Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

FALTA ALGUÉM EM NOSSA VIDA

2 Comentários

O discurso vigente impõe a cada ser humano a infindável busca da felicidade. O que é felicidade para quem sabe ser finito? Algumas décadas, não mais, são oferecidas – a quem se cuidar e tiver sorte – para a aventura terrena. Depois, a morte. E o mistério.

Por isso a variedade de tons – muito mais do que cinquenta – daquilo que pode ser considerado “felicidade”. Amor, sensual e familiar, dinheiro, poder, fama, saúde. Quanta coisa acrescentaria temperos saborosos à epopeia do existir!

Todavia, nunca estamos satisfeitos. Os economistas enxergam como natural essa insaciabilidade humana. Mal conseguimos algo ambicionado e outra coisa nos provoca. A gula difusa é permanente e inevitável. Ínsita à espécie. Não existe a felicidade absoluta. Ao menos, não nesta etapa existencial. O que deve tornar difícil a vida dos não crentes. A que se agarrar para ser ético, para ser generoso, para repartir os dons?

Há quem se conforte sobrecarregando os descendentes de compromissos de vária ordem. Não é incomum que os pais queiram sublimar suas frustrações nos filhos e nos netos. Situação bem apreendida por Gustavo Corção, no seu imperdível livro “A descoberta do outro”: “Inventam também a esperança das gerações futuras e cada pai faz questão de transmitir ao filho a mensagem truncada de seus ressentimentos. Em vez de entregar os frutos de sua vida e a palavra verdadeira da tradição, os pais burgueses, na sua pedagogia ativa e ativamente impelida para o nada, ensinam irritados e entregam a mensagem estranha “do que não conseguiram fazer”. A aspiração máxima do iletrado está no filho doutor que passa geralmente a ser um doutor iletrado, e o maior desejo da mãe que foi pobre e modesta à força, está na filha que aproveite e dance o que ela não pode dançar. O desejo de prolongar, de continuar, faz assim os pais cravarem nas carnes moles dos filhos os seus próprios espinhos, e, como perpetuam o estrepe, pensam que se perpetuam”.

A humanidade, ao menos em considerável parcela, perdeu a capacidade de ver o sentido profundo e verdadeiro das coisas. Míope, hesita diante da evidência de que o mundo está sendo destruído – e rapidamente – por nossa premeditação ou incúria. Perde-se em discussões estéreis, oferecendo o espetáculo deprimente de violência crescente, de brigas entre sujeitos que apregoam serem crentes do mesmo credo. “Brigam por equívoco e massacram-se estando de acordo nos pontos principais”.

O ser humano precisa ser menos centrado em si mesmo. Não se completa se não abrir seu coração para o outro. “E é por isso que, mesmo no meio da família mais feliz e mais completa, ainda falta alguém. Falta o hóspede. E é por isso que toda a gente de casa se alegra quando o hóspede bate à porta. Benvindo seja! O pai de família se levanta com vivacidade e vai ao encontro do esperado, com a mão estendida, num gesto de dar e receber, num gesto de mendigo e de rei!”.

Quem é esse hóspede? Ele terá chance de abrigo em nossa casa?

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove e  autor de “Ética Geral e Profissional”, RT-Thomson Reuters.

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Autor: Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e Conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

2 pensamentos sobre “FALTA ALGUÉM EM NOSSA VIDA

  1. “Ao menos, não nesta etapa existencial. O que deve tornar difícil a vida dos não crentes”, o que está nos irmãos Karamozv, se Deus não existe tudo é permitido.

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  2. Muito bom! Muito bem colocado.
    Realmente a educação dos filhos hoje carece de um detalhe essencial: ensiná-los que a vida está longe de ser completa, que aprender a conviver e superar o que falta nela é essencial para conquistar a felicidade. Quando o que falta fica em primeiro plano, vem o sentimento de um estranho vazio que toma conta de tudo, desvalorizando o que se tem e supervalorizando o que não se tem, após uma busca infindável pela completude que não se alcança. E aí…chega a depressão, a doença do século.

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