Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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PREFIRO IR A PÉ

Tornamo-nos preguiçosos e dependentes dos automotores. Endeusamos o veículo mais egoísta que ainda existe, que é o carro. Alguns de nós achamos bonito andar de metrô em Paris, ou em Nova Iorque, mas no Brasil preferimos automóvel.

Talvez por isso, nunca se tenha tanta gente com hipertensão, diabetes, obesidade. Relegamos o caminhar e só usamos as esteiras das academias quando obrigados por nossos médicos.

Entretanto, é tão natural e tão bom andar a pé!

Tudo recomenda e nada impede a locomoção passo a passo. Afinal, o passo é o movimento natural dos humanos. O site procoletivo.com.br, com e-mail procoletivo@gmail.com, fornece dez motivos para estimular a caminhada. Deles me aproprio agora e partilho com os leitores.

Caminhar diariamente faz bem para a saúde do pedestre e da cidade. Não polui e gera economia. Favorece as relações interpessoais. Pense no prazer de levar filho ou neto à escola. Ou de sair com os colegas na hora do almoço. Fortifica os vínculos, reenergiza os relacionamentos.

Quem caminha fica mais engajado com a comunidade. É bom para a coletividade. Percebe as qualidades do convívio, pois há muita gente carente de atenção e querendo conversar e também ajuda a detectar os defeitos e cobrar atuação do governo.

Aristóteles considerava andar como a melhor forma de pensar. A atividade física promove a neurogênese, produção de novos neurônios. Criamos novas conexões intraneurais com o aprendizado de movimentos novos.

É a forma natural e mais sedutora de conhecer pessoas e lugares incríveis. Permite descobrir detalhes antes ignorados. Muito bom também é caminhar junto. A Corrida Amiga, por exemplo, é uma rede de voluntários que auxilia as pessoas a se deslocar a pé pelas cidades. Quem se inscreve no site corridaamiga.org pode conseguir um voluntário para acompanha-lo nos primeiros trajetos.

Andar é o vício do bem. Só traz coisas boas. Os andarilhos contumazes, que trocam o carro pelo tênis têm mais energia e bom humor. O corpo fica mais forte, o coração menos vulnerável, estimula-se a função imunológica e protege contra gripes e resfriados.

Ajuda a emagrecer. Uma pesquisa de Harvard revela que andar a pé, quando é um hábito diário e de forma acelerada, neutraliza os genes que produzem obesidade. E um estudo da Universidade de Exeter, na Inglaterra, comprova que os quinze minutos diários de caminhada são suficientes para baixar os níveis de ansiedade. Mas também melhora a hipertensão, reduz colesterol e faz com que seu corpo evidencie que você está vivo, de bem com a vida e com mais vontade de viver.

E você? Já começou a caminhar ou ainda está lendo esta mensagem?

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.

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COLAR GUILHERME DE ALMEIDA

Aos meus amigos que puderem, estão convidados para a outorga do  Colar Guilherme de Almeida.

Acontecerá sexta-feira, 28 de junho, 19 horas, na Câmara Municipal, Palácio Anchieta, Viaduto Jacarei nº 100 – 8º andar – Bela Vista – São Paulo-SP.

Conto com a sua presença!

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QUAL ESQUECIMENTO?

Fala-se muito hoje sobre o “direito ao esquecimento”. Há bons motivos para sustentar o fim da angústia de quem se vê atormentado por um passado que teima em não desaparecer. Louvável a preocupação.

Nada obstante, parece difícil – senão impossível – a consecução desse desiderato.

A Constituição do Brasil de 5.10.1988 abriga valores antagônicos no seu artigo 5º, que faz exaustiva e nunca definitiva relação de direitos individuais fundamentais. Essa mais do que potencial colisão está presente no tema – privacidade (ou intimidade) x transparência (ou publicidade).

Vários sintomas sugerem que a “queda de braço” entre esses dois bens, ambos protegidos pela ordem fundante, por enquanto mostra a vitória da publicidade ou da transparência. Em evidente detrimento da privacidade ou intimidade.

Primeiro, porque a cultura contemporânea é propagadora do exibicionismo. Quase todos querem os seus “minutos de glória” ou de fama. À falta de fogueira das vaidades, há muito fogareiro, lamparina ou minúscula chama acesa para incensar tal sentimento vão, mas que costuma escolher por domicílio o coração dos homens. Usei domicílio pensando na residência com ânimo definitivo. A vaidade é companheira de grande parte da espécie humana.

Tal ambiente favorece a disseminação da imagem. O culto ao “self” é uma prova disso. As redes sociais constituem autêntico testemunho dessa busca de celebridade, de se eternizar, ilusoriamente, é claro. Pois todos sabem, muito embora queiram disfarçar, que a única certeza para todo ser vivo é a morte. Por isso é que o indivíduo humano é também chamado “mortal”.

A incruenta revolução das tecnologias da informação e da comunicação criaram realidade incrível. O mundo digital permite a comunicação online e instantânea com todos os quadrantes do planeta. Inúmeras as vantagens, mas reforça a busca do exibicionismo. Escancara-se a intimidade, partilha-se cada momento existencial, como se todas as experiências merecessem publicidade.

Essa realidade que mudou o convívio e que alterou, profundamente, a mentalidade dos seres humanos, é provida de tal requinte tecnológico, que nada mais desaparece. A cena que se gostaria de evitar vai estar, permanentemente, à disposição. A frase da qual se arrepende nunca mais voltará à sua origem, ou seja, a sua formulação mental antes de se transformar em setas disparadas que nunca mais voltam ao arco.

Por isso é que o esquecimento efetivo, real e definitivo, parece uma falácia. O passado está sempre à disposição. Torna-se um eterno presente e uma certeza de permanência também para o futuro.

Coibir a divulgação daquilo que ocorreu no mundo fenomênico é missão impossível. Qual fantasma ubíquo, as cenas, as fotos, as falas, continuarão a povoar o pesadelo dos ameaçados e, muita vez, poderão se concretizar. Por mais nefastas sejam as suas consequências.

Esquecimento mesmo, só existe naqueles acometidos do mal de Alzheimer, castigo para os familiares, mas fuga e refrigério para os portadores dessa patologia que atinge milhões de pessoas. O enfermo talvez se acalme e não se assuste mais, diante da possibilidade do “eterno retorno” daquilo que o atormente.

No mais, as tentativas de prestigiar o explicável “direito ao esquecimento” residem nas saudáveis intenções que movem o humano a acreditar que ele muda o imutável e que é capaz de inverter a ordem natural das coisas. Vã e vazia ilusão de um vaidoso com limitado prazo de validade.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.       

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COMO APRENDER DIREITO?

O Brasil, com suas mais de 1.300 Faculdades de Direito, não tem primado pela originalidade. Continua a produzir bacharéis no padrão de Coimbra que, ao ser transplantado para o Brasil em 1827, já possuía uma experiência milenar, eis que inspirada em Bolonha. A Universidade de Bolonha é do século XIII, mas desde o oitocentos já se aprendia ciência jurídica.

Sinal dessa atrofia é o fenômeno da judicialização da vida brasileira. Tudo aquilo que poderia ser solucionado mediante o diálogo, ferramenta de obtenção do consenso, é submetido à apreciação de um juiz. O Judiciário não dá conta de responder a todas as demandas e as críticas se avolumam, na mesma proporção da formação de autos: aqueles robustos calhamaços de papel. A informatização ainda não surtiu todos os benéficos efeitos que dela se espera.

Mas aprender Direito poderia ser algo mais simples. Começaria em casa. Porque a origem etimológica de “direito” não poderia ser mais compatível com a ideia que exprime: aquilo que não é torto. Aquilo que é certo. Que é correto. Que é decente!

É no lar que as mães – principalmente as mães – ensinam as pessoas a respeitar as outras. A ter limites. A reconhecer no próximo um ser que merece a mesma consideração que se espera merecer do outro.

A observância espontânea das obrigações, dos deveres e responsabilidades já seria um estupendo salto qualitativo no ensino do direito. A ciência jurídica é um compartimento ético. Tudo pode ser bem explicado à luz dos círculos concêntricos: o raio maior é o das convenções sociais. A polidez, a boa educação de berço, as regras de tratamento. Em seguida, um círculo menor comporta a área reservada às regras administrativas e disciplinares. Adentrando ao centro do círculo, vêm as normas civis, para culminar no menor espaço – o quanto mais reduzido melhor – das infrações penais.

A última escala da degradação humana é a prática de ilícitos criminais. Mas permeando todas as camadas concêntricas, está a ética. A ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade. É uma preocupação perene e transversal a todas as formas de atuação dos seres racionais nessa frágil e efêmera passagem pelo planeta Terra.

Se isto impregnasse a cultura dos educadores da Ciência Jurídica, para adequada transmissão ao alunado, esta Nação recuperaria a noção do justo, do adequado, do sensato e do racional.

Entretanto, não é o que acontece. Muitas Faculdades oferecem ao acadêmico de Direito apenas o diploma, pré-requisito a que ele possa vir a desempenhar a profissão de advogado. Não é incomum que o curso contenha o mínimo de conteúdo, insuficiente para habilitar o bacharel a submeter-se ao Exame de Ordem, promovido pela OAB, com chances de vir a ser aprovado logo na primeira vez.

Outras que nasceram como “nichos de excelência”, oferecem uma formação direcionada. São filhos de famílias de elite e já têm destinação prevista. Cuidarão das empresas, das fazendas, dos interesses dos genitores. Não necessitarão do diploma para exercer profissão jurídica.

Nessa categoria, algumas escolas se especializam na produção de advogados empresariais e focam sobretudo as questões que interessam ao mundo de negócios. Direito Tributário é um alvo muito contemplado, porque o Estado guloso costuma levar parcela considerável do trabalho desenvolvido pelo empreendedor. É preciso saber lidar com a volúpia fiscal do governo.

A maioria das Faculdades de Direito prioriza o processo, por considera-lo a única forma de resolução de controvérsias. Isso já foi verdade. Ante a justiça pelas próprias mãos, a lei de Talião foi um progresso, pois trouxe proporcionalidade: “olho por olho, dente por dente”. Finalmente, considerou-se conquista civilizatória o processo judicial: um terceiro neutro soluciona a questão mediante incidência concreta da norma abstrata sobre a situação fática submetida à apreciação do julgador.

Isso está superado. O grau civilizatório se avalia pela condição de obter consenso mediante o exercício do diálogo. Uma sociedade ideal é aquela em que a observância espontânea das normas de conduta não necessita da intervenção formal, dispendiosa e lenta de uma estrutura sofisticada como a do Poder Judiciário.

Conduzir todas as questiúnculas ao equipamento da Justiça, tão sobrecarregado e tão burocratizado, é preservar um clima de animosidade que desagua numa generalizada descrença na função estatal encarregada de compor as controvérsias.

O Brasil precisa de uma cidadania apta a resgatar valores hoje esmaecidos ou em evidente oblívio, para que o povo – único titular da soberania – possa desincumbir-se dos deveres e responsabilidades próprios ao exercício da Democracia Participativa.

Disseminar a cultura de uma civilizada troca de argumentos, mediante uso da comunicação e do discurso como forma saudável de persuasão do outro é missão da qual devem se desincumbir todos os brasileiros de boa vontade. Mas a responsabilidade maior é dessa comunidade jurídica que tende a expandir-se quantitativamente, sem investir no crescimento qualitativo. Este se avalia pela concretização da paz e da harmonia, não pelo número calamitoso de processos judiciais em curso por todos os Tribunais desta República.

O processo já exerceu o seu papel na História do Direito. Deve ser reservado para o que é complexo, para os “hard cases”, não para insignificâncias que só contribuem para o seu desprestígio e, em tantos casos, para a sua desmoralização.

O Brasil e seu futuro merecem mais do que isso.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.

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A NOBRE CLASSE DOS ADESISTAS

A matéria de que é feito o ser humano é miserável. Ordinária, naquele sentido vulgar na linguagem das pessoas simples. Antigamente, chamar alguém de “ordinário” era ofensa grave. Mas as palavras, como os costumes, vão perdendo a seiva. Transmutam-se. Para melhor ou para pior.

O que eu gostaria de sugerir é uma reflexão em torno ao comportamento daquelas moscas varejeiras que gravitam em torno ao poder. Qualquer espécie de poder. Qualquer dimensão de poder.

Em época eleitoral, exacerbam-se as paixões e a ronda se faz diante daquele que ostenta condições de vir a ser o vencedor. Promessas, compromissos, discursos, bravatas.

Apura-se o resultado do pleito. Aquele cortejado não foi eleito. Quase sempre fica sozinho, porque a vitória tem muitos pais, enquanto a derrota é órfã. De pai e mãe.

O mais vergonhoso é verificar que aqueles que ontem bravejavam contra o hoje vencedor, procurem aproximação a qualquer custo. Alguns não se pejam de ser “papagaios de pirata” e ficar ao ombro daquele que está a conceder entrevista. Outros procuram pessoas influentes, tudo para salvar o cargo, a função, o posto sem o qual não sobreviveriam. Pois não são daqueles que enfrentam o trabalho árduo. Não são aprovados em concurso, porque não estudam. Não sabem empreender. São minúsculos satélites em rotação permanente junto a quem simboliza o sol. O sol do poder, do comando, da glória e da fama.

Incrível como não se guarda o “luto” subsequente à derrota daquele que até ontem era seu favorito. Hoje é fácil renega-lo. Assim como Pedro: – Eu não conheço aquele homem! Pedro negou três vezes. Os pequenos traíras negam seguidas vezes. Tudo fazem para preservar as migalhas de um poder carcomido, no qual nem eles mesmos acreditam. Mas a sua tibieza e inferioridade não permitem alçar maiores voos.

Assistir de perto ou ao longe o rastejar dessa raça repugnante seria divertido. Não fora a confirmação de que o gênero humano tem muito a aprender para se tornar efetivamente humano.

Essa praga viceja e grassa em todos os círculos do poder. É a nobre classe dos adesistas. Daqueles que aderem depois da vitória. Querendo saboreá-la como se fosse conquista deles. Pobre gente!

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário da Uninove  e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. RT-Thomson Reuters.

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INVOQUEMOS JOAQUIM NABUCO

A Pátria repartida, com os ressentimentos aflorando e a intolerância mostrando sua face mais repulsiva, precisa buscar no passado o lenitivo que conforta e fornece esperança. Uma figura de que o Brasil tem de se orgulhar e não pode esquecer o culto patriótico a se render aos maiores da Nação é Joaquim Nabuco.

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, quarto filho de José Tomás Nabuco de Araújo, nasceu no Recife, em 19.8.1849. Estudou primeiramente numa escola em Massangana e aos dez anos foi confiado, com seu irmão Vítor, a um educador insigne, o Barão de Tautphoeus, diretor de um colégio em Friburgo. O mestre reconheceu a excepcionalidade do discípulo e escrevia ao pai, o Senador Nabuco: “O Joaquim é um talento transcendente e fora de linha; nunca tive outro aluno de tanta inteligência”.

Foi depois para o Colégio Pedro II e sua maior influência já é a de seu pai. Poeta, lê para os Imperadores numa sessão da Arcádia Fluminense o seu poema “Uruguaiana” e, bacharel em 1865, pelo Colégio Pedro II, começa a estudar direito na São Francisco. Ali preside o Ateneu Paulistano, do qual Rui Barbosa era o segundo orador. Volta a Recife em 1869, para cursar o quarto ano do curso de Bacharelado.

Escreve ao pai dizendo que a glória única com que sonha é que o nome do genitor esteja no decreto que acabar com a escravidão. Em 1878 volta do Recife para tomar assento na Câmara e, num dos primeiros discursos, exclama com franqueza ousada: “Vejo uma situação liberal, um partido liberal, homens liberais, mas não vejo ideias liberais!”. Pois, para ele, só as ideias contam. “Minha questão não é de homens! Os ministérios não duram senão um dia e os princípios sobrevivem!”.

Ao fazer a oração fúnebre de seu amigo, Barão de Vila Bela, afirmou: “Não há senão um meio para resistir a este destino implacável; é substituir os grandes homens que nós perdemos, pelas grandes ideias. É, em vez de pormos nossa confiança em nossos generais, por essa confiança em nossa bandeira”. A tríade pela qual se empenhou: eleição direta, liberdade religiosa e emancipação dos escravos. Temas, de certa forma, presentes até hoje na vida brasileira.

Muitas outras sábias lições podem ser extraídas de uma vida exuberante, que só terminou fisicamente em 17.10.1910.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.

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ESCREVER Á ANUNCIAR-SE AO MUNDO: O INCENTIVO À ESCRITA

Dois ensinamentos da filosofia antiga mostram-se até hoje atualíssimos. O “só sei que nada sei” e o “conhece-te a ti mesmo”. Ambos são associados a Sócrates, mas não é isso o que importa.

O primeiro propõe o cultivo da humildade. É preciso reconhecer que o universo desconhecido é infinito, enquanto nossa capacidade de apreender o conhecimento é limitada. Isso nos impõe um compromisso: aprender algo a cada dia. Um dia na vida em que nada se aprendeu, é um dia perdido.

Há uma figura que ajuda a refletir sobre isso. Aprender é como subir uma escada. A cada degrau, descortina-se um horizonte novo. Quando se chega ao último degrau, o que é que se enxerga: a imensidão daquilo que ainda não descobrimos.

A descoberta da sabedoria lembra a metáfora platônica da Caverna. O mito da caverna é uma estória que conta a vida obscura de seres humanos acorrentados numa gruta, na qual não penetra a luz. A visão é restrita, porque permite apenas observar as sombras dos indivíduos que passam por uma pequena fogueira. Aqueles que estão presos a essa caverna pensam que o mundo se resume a isso.

Um homem audaz consegue encontrar a saída da caverna. Defronta-se com a luz, fica acometido daquela cegueira natural que é encarar o sol, depois de se deixar a sombra. Poucos instantes depois, verifica a grandeza do mundo. Suas cores, seus formatos, sua imensa variedade.

Volta para contar aos antigos companheiros que devem se esforçar e sair da caverna. Mas ninguém acredita nele. Acaba sendo sacrificado pelos moradores da caverna.

O que é que Platão quis dizer com isso? A nossa vida na ignorância equivale a residir na caverna escura. Quem não sabe e não tem noção de quem não sabe, resigna-se a uma vida medíocre. Adquirir sabedoria é enfrentar o sol. A luz solar é o conhecimento. Pode assustar, de tamanha intensidade. Mas depois mostra a vida como ela é. Com seu colorido, com sua multiplicidade, com sua exuberância.

Essa a missão de cada qual. Ainda continuamos, muitas vezes, numa caverna. Tudo aquilo que não conhecemos e por que não nos interessamos é um trecho da caverna que ainda precisa ser superado.

Há muitas cavernas contemporâneas. A caverna da incompreensão, a caverna da intolerância, a caverna do preconceito, a caverna da insensibilidade. É verdade que o ser humano é uma criatura imperfeita, incompleta, cheia de vícios e de defeitos. Mas a sua vocação é a perfectibilidade. Temos de nos encarar como seres que podem e devem ser melhores a cada momento.

Para isso, é preciso acreditar nos próprios talentos. Ninguém nasce completamente desprovido de qualidades. Ao contrário: nascemos ricos em potencialidades. Depende de nós fazer com que elas se concretizem.

O tema “caverna” surgiu neste ano de 2018 naquele episódio de que todo o planeta tomou conhecimento: os meninos da Indonésia que ficaram presos enquanto incursionavam por uma caverna e que foram surpreendidos pela inundação.

Aprendemos com eles um livro inteiro de lições. Não se viu desespero das famílias. Ninguém acusando o professor-guia, nem culpando o governo porque não sinalizara a caverna. Houve uma corrente de fé, de esperança e de certeza de que eles sairiam vivos.

Lição de liderança dentro do infortúnio. Não fora a tranquilidade, a paz, a calma, a prudência e o final da estória poderia ter sido outro.

Quando extraímos algo para as nossas vidas de circunstâncias nas quais não estamos diretamente envolvidos, estamos vivenciando a realidade incontestável do “só sei que nada sei”. Cumprimos o mandamento do contínuo aprendizado. Tornamo-nos melhores, porque esse é o objetivo da obtenção do conhecimento.

Mas existe o outro comando: “Conhece-te a ti mesmo”.

Há pessoas que chegam a idade longeva, alcançam a velhice – e a alternativa a ficar velho é muito problemática, pois seria morrer cedo… – e, na verdade, não se conhecem bem.

Somos entidades complexas. O ser humano não é simples. Basta mencionar a heterogeneidade absoluta entre todos os humanos. Ninguém é igual a ninguém. Mesmo o gêmeo univitelino é diferente de seu irmão. Somos todos singulares, indivíduos irrepetíveis.

Às vezes temos uma vaga noção de quem somos. Mas quantas vezes não nos surpreendemos diante de uma reação inesperada, que não estava nos nossos planos?

Conhecer-se melhor é missão perene e indeclinável. Temos aquelas qualidades naturais que podemos chamar de talentos ou virtudes, mas também nascemos com inclinações, com temperamentos, com DNA que implica em certas tendências. O autoconhecimento permite que lapidemos os nossos atributos, investindo naquilo em que somos bons – e sempre podemos ser melhores – sem deixar de combater nossas fragilidades.

Saber quem somos, o que nos agrada e o que nos irrita, descobrir quais são os anseios profundos, nem sempre coincidentes com aquilo que apregoamos quando inquiridos, é o primeiro passo para a obtenção de uma vida equilibrada.

O equilíbrio é um ideal que nem sempre as pessoas alcançam. Há muitos seres atormentados, infelizes, angustiados. Sigmund Freud chegou a detectar um mal-estar da civilização, característica da idade moderna que permaneceu na contemporaneidade. O que seria tal sensação de desconforto?

As explicações são múltiplas. Há quem diga que ela provém da falta de Deus. Outros explicam à luz da insistência humana em ignorar a morte. O único encontro inadiável é com a morte. A mais democrática das ocorrências é a finitude. Ninguém foge dela. A “indesejável das gentes” é a única previsão insuscetível de equívoco. Quem apostar nela acertará. Ninguém que esteve animado pelo sopro vital, dela escapou.

Mas o equilíbrio, de acordo com a psicologia, é um estágio em que a criatura precisa satisfazer a quatro esferas relacionais. A primeira é, justamente, consigo mesmo. Daí a relevância do “conhece-te a ti mesmo” para a felicidade pessoal. Quem se conhece bem, estará pronto para o enfrentamento com a segunda esfera: relacionar-se com o outro.

Domar os instintos inferiores, aprender a conviver, garantirá um relacionamento estável. Com o parceiro/parceira, com os demais familiares, com os companheiros de trabalho, com os stakeholders, com todas as pessoas. Viver é relacionar-se. Ninguém vive só. Aliás, a hipótese do homem sozinho é uma exceção, desde Aristóteles, até Tomás de Aquino.

Para Aristóteles, o homem é um animal político, no sentido de que, sozinho, não sobrevive. Ao menos com alegria. É de Aristóteles a conhecida expressão: “uma andorinha só não faz verão”. A explicação é natural e singela. Ao contrário de todos os outros filhotes animais, o filho do homem não sobreviveria se não tivesse cuidado permanente de um núcleo. Primeiro da mãe que, por ter dado à luz, pode estar combalida. Mas daquele terceiro que foi o responsável pela nova vida: o pai. Está explicada a origem da família.

Já Tomás de Aquino previu o homem só em três oportunidades: indivíduos muito bem providos de qualidades superiores, não necessitariam do semelhante para sobreviver (excellentia naturae). A patologia de pessoas que nascem com deficiências tão agudas que não conseguem conviver também condenam seu portador a viver sem companhia (corruptio naturae). A terceira hipótese é chamada de mala fortuna: alguém a quem a falta de sorte condena a viver sozinho. É a narrativa celebrada na literatura, cujo herói é Robinson Crusoé. Em virtude de naufrágio, viveu isolado, até que aparecesse o índio que ficou conhecido como Sexta-Feira.

A terceira esfera de relacionamento é com a natureza. E o ser humano está conseguindo rompê-la. Maltrata o ambiente, polui solo, água e atmosfera. Destrói o verde. Acaba com a biodiversidade. Não sobreviverá a espécie se não se converter. E não há muito tempo para isso. Os efeitos do aquecimento global, gerado pela emissão exagerada dos gases produtores do efeito estufa já se fazem sentir.

A quarta e última relação que precisa ser administrada é com a transcendência. O homem não é só matéria. É também espírito. A ciência e a tecnologia avançam, mas não existe resposta definitiva para as perguntas eternas: Por que nascemos? Tudo se acaba com a morte? Para onde iremos depois?

O crente dispõe de um arsenal de respostas para esse questionamento instigante. Quem não crê, precisa encontrar a fórmula de valorizar esta passagem transitória pelo planeta e conformar-se com a inevitável sobrevinda do nada.

A verdade é que ainda não dispomos de material suficiente para arredar todas as dúvidas e para desvendar todos os mistérios. Nossa existência é a busca “de resolver um problema que milênios de especulação e de experiência humana histórica nunca até hoje foram capazes de resolver: descobrir a verdadeira natureza do Espírito e a lei invariável e exata de todas as suas relações com o Não-Espírito, a Matéria e a Vida, ou o misterioso processo de auto-realização do primeiro na história das sociedades humanas”[1]

E a escrita? Onde entra nisso?

Em tudo. Um exercício excelente para o autoconhecimento é escrever uma autobiografia. Como é que você se enxerga? Quais seus pontos altos, quais seus pontos fracos? O que o preocupa, o que o atormenta? Quando se sente completamente realizado? Quais seus anseios, seus sonhos, seus projetos?

Olhar-se interiormente não é tarefa fácil. Todos somos muitos. Somos aquilo que pensamos que somos. Somos também aquilo que os outros pensam que somos. Esses “outros” incluem os próximos, os íntimos, mas também os que nos enxergam de longe.

Será que coincide a ideia que faço de mim com a ideia que os outros de mim fazem? Há muitos perfis de uma única pessoa. Depende da proximidade, das circunstâncias, do contexto, da história de cada um, de episódios que vimos e interpretamos de uma maneira, mas que podem ser interpretados de outra, completamente distinta daquela que fizemos.

Podemos também fazer um outro caminho. Registrar o primeiro episódio que conseguimos resgatar na nossa memória. Qual a primeira imagem, a primeira sensação, a pioneira ideia que tive do mundo e de meu ingresso nele?

Episódios da infância, narrativas que nos comoveram, fatos marcantes que nos envolveram e à nossa família. Como era o primeiro amigo? E a primeira professora? Como eram nossos avós? Quais as recordações que guardei deles? E os tios, os primos, os vizinhos?

O primeiro namoro, o primeiro flerte, o primeiro namoro. As primeiras relações sentimentais sérias. Por quem já chorei? Como foi que esqueci e superei paixões frustradas?

Quais as estórias que guardei? Quem as contava? Sei contar de outra maneira? Quais os livros que me impressionaram? Eu conseguiria fazer um resumo deles?

As notícias que me chocam ou despertam meu interesse. Como eu as escreveria?

Hoje está em desuso um estilo literário que já esteve muito em voga: a epistolografia. As cartas, as mensagens, a correspondência que era muito comum durante todo o decorrer da História da Humanidade. Hoje as pessoas parecem preferir o whatsApp, o twitter, o e-mail. Mas nada substitui uma carta física. Abrir o envelope, encontrar aquele pedaço de papel com o carinho, as saudades, o sentimento afetivo insubstituível.

Tente escrever cartas. A quem já morreu, mas num acerto de contas que fará bem à sua consciência, à sua alma. A quem está vivo mas é inacessível. A alguém com quem você se desentendeu. Lembre-se que poderá não haver tempo de reconciliação. Ainda que, a final, não enderece a missiva, nada custa escrevê-la. É uma forma de você se apropriar de sua capacidade de perdão ou de superação.

Assim nascem os escritores. Eles escrevem, primeiro, para si mesmos. Nem sempre contam com leitores que se debrucem sobre o seu trabalho. Escrever é um exercício de extrema importância para quem quer se conhecer melhor. O vício da escrita se completa com o vício da leitura.

É a possibilidade de adentrar a mentes de pessoas com as quais você nunca se relacionará diretamente. Até porque, grande parte delas já partiu para o etéreo. É a viagem que não necessita de passagem, nem de passaporte, nem de deslocamento. Você faz no momento que quiser, quando lhe apetecer, vestido como quiser, no ambiente que escolher.

Nesse sentido, todos os livros são de autoajuda. Ninguém é o mesmo depois de ler um livro, qualquer seja ele. Tudo o que se lê contribui para plasmar o nosso “eu”. É a maneira mais eficiente e menos dispendiosa de prosseguir no caminho da perfectibilidade. Não há como não nos tornarmos melhores, quando, à medida em que nos conhecemos melhor, vamos também assimilando experiências vivenciadas por outros humanos, assim como nós, feitos da mesma matéria, ou seja, de angústia e de sonho.

_ José Renato Nalini é Acadêmico da Academia Paulista de Letras desde 15.8.2003. Ocupa a Cadeira 40, cujo Patrono é José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca e fundador seu conterrâneo José Feliciano de Oliveira.

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