Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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QUANDO VAI CHEGAR AQUI?

Um dos problemas brasileiros decorrentes de nossa incipiente consciência a respeito de sustentabilidade é o da ausência de logística reversa. No Primeiro Mundo, quem fabrica um produto é responsável por sua vida útil e pela reciclagem do que restar após haver atendido à destinação para a qual preordenado. Aqui, além de inexistir essa responsabilidade por parte do fabricante, a quase inexistente educação ambiental acarreta danos nefastos para a natureza e para as pessoas. Tudo é descartável, tudo é arremessado fora nos lugares mais insólitos. Lixo abundante e disperso. Cidades imundas. Atestado de nossa total ignorância ecológica.

Enquanto isso, a 4ª Revolução Industrial a produzir milagres. O gerenciamento de ativos por parte de quem possui discernimento é inteligente. Produtos e serviços se beneficiam da melhoria de recursos digitais que agregam valor e geram renda maior para fabricantes e prestadores.

Novos materiais convertem os bens em coisas mais duráveis e resistentes. Dados e análises transformam o papel da manutenção. A Tesla comprova que as atualizações de software e conectividade por meio da tecnologia “over-the-air” (no ar), podem ser utilizadas para aprimorar um automóvel. Isso acabará com a depreciação que todos experimentamos. Quem já não sofreu a decepção de sair com o carro zero da concessionária e tomar conhecimento de que, naquele dia, ele já perdeu 30% do seu valor de compra?

A manutenção proativa maximiza a utilização do produto. Em lugar de procurar falhas específicas, usam-se dados comparativos sobre o desempenho, com base nos informes colhidos pelos sensores e monitorados por algoritmos. Eles avisam quando uma parte do equipamento está fora dos parâmetros normais de funcionamento.

Imagine-se o que isso poupará de acidentes e de mortes, em relação às aeronaves. Monitoramento exato permitirá detectar falhas e proceder aos reparos necessários ou à eventual substituição da peça defeituosa.

Abre-se um potencial enorme de diversificação de negócios, de melhor aproveitamento do material, de economia e de racionalidade, mas isso é próprio de países que passaram por guerras, que sabem o valor das coisas e que não foram abençoados com um solo fértil, “no qual em se plantando tudo dá”. Em países deste último tipo, prepondera o desperdício, a cultura do descarte, a falta de interesse em sair da pobreza material, que só é inferior à indigência moral de grande parcela dos que se dedicam à política.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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TEIMOSIA CAUSA CEGUEIRA

Há cinco séculos, Michel de Montaigne criticava a educação convencional. Coloca-se um número de várias dezenas de pessoas no mesmo espaço, faz com que elas se enfileirem e as submete ao mesmo sacrifício: ouvir preleções em silêncio. São pessoas com identidade, temperamento, inclinação, origem e anseio muito próprio. Transmite-se o mesmo conteúdo. E depois se estranha quando apenas quatro ou cinco “dão certo na vida”.

Ninguém ouviu Montaigne, nem leu os seus “Ensaios”. Continua-se a fazer tudo igual. Mas nem todos. A Nova Zelândia, por exemplo, não acredita no velho esquema. Dá às suas escolas um grau de autonomia como não existe no restante do planeta. Em 2017, foi o país eleito como o que melhor educa para o futuro, pela revista britânica “The Economist”.

Deixou para trás Canadá, Finlândia e Suíça, que também concorriam em quesitos como presença de resolução de problemas nos currículos e percentual de gastos na educação. O Brasil, entre 35 países, ficou em 22º lugar. A receita é bem conhecida: aprender não é decorar. As crianças praticam aprendizagem com objetos como serrotes, martelos, enxadas.  Isso é mais producente do que ensinar a decorar coletivos, por exemplo.

A resposta dos professores é “Faça você mesmo!” ou “Pergunte antes a três colegas”. O professor inglês Richard Wells, que se mudou para a Nova Zelândia, chamou o País de “paraíso da aprendizagem”, no livro que escreveu em 2016. Conta que ouviu de um aluno: “O senhor poderia, por favor, parar de falar?”. Foi durante uma aula em 2009, quando ele ainda exercitava o método clássico de ensinar. “Se o professor fala por mais de 15 minutos, está errado. O jovem não se concentra mais do que isso com alguém à frente da sala”.

Os alunos escolhem o que querem aprender, num cardápio de 40 opções, dentre as quais marcenaria, programação, culinária ou jardinagem. Eles têm 6 matérias por série no currículo. Apenas por alguns semestres são obrigatórias inglês, matemática, ciências, filosofia, estudos sociais e educação física. O restante é eletivo. No Brasil ainda temos 13 disciplinas. E milhares – sim, são milhares! – de projetos de lei para incluir novas disciplinas no currículo oficial, tanto do Ensino Fundamental como do Ensino Médio.

É claro que Nova Zelândia e Brasil são muito diferentes. Sua população é de 4,7 milhões. A nossa, 208 milhões. O IDH deles é o 13º e o nosso, o 79º mundial. No PISA, em matemática eles estão em 22º e nós em 65º. Em leitura, eles são o décimo, nós o sexagésimo segundo. No ranking de percepção sobre corrupção, Nova Zelândia é o país com menor percepção de corrupção em todo o mundo. Nós estamos em 96º.

Mas exatamente porque somos enormes, gigantescos, somos vários Brasis, mais se justifica prestigiar as diferenças, a heterogeneidade e se conceder mais autonomia às escolas.

Impera a tendência à homogeneidade, à blindagem, a preocupação com rankings que, paradoxalmente, sempre nos reservam os piores lugares. Mas a teimosia é um vício que também leva à cegueira. E o pior cego é o que não quer enxergar.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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O BRASIL MELHOROU?

Para 72% da população, o País piorou! Ou seja, sete em cada dez brasileiros acredita que a situação do Brasil deteriorou nos últimos meses. Em abril, esse percentual era de 52%. E a expectativa para o futuro, em compensação, também não é boa. A maior parte dos que foram ouvidos acreditam que nada vai melhorar.

Indagados sobre a vida pessoal, 49% dos brasileiros dizem ter sofrido retrocesso econômico. Não há dúvida de que o mau humor é o sentimento disseminado nesta República pessimista, que não vê motivos para se entusiasmar. A inflação, silenciosa e insidiosa, chega aos postos de gasolina e aos supermercados. Os planos de saúde, pagos por aqueles que são esfolados com a mais alta carga tributária do planeta, aumentaram 22%. O desemprego aumentou. De 12,2% no trimestre passado, chegou a 12,9% no segundo trimestre de 2018. E o dólar subiu, o euro também, trazendo pânico para o mercado.

Enquanto isso, as promessas dos candidatos estão na platitude. Ninguém assume a coragem de dizer que o governo é excessivo, que há Estados-membros que não têm condições de subsistência só por si – e deveriam voltar a ser Territórios – e que os municípios idem – se não têm receita, têm de voltar a ser distritos.

Quem é que acredita na redução do número de partidos políticos? Ou na extinção do Fundo Partidário? Ou na proposta de que o exercício legislativo seja gratuito, por pessoas eleitas que continuem a extrair seu sustento de suas profissões, já que não existe a “profissão político”?

O povo tem razão, portanto, para estar descrente. É por isso que a nata da inteligência vai para outros Países. E que haja uma grande vontade de ir embora, por parte daqueles que não podem sair ou não têm para onde ir. Pois se pudessem e tivessem, já teriam partido.

O que será do amanhã, se ninguém consegue diagnosticar o que é, como pensa e o que fará a geração que já nasceu conectada à internet? Para a “geração morango” da China, o diagnóstico é de que ela tem ótima aparência, mas é facilmente esmagada por qualquer pressão. Para a agência americana Box1824, ela é a GenExit – geração saída – exatamente porque está ansiosa em busca de saídas para a armadilha de um mundo sem promessas, nem ilusões. Há rótulos, há explicações, há teses e há versões. Só não há certeza quanto ao amanhã.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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QUANDO VAI CHEGAR AQUI?

Um dos problemas brasileiros decorrentes de nossa incipiente consciência a respeito de sustentabilidade é o da ausência de logística reversa. No Primeiro Mundo, quem fabrica um produto é responsável por sua vida útil e pela reciclagem do que restar após haver atendido à destinação para a qual preordenado. Aqui, além de inexistir essa responsabilidade por parte do fabricante, a quase inexistente educação ambiental acarreta danos nefastos para a natureza e para as pessoas. Tudo é descartável, tudo é arremessado fora nos lugares mais insólitos. Lixo abundante e disperso. Cidades imundas. Atestado de nossa total ignorância ecológica.

Enquanto isso, a 4ª Revolução Industrial a produzir milagres. O gerenciamento de ativos por parte de quem possui discernimento é inteligente. Produtos e serviços se beneficiam da melhoria de recursos digitais que agregam valor e geram renda maior para fabricantes e prestadores.

Novos materiais convertem os bens em coisas mais duráveis e resistentes. Dados e análises transformam o papel da manutenção. A Tesla comprova que as atualizações de software e conectividade por meio da tecnologia “over-the-air” (no ar), podem ser utilizadas para aprimorar um automóvel. Isso acabará com a depreciação que todos experimentamos. Quem já não sofreu a decepção de sair com o carro zero da concessionária e tomar conhecimento de que, naquele dia, ele já perdeu 30% do seu valor de compra?

A manutenção proativa maximiza a utilização do produto. Em lugar de procurar falhas específicas, usam-se dados comparativos sobre o desempenho, com base nos informes colhidos pelos sensores e monitorados por algoritmos. Eles avisam quando uma parte do equipamento está fora dos parâmetros normais de funcionamento.

Imagine-se o que isso poupará de acidentes e de mortes, em relação às aeronaves. Monitoramento exato permitirá detectar falhas e proceder aos reparos necessários ou à eventual substituição da peça defeituosa.

Abre-se um potencial enorme de diversificação de negócios, de melhor aproveitamento do material, de economia e de racionalidade, mas isso é próprio de países que passaram por guerras, que sabem o valor das coisas e que não foram abençoados com um solo fértil, “no qual em se plantando tudo dá”. Em países deste último tipo, prepondera o desperdício, a cultura do descarte, a falta de interesse em sair da pobreza material, que só é inferior à indigência moral de grande parcela dos que se dedicam à política.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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VOCÊ É DO CONTRA?

A cultura organizacional é um tema instigante. A maior parte do sucesso de uma empresa depende de sua organização. Estrutura, hierarquia, foco, missão e ambiente de trabalho.

Em regra, acredita-se que a harmonia entre os humanos que fazem a empresa funcionar depende de um clima de absoluta harmonia. Mas não é o que os especialistas em cultura organizacional americanos Adrian Gostick e Chester Elton afirmam. Quando não há contestação não há inovação. Pode parecer contraintuitivo, mas a maioria dos líderes acha que as pessoas com ideias radicais atrasam as coisas, pois desafiam os processos. Mas é comum que o radical leve à melhoria. Gostick sabe o que diz, pois publicou este ano o livro “The Best Team Wins” (O melhor time ganha).

Para os conselhos que dá nessa obra, estudou 850 mil profissionais de empresas dos mais diversos setores. O desacordo entre as equipes faz com que novas ideias apareçam. Se todos concordam, tudo continua a acontecer como sempre foi.

Abrir espaço para o diálogo, deixar que todos se exprimam com liberdade, faz com que, ao se chegar ao consenso, todos se sintam responsáveis. Há CEOs que se utilizam dessa estratégia e são exitosos. Levam para a sua equipe o elemento “do contra” que, de início, gera desconforto. O restante da equipe resiste, mas o “brainstorm” que se instaura é salutar. O grupo fica mais coeso. Sente-se, de verdade, uma equipe.

Quem pensa diferente causa ruído. Mas faz os outros pensarem. Pois a harmonia total é uma utopia. A discussão é própria do ser humano. Quem não discute não pensa. É só verificar as conversas sobre futebol, sobre política, sobre a roubalheira que ocorre no Brasil e aferir as receitas que as várias pessoas fornecem para debelar a corrupção. Existe o consenso absoluto? Muito raro.

Por isso é que no trabalho também é fundamental que você esteja inteiro, ponha a sua cabeça a pensar. Não é entrar na repartição, no escritório, no departamento, no setor, na oficina e deixar de fora o seu cérebro, para só obedecer ao chefe. Isso os robôs fazem melhor do que você. Por isso, se não quiser vir a ser substituído por uma máquina, trate de pensar, de emitir opinião e de se fazer ouvir. Ainda que você seja “do contra”.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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POBRES CRIANÇAS

Às vezes me apiedo das crianças de hoje. Em 2030, haverá no Brasil mais idosos do que jovens. As crianças de hoje terão de se encarregar da velhice. Não é uma tarefa muito fácil. Mas anima-me a certeza de que elas darão conta. Basta investir numa educação consistente, lembrar ao jovem que o problema da juventude o tempo resolve. E que ficar velho é melhor do que a alternativa: morrer moço.

Vejo que hoje o conceito de velhice é outro. Idade é uma contingência que pode ser encarada de muitas formas. Convivo com pessoas mais idosas do que eu e com outras que têm décadas menos. Procuro me situar e aprender com todas as idades.

Animo-me com gestos como o de Abilio Diniz que, aos 81, lança plataforma digital gratuita para garantir longevidade com bem-estar. Sua ideia é agrupar no espaço pesquisas e projetos amparados em evidência científica, além de narrar sua experiência pessoal, sem desprezar a de outros indivíduos e organizações interessadas no envelhecimento.

Para Abílio, “envelhecer é uma certeza; envelhecer com qualidade é uma escolha. Para isso, você tem que começar a se preparar antes”. Ele diz ter começado aos 29 anos e espera viver mais 20 ou 30.

            A plataforma www.plenae.com tem seis pilares: 1. Corpo: sono, alimentação, exercícios; 2. Mente: estresse, aprendizagem; 3. Relações: família, comunidade; 4. Espírito: fé e meditação; 5. Contexto: renda, educação; 6. Propósito: sentido de vida.

Dentre os seis pilares, escolhe a alimentação como o aspecto mais importante para se chegar a uma idade avançada e fisicamente bem, além de estar com a cabeça em ordem. Comer pouco é a receita fundamental. Consumir apenas o que será queimado. Com a chegada dos anos, comer ainda menos.

Atividade física é também essencial. Não é preciso competir. Mas é necessário o exercício de fortalecimento. Principalmente dos músculos das pernas. Pouca gente cuida de evitar as piores consequências da sarcopenia, a morte das células que compõem os músculos. Ela é infalível, mas seus efeitos podem ser amenizados com exercícios constantes.

Outro conselho do Abílio é cuidar de não cair. As quedas, para os idosos, são fatais. Comendo pouco, caminhando muito, não caindo, olhando a vida com amor e tendo fé, não é impossível chegar ao centenário.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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