Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


Deixe um comentário

Lincoln no limbo

            Livro imperdível: Lincoln no Limbo, de Georges Saunders, tradução de Jorio Dauster, editora Companhia das Letras. Não é romance histórico, cheio de datas, nomes e minúcias. Passa-se no dia 25 de fevereiro de 1862, quando Abraham Lincoln já morava na Casa Branca havia um ano. Plena Guerra da Secessão.

            Willie, o filho de Lincoln de onze anos, morreu vitimado pelo tifo. À noite, o pai desesperado vai à sepultura e fica a carregar o filho no colo. Homem amargurado porque vê o país em guerra fratricida, mergulhado em sangue e por uma causa que ele considera abjeta: a escravidão. Manter seres humanos, semelhantes providos de alma idêntica à dos senhores, como semoventes, “coisas” sem identidade, mas com preço. Quais mercadorias, desprovidos de dignidade. Era demais para uma alma sensível como a de Lincoln.

            À chegada do pai para ninar o filho morto, os demais levados pela implacável ceifadeira animam-se: passam a considerar-se também dignos de afeição.

            O livro é um conjunto de citações, de notícias, de cogitações do autor, um badalado escritor americano, que já ganhou os maiores prêmios na área: a MacArthur e Guggenheim Fellowships, o Folioe, o Man Booker Prize e também vendeu os direitos desse livro insólito e sedutor ao cinema.

            Entrevistado a respeito, disse que a imagem de Lincoln cingindo o corpo da criança morta era algo como a Pietà de Michelangelo, que o atormentou durante mais de vinte anos. Resolveu escrever e levou quatro anos para terminar o livro.

            É um romance? É uma novela? Um depoimento? Invenção ou quase memória? Ficção real? Seja o que for, é algo que mostra o embate de que tanto fugimos ou procuramos fugir: não queremos que as pessoas amadas morram. Isso levou o filósofo sul-africano David Benatar a propor o “antinatalismo”: decretar o fim absoluto e total da reprodução humana, com a finalidade de evitar sofrimento. Já Saunders prefere acompanhar o britânico Julian Barnes, autor de “Nada a Temer”. O fato de alguém morrer não faz desaparecer o amor que devotamos a essa pessoa. Ela não precisa deixar de existir para nós, a menos que a esqueçamos.

            É o que Maria de Lourdes Teixeira, primeira mulher a ser eleita na Academia Paulista de Letras, costumava dizer:   “Nossos mortos só morrem quando deixamos de amá-los! Enquanto os amamos, continuam a existir em nosso coração e em nossa memória”.

images


2 Comentários

Reinvenção da moral

            Todos parecem querer “O Brasil passado a limpo”. A devassa na Administração Pública, a incestuosa relação entre Governo e empresariado, a sensação de que os desmandos atingiram estágio de evidente insuportabilidade pela parte saudável da Nação reclamam algo diferente do que até aqui se fez. O Brasil já passou por muitas crises. Nenhuma com tantos ingredientes nefastos como a do presente momento.

            Coincidem o escancarado atraso em inovação, criatividade e empreendedorismo, a insuficiência dos recursos estatais para atender à crescente demanda de direitos, interesses, utopias e delírios, a falência da Democracia Representativa e o desalento geral. Este é o pior componente da policrise.

            Ninguém acredita em ninguém. Os discursos se repetem numa identidade insossa e sem imaginação. Não se capta honestidade, franqueza e verdade nos pronunciamentos. O instrumento mais utilizado para quem ainda assiste a TV é o “zap” para mudar de canal. As redes sociais pululam de comentários irônicos, debochados, sarcásticos e cruéis.

            Não é com esse clima que o Brasil encontrará forças para reagir a tal nefasto estado de coisas.

            Quem é que teria condições de reacender no coração brasileiro a fagulha da confiança em alguém que se propusesse a transmitir a mensagem de esperança?

            Existem pessoas ainda não contaminadas? Difícil distingui-las, pois se mesclam a ligações mais do que suspeitas. Não conseguem se desvencilhar de más influências. O ambiente político é confuso, pois a generalização leva todos a desconfiarem de todos. Quem sobraria, neste cenário, para a recuperação da moral nacional?

            Nada faz tanta falta ao Brasil como a ética. A ciência do comportamento moral do homem em sociedade. A contínua busca do bem. A reta intenção. O respeito ao semelhante. A observância estrita e na prática, ao princípio da dignidade do ser humano.

            Tudo isso foi se perdendo em meio ao desvario do egoísmo, do consumismo, do artificialismo e da cultura do descarte. Tudo é descartável nesta era. A começar da humanidade.

            A alternativa ao caos é reagir a este clima turvo. Atuar com as crianças, que nascem puras e assimilam as lições do exemplo, mais do que as aulas ministradas por educadores em grande parte desanimados.

            A boa notícia no oceano de anomalias é o projeto que Maurício de Sousa desenvolverá com as crianças brasileiras, aquelas que aprendem a ler com suas revistas, no sentido de ressuscitar o conceito de ética e de cidadania. Começar com aqueles que ainda têm salvação. Quanto aos demais, aguardar se comovam com a redescoberta daquilo de que se esqueceram no enfrentamento das vicissitudes cotidianas.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

money-laundering-1963184_1280


1 comentário

Doença de celular

            Você pode ficar doente por causa de seu celular. E não está a se pensar na dependência, na fixação ou vício, sintomas psicológicos de anomalia. O problema é o número de bactérias encontrado em cada aparelho.

            A bióloga Rosana Siqueira, da UniMetrocamp Wyden, testou a quantidade de microorganismos encontrada em mobiles. Encontrou cerca de 23 mil bactérias em algumas das 10 amostras analisadas. Entre elas, a staphylococcus aureus, causadora de conjuntivite e infecção de garganta, a shigella, que leva a disenteria, além de coliformes fecais.

            Gente com o sistema imunológico saudável pode não se contaminar, nem ficar enfermo. Porém os grupos de risco: crianças, idosos, grávidas, os doentes com imunidade afetada, podem contrair moléstias até graves por uso de celular contaminado.

            Com a mania que hoje os pais têm de entregar celular para crianças cada vez mais novas, o perigo aumenta. As crianças levam imediatamente o telefone à boca. Depois para o chão. E outro perigo é entrar com o mobile no banheiro. Os microorganismos estão ali e vão se alojar no aparelho.

            Outro lugar de intensa contaminação é a academia de ginástica. Quem coloca o aparelho no chão corre o risco de trazê-lo com uma carga imensa de bactérias causadoras de enfermidade.

            Outras coisas que contaminam e que nem sempre merecem nossa atenção: a tábua de cortar carne. Mais de 130 mil bactérias por amostra em tábuas de madeiras. Muitas delas causadoras de infecções.

            A mais perigosa é a esponja de cozinha, aparentemente inofensiva, mas com 700 milhões de bactérias após o uso de quinze dias. A simples esponjinha pode causar febre, pneumonia e diarreia, entre outras doenças.

            Os fontes de ouvido também carregam dez mil micro-organismos, dentre eles os causadores de infeções e conjuntivite.

            O bom mesmo é não precisar usar nada disso. Mas quem é que hoje consegue se afastar do seu celular? Há crises de abstinência já registradas e parece que ele chegou para ficar. Então o negócio é limpar. Passar álcool, depois um pano seco ou um lenço de papel. E fazer isso todas as noites. Não é só de vez em quando…

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

germ-28874_1280


Deixe um comentário

Excesso de Informações no Dia a Dia

           Celular no bolso, computador no trabalho, televisão em casa e todos sempre de olho no que está acontecendo ao redor. Segundo a medicina, o excesso de informações pode prejudicar o bom funcionamento do cérebro e causar danos à memória e às tomadas de decisões. A partir de um artigo de minha autoria, fui convidado a participar do Programa Panorama, na TV Cultura. Com apresentação de Andressa Boni, Eu e o Professor Luiz Vicente Figueira de Mello, comentamos sobre a ansiedade causada pelo excesso de informações no dia a dia.

Assista a matéria completa no link abaixo:


Deixe um comentário

Seu trabalho faz sentido?

            Iludi-me há algumas décadas com as promessas do sociólogo italiano Domenico De Masi, que acenava com a “era do ócio”. O século 21 seria aquele em que não teríamos que trabalhar tanto. Tudo estava feito, as conquistas garantidas e sobraria tempo para o lazer. Passeios, leituras, viagens, hobbies. Tudo num ambiente de tranquila convivência entre semelhantes que se consideram irmãos.

            Não é bem isso o que enfrento. E talvez a maior parte das pessoas não tenha adentrado a esse paraíso. Mais uma utopia? Trabalho cada vez mais. Não sobra tempo para nada. Estou engolido em compromissos, tarefas, obrigações. Os anos passam rápido. Só não passa depressa o minuto para os exames de sangue, o teste ergométrico, o motorzinho do dentista.

            O professor de antropologia da London School of Economics David Graeber escreveu em 2013 um ensaio para uma revista radical chamada Strike. Partiu da observação de que 37% das pessoas não acreditam que seus empregos contribuem significativamente para o planeta. A conclusão do antropólogo, que lançou o livro “Bullshit Jobs”, recentemente resenhado por Pilita Clarck no Financial Times, é de que o capitalismo do século 21 lembra o socialismo do século 20. Há muitos empregos desnecessários, apenas para manter as pessoas empregadas.

            Para ele, os trabalhos absurdos fazem sentido para a elite empresarial rentista, preocupada com o tempo que esses serviçais teriam para pensar e exigir outras ocupações. O livro analisa mais de 250 depoimentos pessoais que Graeber recebeu ao criar conta no Gmail com o endereço: “doihaveabsjoborwhat” – tenho mesmo um emprego cretino, não é? Convidou seus seguidores no Twitter a lhe enviar testemunhos sobre seus empregos absurdos e apurou 124 descrições oferecidas pelos que acorreram ao convite.

            A permanência de funções desnecessárias coincide com o prevalecimento da “gestão feudal”, com hierarquias complexas e uma teia de subordinados para maximizar a importância do chefe.

            Dentre os trabalhos absurdos, ele elenca os lacaios, que nada produzem, mas dão prestígio ao chefe, a tropa de choque, os “conselheiros” do patrão, a “turma do esparadrapo”, que consertam defeitos organizacionais fictícios, os carimbadores, que legitimam a burocracia, os feitores, que supervisionam quem não precisa de supervisão.

            Tal situação é clara no Brasil na Administração Pública. Tudo o que o Estado faz é mais dispendioso, mais demorado, menos eficiente. Enorme quantidade de tarefas desimportantes e irritantes causam péssima impressão ao cidadão contribuinte, que mantém a máquina. E o equipamento estatal é carregado por poucos, que acumulam funções, são responsáveis pelo andamento – ainda que irregular – dos serviços que poderiam ganhar eficiência se a gestão fosse levada a sério. Mas uma das consequências da política partidária é o abrigo obrigatório dos apaniguados ou daqueles que se “converteram” assim que se delineou o quadro de quem venceria a eleição.

            No dia em que a cidadania se qualificar para efetivo controle, fiscalização e cobrança, talvez as coisas mudem. Mas para isso é preciso que, além de se considerar injustiçado e reclamar a sua parte no bolo, cada vez menor e mais pobre, os indivíduos assumam responsabilidade. Uma democracia participativa só existirá no momento em que, ao lado dos deveres, não houver hesitação em cumprir a sua parcela obrigacional para converter esta República num verdadeiro Estado de Direito de índole democrática.

            De qualquer forma, um bom exercício é cada qual se questionar. Os privilegiados que ainda têm trabalho remunerado devem se autoindagar: o meu serviço ajuda o Brasil? É relevante? Se ele deixasse de existir, o que aconteceria à Nação? Posso melhorá-lo? O que eu faria se eu fosse o meu chefe?

            O País está numa encruzilhada atroz. Não pode dispensar a colaboração de toda pessoa que tiver condições de pensar. As micro-revoluções podem fazer toda a diferença. Não deixemos passar a oportunidade de oferecer nossa opinião e, mais do que isso, nossa vontade de mudar as coisas, para que não sejam ainda piores.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

men-1979261_1280


4 Comentários

Como será 2025?

            Faltam apenas sete anos. Mas segundo os informes do Fórum Econômico Mundial, com seu relatório “Deep Shift”, os impactos que ocorrerão até lá vão modificar ainda mais nossa vida.

            Os pontos de inflexão mostram que dez  por cento das pessoas usarão roupas conectadas à internet. Noventa por cento da população contarão com armazenamento ilimitado e gratuito, financiado por propaganda publicitária. Um trilhão de sensores conectados à internet. Já estará em ação o primeiro farmacêutico robótico dos Estados Unidos.

            Dez por cento dos óculos de leitura estarão conectados à internet. Será produzido o primeiro carro impresso em 3D. Já existirá o governo a substituir o censo por fontes de big-data. Haverá telefone celular implantável e comercialmente disponível.

            Cinco por cento dos produtos aos consumidores serão impressos em 3D. Noventa por cento da população terá e usará smartphones. A mesma percentagem terá acesso à internet.

            Carros sem motorista chegarão a dez por cento de toda a frota automobilística. Haverá transplantes de fígado impresso em 3D. Trinta por cento das auditorias corporativas serão realizadas por Inteligência Artificial. Haverá arrecadação de impostos através de um blockchain. Dez por cento do produto interno bruto mundial será armazenado pela tecnologia blockchain.

            Mais de cinquenta por cento do tráfego de internet será voltado para os utilitários e dispositivos domésticos. Globalmente, haverá mais viagens e trajetos por meio de partilha do que em carros particulares. Haverá cidade sem semáforo, independentemente do número de pessoas.  A primeira máquina de Inteligência Artificial integrará um Conselho de Administração.

            Não se exclui a possibilidade de outros avanços, hoje ainda não detectados. A mutação causada por essa escalada científica e tecnológica afetará profundamente a economia, a sociedade, a cultura e o convívio entre as pessoas.

            O mais importante é garantir que o desenvolvimento não separe ainda mais as pessoas, entre as que são servidas por esse arsenal de novidades e aquelas que vão continuar excluídas. Esse o principal desafio posto a uma era em que as pessoas se mostram egoístas, consumistas e insensíveis. Ressalvadas as honrosas e cada vez mais raras exceções.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

2025