Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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TTT: TRAFICANTES TROCAM TIROS

O noticiário é tão constante, que as pessoas estão anestesiadas. Parecem não notar que o Brasil regrediu em todos os sentidos e que estamos imersos numa imensa tragédia.

A intervenção federal no Rio de Janeiro está a cinco meses de terminar e quais foram os resultados? As armas continuam soltas a fazer vítimas. Todas as madrugadas replicam a rotina de tiroteios entre gangues e polícias, entre gangues e gangues.

É só no Rio de Janeiro? Não. Na sexta-feira, 20 de julho, “dia do amigo”, houve chacinas em São Paulo e em Porto Alegre. Olimpia, a capital das águas termais, teve na mesma semana catorze ônibus incendiados. Anunciou-se a prisão, nos EUA, do “Senhor das Armas”, que só numa operação, fez entrar no aeroporto do Galeão mil fuzis, munição e granadas. E as armas que continuam a entrar por essa imensa fronteira, dezesseis mil quilômetros, se somadas a litorânea e a terrestre?

21 mil mortes de jovens contabilizadas só no primeiro semestre de 2018. Fora as mortes no trânsito. Facções criminosas proíbem a vacinação do sarampo em Manaus. Os agentes da saúde tiveram de percorrer o núcleo com a maior incidência dessa enfermidade de país pobre escoltados por policiais. Dois policiais por vacinador!

Este o Brasil em que os candidatos estão mais interessados em obter minutos preciosos de propaganda “gratuita” na TV. Gratuita para quem, cara pálida? É o povo que paga por esse festival de inverdades e de promessas que, sabe-se por experiência dolorosa, não serão cumpridas.

Enquanto não houver uma conversão verdadeira, por parte daqueles que têm poder e, se quisessem, poderiam oferecer um átimo de esperança a uma população desarvorada e descrente, nada mudará no Brasil.

Ninguém parece ter a coragem de dizer que “o rei não está apenas nu! Está em estágio terminal”. Um retrocesso acelerado na defesa de tudo aquilo que poderia repor este pobre País no rumo do verdadeiro desenvolvimento, que não é torna-lo novamente a quinta maior economia planetária. É oferecer ao brasileiro educação de verdade, saúde de qualidade e decência na vida pública.

É disso que o povo necessita, não mais de mídia divulgando que traficantes trocam tiros!

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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AGARRE O FIAPO DE ESPERANÇA

Tábata Amaral é uma jovem de 24 anos que estudou durante oito anos em escola pública, na periferia paulistana. É uma típica jovem paulista do extremo sul da megalópole. O pai morreu aos 39 anos, vítima de drogas ilícitas e de álcool, droga tolerada. A mãe, diarista e vendedora de produtos, no “empreendedorismo” tupiniquim, que é a insuficiência da remuneração aos não qualificados.

Essa jovem participou de Olimpíada de Matemática, aprendeu inglês por autodidatismo e se candidatou a uma bolsa em Harvard. Foi aprovada, nem tanto por sua proficiência, mas pela sua história pessoal. Estudou astrofísica e depois se endereçou para a Ciência Política, na certeza de que o problema da educação no Brasil é, primeiramente, uma questão política.

Voltou e atua na formação de lideranças jovens que, em lugar de votar em branco ou anular o voto, o que só favorece aquele que não tem nada a perder na política partidária, elejam o menos pior e depois fiscalizem o eleito.

Acredita em pequenos gestos, como o pobre município sergipano onde o Prefeito se viu forçado a não nomear Diretor de escola à base do favoritismo, porém aceitar indicação da comunidade escolar.

Essa deve ser a missão de quem conserva a lucidez nesta quadra triste da História do Brasil. Políticos desqualificados, descrença generalizada e a percepção de que nada muda, é sempre mais do mesmo.

As redes sociais não devem servir apenas para a divulgação das “fake News”, nem para convocação de mobilizações que são performances, happenings que dão uma notícia na mídia e logo se dissolvem. Tábata acredita em “organizing”. Formar grupos coesos que amem o Brasil, ao contrário da maior parte – não a totalidade, felizmente – dos políticos profissionais.

Uma Democracia Participativa só se faz com participação. Convencer os jovens que desde os 16 anos já podem votar, a distinguir o lobo do cordeiro. A cobrar, a exigir, a fiscalizar, a denunciar, a detonar. Jovens que podem atuar no sentido de dotar a incipiente e fragílima situação da Democracia Brasileira a implementar outros institutos que a fortaleçam, como o veto popular e o “recall”. As eleições estão aí! Todo cuidado é pouco. O Brasil não suporta mais conviver com a desfaçatez, o deboche, o acinte que sequer a Lava Jato consegue tolerar. Precisamos de mais Tábatas para nos incentivar. E elas existem!

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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ENTÃO NÃO TEM JEITO?

A revolta do clima já sacrifica legiões e ainda vai piorar. Mas não está sendo levada a sério. O descompromisso para com o ambiente é a regra e se a ética ambiental está presente no discurso, na prática ela não existe.

O sinal mais evidente da ignorância de todas as camadas da população é o desperdício. O Brasil produz resíduo sólido em quantidade inimaginável. Evidencia desconhecimento do que significa esse descarte, ao deixar de reconhecer que muito pouca coisa pode ser chamado de “lixo”. Papel não é lixo, nem vidro, nem metal, nem plástico, nem material eletrônico e nem restos de comida. Tudo pode ser reaproveitado. E isso já existe no mundo civilizado.

A administração pública desperdiça bilhões na varrição de ruas, na coleta de resíduos e no desentupimento das bocas de lobo que impedem o escoamento da água pluvial em virtude de tanto papel e outras coisas mais que chegam a esses condutos.

Os nossos rios oferecem o maior atestado de nossa estupidez. Em vez de água, aquele complexo fétido de líquido pastoso formado por imensidão de produtos arremessados ao leito fluvial transporta a contaminação e a morte para as populações ribeirinhas. Em seguida, atingirá a saúde de uma legião de seres vivos.

Não há inocentes nessa marcha insensata rumo à inviabilização da vida no planeta. E não se verifica uma atuação firme de quem tem a responsabilidade de zelar pela coisa comum. A violência contra a natureza é considerada ofensa menor, como se não vulnerasse uma comunidade difusa e crescente de vítimas. Nem todas indefesas.

Algo pode ser feito em todos os espaços. As cidades menores poderiam dar o exemplo. Formar gerações de respeitadores do ambiente. Educar para a preservação. Elaborar leis que multem os infratores, mas que sejam efetivamente cobradas, porque a maior parte das sanções pecuniárias ambientais prescreve diante da incompetência dos agentes públicos encarregados da execução fiscal.

O legislador local, tão desprestigiado nos últimos tempos, poderia copiar normas de convívio direcionadas a evitar que o mal maior chegue antes de nossa previsão. Há pouquíssimos sinais animadores, como a edição de leis que proíbem o uso do canudinho, aquele inofensivo pedaço de plástico oferecido juntamente com o refrigerante e que vai matar as poucas tartarugas que restaram, depois da carnificina perpetrada pelo bicho-homem.

Instituir prêmios para a rua mais limpa, para a praça mais limpa, para a cidade mais limpa, para o rio mais limpo, seria uma forma saudável de compensar a negligência criminosa de quem está apressando o fim dos tempos neste sofrido planeta.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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LAVÍNIA PRECISA DE UM CORAÇÃO

Uma criança linda, meiga e muito amada, está na fila para transplante. Depende de um coração novo, que substitua o seu, cujo funcionamento é deficiente.

A espera angustiante, mas esperançosa, é uma lição para todos nós. Sabemos ser inevitável o encontro com a “indesejável das gentes”. Temos algumas década apenas para fazer valer este nosso estágio no Planeta Terra. Mas nos emocionamos quando a uma criatura com poucos anos de existência, com potencial enorme para tornar o mundo melhor, se vê premida por esta contingência dramática.

Diante de tal situação, compreendemos a nobreza do gesto de quem destina seus órgãos para a doação e, com isso, permite o prolongamento existencial de outros semelhantes.

Ao partir, conosco nada levaremos. Tudo o que amealhamos permanece aqui. Vamos sós, assim como sozinhos nascemos. Que grandeza não nos apegarmos à matéria, tão desnecessária na transcendência e podermos salvar vidas que dependem desse desprendimento.

LAVÍNIA nos ensina muito nessa provação que ora experimenta. Provação que atinge seus pais, sua família ampliada e todos aqueles que a estimam e torcem para que a Providência Divina atue e reserve o final feliz pelo qual ansiamos.

Que este episódio nos leve a todos a valorizar condignamente o dom gratuito da vida e a disseminar a cultura da doação de órgãos, para que às inevitáveis partidas rumo ao mistério da eternidade, prolonguemos o milagre vital àqueles que herdarão essa nossa prova de infinita generosidade. 

LAVÍNIA: estamos com você, em oração e em vigília!


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O Diabo E O Cético

A maior vantagem do demônio é fazer o humano acreditar que ele não existe. Mas a sua presença é tangível. O que levaria as criaturas a tamanha crueldade e insensatez, não foram os artifícios do “príncipe das trevas”? Ele continua, ativo, fazendo das suas e captando almas.

Muito inteligente, não é tosco em suas estratégias. Utiliza-se de métodos sagazes e convincentes para fazer crer, por exemplo, que o aquecimento global é uma invenção dos inimigos do agronegócio.

Várias multinacionais que extraem palpáveis lucros num Brasil em que vale tudo e que têm interesse na continuidade da venda de agrotóxicos, de substituição de mata nativa por pasto, patrocinam eventos em que meteorologistas afirmam que o gás carbônico não causa efeito estufa e que a ação do homem é insignificante para causar efeitos sobre o clima.

É o que ocorre atualmente em regiões vulneráveis como a chamada Matopiba – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, nova fronteira agrícola brasileira. São marcas famosas que pagam palestras e propagam a “inverdade científica chamada aquecimento global”.

Ainda que os porta-vozes de tais versões não sejam cientistas prestigiados, para uma plateia de rústicos é tudo o que eles gostariam de ouvir. Enquanto isso, o meteorologista Carlos Nobre sentencia: “Dizer que a molécula de gás carbônico não exerce efeito estufa atmosférico, isto é, que não absorve e reemite radiação térmica, é uma asneira anticientífica equivalente a dizer que a Terra é plana”.

Triste Brasil que já destruiu a maior parcela de suas florestas, que poluiu seus rios, que não cuida do mar, um oceano de resíduos sólidos inconsumíveis e tóxicos e que tem de suportar a dolosa insensatez de setores que extraem lucro da edificação da miséria. Pois é isso o que aguarda a população dendroclasta num futuro bem próximo.

Invoque-se novamente o testemunho de Carlos Nobre, este sim, um brasileiro patriota, que enxerga a nefasta atuação de dois fatores: a cupidez, a ganância e a ignorância ou a má-fé deliberada: “É irônico ver empresas que dependem tanto de ciência para desenvolvimento de seus produtos, patrocinarem de forma irresponsável e antiética pseudociência, pensando somente no lucro que a expansão da fronteira agrícola vai lhes trazer”.

 O trágico é que as vítimas desse comportamento malévolo atingirão inocentes: as gerações do porvir, pelas quais o constituinte escreveu de forma pioneira o artigo 225 do Pacto Fundante que completa 30 anos sob o mais cruel desrespeito.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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Se Não Começar Em Casa…

Uma das inúmeras tragédias brasileiras é o analfabetismo. Não apenas aquele de quem desconhece o alfabeto, não consegue ler nem escrever. Mas aquele disfarçado por dificuldades em soletrar, impossibilidade de entender o que leu, inviabilidade de descrever, em outras palavras, o trecho cuja leitura acabou de fazer.

Imensa a legião dos desprovidos de capacidade leitora neste pobre País. Já se tentou fazer do Brasil “uma nação de leitores”. Mas os sucessos são escassos. A situação rima com fracasso e não com êxito.

Por que isso?

Inúmeras causas. Evidencia-se um escancarado retrocesso intelectual nas últimas décadas. Universalizou-se o acesso à escola. Mas a escola adestra a memória e não estimula a criatividade.

O livro era o companheiro da decência. Não era necessário ser rico para ter acesso à leitura. Havia bibliotecas, havia Gabinetes de Leitura, havia Clubes do Livro e Círculos de Leitura.

Os pais interessados em estimular sua cria ao domínio do conhecimento, premiavam com livros. Quando alguém conseguia “melhorar de vida”, planejava uma casa em que a biblioteca merecia lugar de honra.

 E hoje? Os pais não leem para os filhos. Não dão livros para os filhos. Mas têm dinheiro para prover a criança de um celular. O mobile tem benefícios, é óbvio. Mas quanto tempo o filho passa a jogar, a procurar superficialidades e a visitar páginas perigosas, em lugar de se abeberar de sabedoria? Quem já viu uma criança ou jovem ler um livro eletrônico por inteiro?

As livrarias estão fechando. Por falta de clientes. Até aquelas que são pioneiras, consideradas espaços atraentes, sofrem com os contínuos passeios de circunstantes que olham, folheiam, examinam, observam. Saem sem nada comprar.

Jovens pais levam seus filhos à livraria que proveu considerável espaço para livros infantis. Deixam as crianças à vontade enquanto se distraem. Nem sempre chamam a atenção quando esses futuros “leitores” estraçalham o livro, rasgam, urinam ou vomitam sobre eles. Pois a criança é imprevisível. Quem tem filhos sabe disso.

O drama é que vão embora, tranquilamente, sem chamar a atenção ou sem indenizar o livreiro.

Prevalece o egoísmo, a insensibilidade, a falta de polidez e além de não colaborar com o projeto da permanência das livrarias, ainda se fornece eloquente mau exemplo para uma geração treinada para exercer a tirania.

Se isso não é a regra geral, não representa também a exceção. Tanto que o número de livrarias fechadas, de editoras que cerram suas portas, é crescente e contínuo.

O lar, a família, o recôndito doméstico é o lugar em que tais valores poderiam ressurgir. Alguém vislumbra prenúncios de que as coisas vão melhorar?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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FINLÂNDIA X BURUNDI

A ONU divulgou seu relatório de 2018 sobre os países mais felizes do mundo. A Finlândia foi a vencedora, superando a Noruega que, em 2017, fora o espaço nacional em que os moradores se sentem melhor em todo o planeta. Já o último lugar ficou com o Burundi, pequeno país africano.

Como é que se afere a felicidade de um povo?

A ONU leva em consideração a pontuação acumulada de cada país em relação ao PIB, políticas sociais, expectativa de vida saudável, liberdade social, generosidade e ausência de corrupção.

Consoante esses critérios, depois da Finlândia vêm Noruega, Dinamarca, Islândia, Suíça, Holanda, Canadá, Nova Zelândia, Suécia e Austrália.

Foram 156 países avaliados e nem se divulga o lugar do Brasil, mas de acordo com os últimos episódios, não se pode esperar esteja entre os cem primeiros. Enquanto isso, os Estados Unidos estão em 18º lugar e perderam em felicidade para o ano passado, quando ocupavam o 14º posto. Parece que o americano se torna mais infeliz à medida em que se torna mais rico.

É que ali o desemprego continua forte, há uma crise social, mais desigualdade e menos confiança no governo. Não ajuda a criar expectativa de melhores dias, as atitudes tomadas pela Presidência de separar crianças de seus pais imigrantes, nem de se fechar ao restante do mundo, de abandonar o Tratado de Paris e fazer de conta que tudo o que está acontecendo no Planeta é natural e não resultado da inclemência do bicho homem.

O Reino Unido está em 19º lugar e os Emirados Árabes em 20º. Mas a felicidade não é aferível de acordo com índices tangíveis, números convencionais e estatísticas matemáticas. O ser humano é um animal dito racional, que pode encontrar tranquilidade e paz dentro de sua própria consciência.

Quem vive satisfeito com aquilo que tem, não inveja quem acumula mais, acredita que nas coisas singelas reside o que é fundamental e está em equilíbrio nas quatro esferas imprescindíveis de relacionamento – consigo mesmo, com o próximo, com a natureza e com a transcendência – sem dúvida chegará o quão próximo seja possível da ideia humana de felicidade. O problema é que somos complicados. Gostamos de encontrar motivos para lamentar, para nos sentirmos injustiçados, para colocar nos outros a responsabilidade por nosso mal estar. Assim não dá para ser feliz!

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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