Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

ESTAMOS ANESTESIADOS?

3 Comentários

Parece incrível que o ser humano, em pleno século 21 da era cristã, se acostume com a mais avançada tecnologia, tenha alcançado a longevidade, se comunique instantaneamente com as mais longínquas partes do planeta e conviva com a miséria estética e com a sujeira das cidades.

Uma reportagem de Ricardo Kotscho publicada na FSP de 26.7.18 é um relato melancólico da situação paulistana. Começa com a fala do alagoano Lucas Paulino, 85, engraxate no centro da capital, desde 1954. Ele é muito preciso quando observa: “São Paulo acabou. O Brasil acabou, rapaz. Estou sentindo muito pelos meus bisnetos. Quando cheguei aqui só tinha metade da catedral, foi o Juscelino quem deu o dinheiro para fazer as torres. Meus fregueses usavam terno, gravata e chapéu, era todo mundo muito educado, muito respeitoso. Depois foi mudando tudo, tudo para pior”.

A Praça da Sé parece um território perdido e totalmente dominado pelo abandono. Pivetes descalços andando sem rumo, os moradores de rua jogados no chão no meio do lixo, drogados lavando roupa e tomando banho na água suja dos espelhos d’água. Pastores pregando para ninguém, homens-placa que compram ouro, gente correndo e se espalhando para todo lado quando o helicóptero da polícia sobrevoa a praça.

Paulo Bomfim, o Príncipe dos Poetas Brasileiros e um patrimônio do Tribunal de Justiça, já não tem coragem de levar visitantes estrangeiros para visitar a cripta da Catedral. Sacos de lixo avolumam-se nos passeios e papelão serve de cama para uma população que só cresce. Cobertores jogados mostram que os desvalidos não guardam para si os donativos das campanhas de inverno.

E assim é em todos os espaços da capital. A Cracolândia continua, agora pulverizada. Dos Campos Elíseos passaram a Santa Cecília, Barra Funda, Bom Retiro e Higienópolis. A Avenida Paulista congrega todas as tribos e o comércio ambulante prepondera, assim como os desempregados que, não tendo ocupação mais lucrativa, ficam abordando os transeuntes para entregar panfletos ou cartões com endereços.

Não há mais espaço na capital que lembre a São Paulo educada de há algumas décadas. O retrocesso é tamanho, que o cenário recorda os campos de refugiados, os campos de garimpo de Serra Pelada, com a droga prevalecendo como o ingrediente mais consumido e mais procurado. Para Ricardo Kotscho, “Em SP, tudo gira em torno de alguns gramas de crack, o combustível que move este circo de horrores e só faz crescer a sensação de insegurança de quem mora ou circula por estes pontos históricos da “Cidade Linda”. Anestesiados, já nem sentimos que perdemos a cidade e somos condenados a perder a cidadania.

Triste sina da metrópole que chegou ao declínio sem ter atingido o seu ápice, como lamentou Claude Lévy-Strauss ao voltar à Paulicéia depois de cinquenta anos.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Ambiental”, 4ª ed, RT-Thomson.

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Autor: Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e Conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

3 pensamentos sobre “ESTAMOS ANESTESIADOS?

  1. Bom Dia, Dr!

    O que fizemos com nossa metrópole? A responsabilidade é de todos, entretanto, a migração desenfreada que começou a ocorrer a partir de 1950, com certeza, foi uma das principais causas. Não dá para São Paulo permanecer de “braços abertos”, se os próprios filhos paulista padecem…

    Grande Abraço!

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  2. É fato. Nasci aqui e acompanhei de perto essa degradação. Lembro que caminhava com meu avô, Esar Zacharias André, ele já com seus 70 anos de idade e eu com 26 anos, da rua Marquez de Itu, Vila Buarque, até o Largo do Arouche, para juntos assistir um filme no cinema que ficava ao lado da loja Wengril de instrumentos musicais, não fomos incomodados, com quase 100% de certeza seriamos incomodados por algum transeunte destes muito bem descrito pelo articulista Dr. José Renato Nalini. Ressalto, não era 1954, se não nem havia nascido, era 1988. Estamos em 2019, passaram – se 21 anos deste relato e não posso ficar só no adjetivo “anestesiados” preciso de um mais contundente, incisivo para descrever a inércia, apostasia e indiferença frente a um quadro de pior que abandono, e como bem expressou o, Dr. Nalini, uma cidade “campo de refugiados”. Eu iria além, uma cidade abandonada a própria sorte, onde os habitantes que nela residem nem sabem como reagir a tal anacronismo, destruição e negligência, mas negligência de quem? Dos agentes públicos? Ora, eles não são eleitos por estes mesmos que convivem com este habitat fétido? A nossa indignação, nossa de quem? De alguns poucos que não estão anestesiados como o jornalista Ricardo Kotcho e o Escritor Dr. José Renato Nalini, que nasceu em Jundiai, mas escreveu uma vez também do vandalismo no Largo do Arouche onde gostaria de ver o busto de cada imortal da Academia Paulista de Letras à vista do público e eu o aconselhei a não fazer isso porque em pouco tempo teria sido destruído.

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  3. Muito pertinente esse assunto, lamento diariamente, mudei para região da granja Viana cotia por não aceitar. Morei sempre entre Pacaembu e Higienópolis. A casa que nasci ainda é minha e de meus irmãos, hoje temos um famoso salão de beleza Light look, comandado por minha irmã Marly, sou sócio minoritário também. Meu pai era dono de hotéis na região central, recebíamos gente do Brasil pela rodoviária que lotavam os hotéis e comércio local, elegante. Iamos almoçar e tomar coalhada no almanara, gato que ri, dulca, kopenhagen, lojas de roupas, muito emprego, até hoje não sei porque raios do inferno mudaram a rodoviária para aquela região nada a ver !!!algo tão inexplicável quanto mudar a capital do Brasil para Brasília, destruiu o Rio de Janeiro, e nos custa caro até hoje. Quero muito aproveitar esse contato muito gostoso que temos no blog do Nalini. Para juntos reconsttuirmos nosso centro de São Paulo SP. Não entendo como são Paulo com tantos governos bons, Maluf, Covas, Alkmin, agora Doria e Covas, não nos trazem o centro de volta!!! Vamos fazer nossa parte e trazer sempre a história linda da nossa cidade até os anos 70.

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