Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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REVOLUÇÃO SILENCIOSA

            O desencanto com a vida pública não pode paralisar os brasileiros que têm de sobreviver, a despeito da ausência de Estado. As vozes otimistas que reconhecem os tempos terríveis que nos são dados vivenciar, pregam a urgência de micro-revoluções, de reações individuais ou de pequenos grupos, com o intuito de enfrentar problemas aparentemente insolúveis, para mostrar que o governo não é imprescindível. A vida tem jeito, mesmo com ele ruim.

            Um dos exemplos de que tomo conhecimento é o das cisternas que têm sido construídas no Nordeste. A cisterna é uma das medidas levadas a sério pela Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA, que agrega 3 mil organizações em dez Estados.

            Um quinto do território brasileiro é atingido pela seca, um flagelo crônico do sertão nordestino. Mas 1,2 milhão de famílias já conta com a cisterna que permite o sustento próprio, a criação de animais e o cultivo de hortaliças e grãos.

            Isso começou quando, em meados de 1950, Manoel Apolônio, o Nel, deixou Simão Dias, no Sergipe, e veio tentar a vida em Sampa. Aqui foi servente de pedreiro e aprendeu a construir piscina redonda. Conheceu a técnica que junta placas de areia e cimento para criar o formato circular e pensou que poderia fazer isso para armazenar água.

            Desenvolveu as primeiras cisternas na Bahia, para amigos e vizinhos, em mutirão. Com capacidade de 16 mil litros, recebe água da chuva e abastece família de cinco pessoas por seis a oito meses. A água dos telhados segue por uma calha conectada à cisterna ao lado da casa. A invenção foi reconhecida como tecnologia social, solução simples de amplo impacto, vinda do conhecimento de alguém da própria comunidade, capaz de mudar uma realidade.

            Nasceu o Programa Um Milhão de Cisternas – P1MC, adotado como política pública pelo Governo em 2001. A cisterna de placas pré-moldadas é certificada pelo Banco de Tecnologias Sociais da FBB, hoje com 986 iniciativas. São conhecimentos que, compartilhados, mudam a realidade. O bom é que a cisterna deixou de alimentar a tradicional “indústria da seca”, hábil em obras mirabolantes e vulneráveis à endêmica corrupção.

            Quantas outras iniciativas não poderiam gerar respostas para problemas que o governo, mais interessado em sobreviver, não quer enxergar? Se o governo não funciona, a cidadania tem de funcionar.

            JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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IRADO NO PRESENTE

               Quem já ultrapassou dois terços de sua efêmera existência terrena tem condições de se surpreender com aquilo que a ciência e a tecnologia já disponibilizaram para a humanidade e de avaliar o que está sendo reservado para os que estão nascendo agora.

               Sem lamentar o que não se verá, mas sentindo-se privilegiado por poder constatar o que já existe, é impossível deixar de reconhecer que o futuro está disponível. O mundo é outro, queiram ou não os renitentes a aceita-lo.

               Seria ótimo se a criatura humana se compenetrasse de que está aberta a oportunidade para reinventar o convívio. Os trabalhos de alto risco podem ser realizados por robôs. O robô inteligente Sakura 2, desenvolvido pela Mitsubishi Heavy Industries, pode operar de forma autônoma e pelo tempo que for necessário, graças ao autocarregamento. Explora minas, conserta plataformas marítimas e manutenções de alto risco. Não explode nem oferece ameaça de explosão no meio ambiente.

               O Japão oferece aos japoneses uma fórmula de se pagar menos pelos planos de saúde. Basta usar um traje especial concebido por encomenda da Tokio Marine Holding. Ele inclui sensores que informam por um aplicativo se o usuário faz exercícios físicos. Não é preciso correr. Basta caminhar com disciplina e frequência. Tais informações, enviadas à companhia de seguros, permite avaliação da dedicação do cliente à própria saúde e gera abatimento no custo do plano.

               Os telões Diamond Vision, já instalados em alguns dos maiores e melhores estádios esportivos do planeta, é um monumental sistema de exibição em cores ao ar livre. Está em uso desde 1980 em Los Angeles e outras duas mil unidades funcionam, fornecendo algo que supera as cores reais. A maior delas está no hipódromo Meydan, em Dubai, nos Emirados Árabes.

               O Kuwait conseguiu ampliar pela quarta vez o seu shopping center The Avenues, agora com mais de 800 lojas. Ergueu um átrio de magazines de alto luxo chamado Prestige. Instalou 69 elevadores, que transportam até 27 passageiros e 54 escadas rolantes. Duas delas em espiral, tecnologia exclusiva, erguidas lado a lado, acrescentando elegância e imponência arquitetônica a esse espaço de consumo.

               Muita coisa mais já existe e, nos países onde a pesquisa é levada a sério, não há limite para a inventividade humana. Uma pena que outros países ainda estejam no medievo, às vezes até regredindo, cuidando de se apropriar dos escassos recursos obtidos mediante imposição de pesadíssima carga tributária, espoliando os pobres que têm serviços de quinto mundo e destruindo rapidamente o patrimônio natural que serviria de atrativo para os ricos do planeta, quando se cansarem do luxo tecnológico de que já usufruem.

                JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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OS HERÓIS DO CONSUMO

           Antigamente os pais mostravam aos filhos os bons exemplos de quem servia de paradigma. Os valores eram outros, não aqueles que agora predominam. Uma era em que “ser” valia a pena; “ter” era uma circunstância. Padrões eram os produtores de mudanças saudáveis na vida do semelhante.

          Um dos grandes temas da cultura de massas, observa Jean Baudrillard, citando Edgar Morin, é a constatação de que, em lugar dos “heróis da produção”, hoje vigora o culto aos “heróis do consumo”. Houve tempo em que se louvava o empreendedor, o “self made man”, o fundador, o pioneiro, o explorador, que por sua vez substituía o santo, o ermitão, os varões históricos. Hoje são os astros do show ou os esportistas, alguns príncipes dourados de feudais internacionais. Ou seja: os grandes esbanjadores.

            Anuncia-se com despudor a aquisição de mansões, barcos, palácios, quintas, prédios e aviões particulares. “Todos os grandes dinossauros que entretêm a crônica das revistas ilustradas e da TV são sempre celebrados pela vida em excesso e pela virtualidade de despesas monstruosas”.

            A indústria automobilística exerceu um papel significativo na mutação cultural – para pior – da comunidade humana. Para Baudrillard, “o automóvel surge como lugar privilegiado do desperdício diário e a longo prazo, quer privado, quer coletivo. Não apenas pelo seu valor de uso sistematicamente reduzido, pelo coeficiente de prestígio e de moda invariavelmente reforçado, pelas somas desmedidas nele investidas mas, de maneira ainda mais profunda, pelo sacrifício coletivo e espetacular de chapas metálicas, de mecânica e de vidas humanas que o acidente representa, um “happening” gigantesco e o mais belo da sociedade de consumo, através do qual, na destruição ritual da matéria e da vida, ela tira a prova da sua superabundância”.

            É que a sociedade de consumo precisa de seus objetos para existir e sente, sobretudo, necessidade de os destruir. O uso conduz ao desgaste lento. O mais excitante é o desperdício violento.

            Hoje, o uber acena com a virada de rumo. Será que a juventude se conscientizará de que não é preciso ter carro para se locomover? Um dia a cidade será devolvida ao seu habitante e deixará de ser o espaço prioritário do mais egoístico dos meios de transporte?

            JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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PARA GAMES NÃO HÁ IDADE

            Idosos aprendendo programação para inventar jogos digitais. Não é ficção, mas saudável realidade. Para mostrar que a 4ª Revolução Industrial não é coisa apenas para os jovens antenados, mas atinge a todos quantos tenham vontade de participar dessa realidade virtual que afetou o cotidiano de milhões de pessoas.

            As escolas de games perceberam esse filão e já se articularam para oferecer cursos para maiores de sessenta anos. A idade-padrão para caracterizar a velhice no Brasil. Fabio Ota, CEO da International School of Game – ISGame, uma escola especializada em cursos de programação, vê com entusiasmo a possibilidade de empolgar idosos nesse mister lúdico e promissor. Não acredita em apostilas. Por isso acredita que os mais velhos vão ter de pensar mais, ativar a memória e a concentração.

            A sua experiência é no sentido de que os idosos têm dificuldade no primeiro mês. É preciso insistir para que não desistam do curso. Aqueles que ainda não têm familiaridade com a tecnologia participam de classes de inclusão digital, para aprender o básico, assim como usar o mouse e acessar a internet.

            Desenvolvem games mais simples nos primeiros meses, em duas dimensões. No segundo módulo, preparam jogos para crianças. Em seguida, entra a parte de criatividade, com desenho de personagens e elaboração de jogo mais sofisticado.

            Ota não apenas ofereceu as aulas, como pesquisou os efeitos da criação de games para a saúde dos idosos. Avaliou, durante cinco meses, pessoas com mais de 65 anos que participavam das aulas em um projeto apoiado pela FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, hoje sob o comando do notável cientista Professor JOSÉ GOLDEMBERG. Apurou-se que a programação de games ajuda a prevenir o declínio cognitivo. Os sentidos ficam mais aguçados. É uma terapia fazer jogos.

            Outro benefício dessa iniciativa de propiciar a programação de games para idosos é o retorno do convívio entre avôs e netos. Os avós que acompanham os netos e que sabem jogar com eles, não se sentem excluídos. E a exclusão do velho é um dos relatos mais dolorosos de quem se sente só, embora tendo família. A triste solidão da falta de diálogo.

            JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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O POLÍTICO IDEAL

            O Brasil terá uma chance de revigorar a combalida crença na Democracia Representativa se tiver juízo e eleger os menos piores no próximo outubro.

            O grau de descrença na representação chegou a nível inimaginável. A sensação generalizada é a de que inexiste probidade no universo contaminado da política partidária.

            Só que a humanidade se afastou bastante daquela utopia imaginada por pensadores otimistas, de que a evolução seria lenta, gradual mas em contínua ascensão. Chegaria a era em que não seriam necessários os instrumentos de manutenção da ordem, pois esta resultaria de uma racionalidade extrema. Os homens não precisariam de freios para mantê-los em harmonia, cada qual cuidando de seus interesses e permitindo que o semelhante cuidasse também dos seus.

            A utopia da desnecessidade de força, de governo, de legislação. Se a lei é a relação necessária que se extrai da natureza das coisas e se naturalmente o ser humano é bom, inclinado a se solidarizar com o próximo, a sociedade ideal seria a resultante desse convívio saudável de pessoas de bem e determinadas a praticar o bem.

            Inversamente aos projetos que hoje parecem delírios febris, houve uma rápida deterioração da vida pública. Em lugar do bem comum, o político preferiu cuidar do seu exclusivo bem. O descompromisso em relação a quem o elegeu é a rotina. Procura-se o representado apenas às vésperas dos pleitos. A confusão entre a coisa de todos e aquilo que vai para o próprio bolso é uma regra que raramente admite exceção.

            É urgente que surja um novo Diógenes que, com sua lanterna acesa à luz do dia procure um político honesto. Alguém que não apenas seja honesto, mas que não admita que a desonestidade more em sua casa. Que não faça alianças com suspeitos. Que não transija com o seu dever de defender a coletividade. Que não admita que, em seu nome, se pratiquem injustiças ou crueldades.

            Há quem sustente que ainda existam políticos assim. Queira Deus consigam ser eleitos. O quadro atual exibido pela classe integrante do modelo brasileiro de Democracia Representativa não suscita a confiança em grau suficiente a aspirar sejam muitos. Pesquisemos, garimpemos, animemo-nos a encontra-los e talvez reencontremos a esperança em dias melhores para esta nossa tão sofrida Pátria.

          JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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SAFÁRI & OUTRAS CAÇADAS

          O animal humano é uma espécie exótica. Há inúmeras provas de que a humanidade não atingiu o grau de perfectibilidade prenunciado por filósofos otimistas. A coleção de insanidades e de insensatez comportaria coleções infinitas de livros, reportagens, filmes e fotos. Mas para ilustrar, basta mencionar o documentário “Safári”, do diretor e roteirista austríaco Ulrich Seidl.

                 Foi filmado na Namíbia e mostra ricos austríacos e alemães que se deliciam com as caçadas. Ocupam um hotel de luxo situado numa reserva e escolhem num catálogo o animal que desejam abater: girafa, gnu, zebra, impala. São animais condenados à extinção, mas por um determinado preço, a empresa turística permite que eles sejam mortos.

                     O tour inclui a foto do caçador com o animal abatido e o troféu macabro, mas cobiçado: a cabeça ou a pele da vítima. Os caçadores falam diretamente com a câmera. Explicam a emoção do encontro, a sensação do tiro e justificam, de forma eufemística, o morticínio.

                As cenas de caça chegam a ser sórdidas: girafa agonizante, colocada sobre a caminhonete por um grupo e sua evisceração, retirada da pele e esquartejamento. Tudo realizado pelos zelosos nativos. Estes não se manifestam. Apenas são filmados a consumir os restos dos animais abatidos, já que o caçador só levará a pele e a cabeça.

                   De certa forma, o ritual acontece também no Brasil. Fazendas mato-grossenses oferecem o abate da onça pintada, praticamente eliminada de nossa fauna. E, metaforicamente, o homicídio de mais de sessenta mil jovens do sexo masculino, quase todos pardos ou negros, não é um atestado de nossa crueldade?

                   A morte de um só jovem diferenciado por sua fortuna, fama ou prestígio causa comoção. O extermínio de sessenta mil, todos periféricos, invisíveis e desimportantes, não impressiona. A caçada na Namíbia é programada, um suspense fabricado. A caçada humana nos lindes das conurbações em zonas miseráveis guarda semelhança com o racismo dissimulado ou explícito. É assimilável por aqueles que se consideram imortais e que deixam o mundo cada dia mais melancólico.

          dog-387039_1920JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista


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VIRAMOS AVESTRUZES HUMANOS

            Seus amigos gostam mais de você ou do celular? Essa é uma pergunta que pouca gente faz, mas deveria fazer. Quando estiver com alguém, tente medir quanto tempo demora até que essa pessoa deixe de prestar atenção e você para verificar se chegou alguma mensagem no celular.

            Olhar constantemente para o dispositivo móvel tem um lado social e um fisiológico, diz Adam Popescu, do NYT. A cabeça humana média pesa entre 4,5 kg e 5,5 kg e, ao curvar nosso pescoço para escrever uma mensagem de texto ou olhar o Facebook, a atração gravitacional sobre a cabeça e a tensão no pescoço crescem até o equivalente a 27 quilos de pressão. É uma postura que resulta em perda gradual da curva espinhal.

            A postura afeta o humor, o comportamento e a memória. Ficar permanentemente encurvado causa depressão. Afeta até mesmo a quantidade de oxigênio que nossos pulmões absorvem.

            75% dos americanos acreditam que o uso de smartphones não interfere com a capacidade de prestar atenção. Um terço acredita que usar celulares em situações sociais ajuda a conversação. Mas será que ajuda de fato? Especialistas em etiqueta e cientistas sociais dizem que não.

            O comportamento “sempre conectado” afasta da realidade. Além das consequências para a saúde, nossos bons modos também encolhem. Não é educado deixar de prestar atenção na conversa para “conversar” com o mobile.

            Isso eu já notara em relação ao telefone. Esse intruso que interrompe o diálogo pessoal para fazer com que nos dediquemos a ele, que está à distância. Mas tudo piorou com os celulares. Eles se incorporaram à nossa rotina. Adultos ficam vidrados e ensinam as crianças por osmose. Estas também acabam viciadas. Os aparelhos móveis são a mãe da cegueira por desatenção, diz Henry Alford, que escreveu “Would it Kill You to Stop Doing That: A Modern Guide to Manners”. É esse o nome que se dá ao estado de esquecimento maníaco que toma conta de alguém que se deixa absorver por uma atividade que exclua tudo mais. A cientista social Sherry Turkle analisou 30 anos de interações familiares em seu livro “Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less From Each Other” e constatou que as crianças hoje competem pela atenção dos pais com os aparelhos eletrônicos, o que resulta em uma geração que teme a espontaneidade de um telefonema ou a interação face a face.

            “Olhos nos olhos”, hoje, é uma opção. Não é mais a regra da franqueza, sinceridade e verdade nos diálogos. Com isso, os níveis de empatia despencam e o narcisismo escapa ao controle. Há impacto sobre o desenvolvimento emocional, a saúde e a confiança, sempre que abaixamos nossas cabeças como se fôssemos avestruzes humanos.

            Não é possível jogar fora o celular. Mas reconhecer o estado de dependência é um bom começo.

            A resposta mais simples está na Bíblia: trate os outros como gostaria de ser tratado. De preferência, sem o smartphone frente aos olhos o tempo todo. Tente não ser o primeiro, no grupo, a olhar o celular. Há vida fora da bugiganga eletrônica.

          JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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