve ocorrer.

Mas a presença de pais ou responsáveis na escola não precisa esperar fim de semana ou feriado. Precisa ser mais constante. Tudo melhora quando a família está ao lado das equipes docente e gestora e colabora para que o rendimento do aprendizado seja mais próximo ao ideal.

Saudável também verificar que a educação é a ênfase do total de depoimentos exibidos pela TV Estadão desde outubro de 2017. Educação é uma prioridade brasileira. Educação resolve problema de saúde, de segurança, de emprego, da crise ecológica, do convívio fraterno que o Brasil precisa propiciar a um dos povos mais inteligentes do planeta, mas que continua capenga quando comparado com aqueles que dispararam, mercê de educação levada a sério.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Correio Popular | Data: 06/04/2018

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A verdade na educação

Brasil não faz papel bonito na avaliação PISA. É o teste de aprendizagem realizado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizado a cada três anos para 72 países. Somos os primeiros na ordem inversa.

Para Andreas Schleicher, diretor do Departamento Educacional da OCDE, um dos idealizadores dessa disputa, o que o Brasil investe em Educação não é muito diferente daquele encontrado em outros países. Está na média das demais nações. Mas é preciso maior engajamento. “A primeira lição que aprendi pesquisando os países que aparecem no topo das comparações do PISA é que seus líderes parecem ter convencido seus cidadãos a fazer escolhas que valorizam mais a educação do que outras coisas”. (Folha de S.Paulo – 19/02/2018).

É isso o que falta ao Brasil. Comprometimento geral e intensificado. Pais, parentes, amigos, sociedade em geral e, principalmente, aquela parcela que pode fazer a diferença, precisam “vestir a camisa da educação”.

“Pobreza não é destino”, diz Schleicher. Por isso é que “os alunos de 15 anos entre os 10% mais pobres do Vietnã têm ido tão bem no PISA quanto os 10% mais ricos no Brasil”.

O que se investe em educação poderia gerar melhores resultados. É urgente aumentar as expectativas dos alunos sobre seu bem-estar e suas perspectivas futuras. A escola tem de oferecer aconselhamento acadêmico e profissional para todos os alunos. Principalmente num momento em que a pergunta “o que você vai ser quando crescer? ” se tornou absurda. É muito provável que aquilo que a criança escolha já não exista quando ela se tornar adulta.

O especialista em educação enfatiza algo de que também partilho. As avaliações não podem focar exclusivamente as competências cognitivas. Prioriza-se o papel da memória, para prevalecer o modelo de adestramento do educando para decorar um acervo enciclopédico de informações, descuidando-se de aferir outras capacidades: a de se comunicar, a de se adaptar, a de inovar e a de resolver questões cuja evidência talvez o infante, melhor do que o adulto. Pode estranhar e, por isso mesmo, encontrar respostas que a inércia da maturidade não enxerga.

 Afinal, foi uma criança a única a ter coragem a dizer que “o rei estava nu”!

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 05/04/2018

Foto: José Luis da Conceição/ A2IMG

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Tônia Carrero

Assim como todos os brasileiros, senti a morte de Tônia Carrero, no dia 3 de março. Na verdade, uma lenda, um símbolo, uma expressão maiúscula de beleza, talento e patriotismo. Tive o privilégio de jantar com ela na casa de Heloísa e Arnold Wald. Era prima de Heloísa e, nessa noite, estava conosco a querida e saudosa Mariazinha Congilio, por sinal aniversariante no mesmo dia: 23 de agosto.

Simpática, alegre e acessível, seu humor contagiou o encontro. Monopolizou a mesa, com narrativas pitorescas, uma postura fidalga de quem sabe devotar a cada um dos presentes idêntica atenção. Quantas pessoas têm dificuldade de olhar outros comensais quando não são íntimos daqueles que se congregam em torno à refeição.

Ao final da ceia, era íntima de todos, mesmo daqueles a quem conhecera havia poucas horas. Pessoa a quem não se podia deixar de admirar, tão fascinante a sua personalidade. Tão difícil ser simples, quando o mais fácil é se dar ares, considerar-se especial, adotar a arrogância como parceira permanente.

Ainda há dias, ao comentar com um grande amigo a homenagem que se prestava a Bibi Ferreira, observou-se que a longevidade oferece árduos desafios. A beleza de Tônia resistirá ao passar dos anos? O que significa para um paradigma de formosura atravessar décadas e vivenciar a chegada de fragilidades, de deficiências, de perdas e de um generalizado depauperamento?

As imagens de Tônia no esplendor de sua juventude, cotejadas coma implacável marcha do tempo, não causam perplexidade, nem estranhamento. Ela resistiu bravamente à célere corrida dos dias e noites, meses e anos, insuscetível de paralisação.

Conservou seus belos traços, realçados por um espírito indômito. Alguém que viveu sempre intensamente e vibrou fervorosamente com as grandes causas brasileiras. Destemida, à frente das passeatas, pugnou por Democracia, combateu a censura e se divertia no teatro, no cinema e na novela em que era a mais atraente e instigante personagem.

Já fazia parte da melhor parte da História do Brasil. O Brasil do talento, da criatividade, da alegria transmissível a um povo que já foi considerado cordial, embora resultante de três raças tristes. Um povo que tem direito à felicidade, a despeito daquilo que muitos continuam a fazer para que a sensação geral do País não seja a mais alvissareira.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 03/04/2018

 

TONIA CARRERO