Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

ESCREVER Á ANUNCIAR-SE AO MUNDO: O INCENTIVO À ESCRITA

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Dois ensinamentos da filosofia antiga mostram-se até hoje atualíssimos. O “só sei que nada sei” e o “conhece-te a ti mesmo”. Ambos são associados a Sócrates, mas não é isso o que importa.

O primeiro propõe o cultivo da humildade. É preciso reconhecer que o universo desconhecido é infinito, enquanto nossa capacidade de apreender o conhecimento é limitada. Isso nos impõe um compromisso: aprender algo a cada dia. Um dia na vida em que nada se aprendeu, é um dia perdido.

Há uma figura que ajuda a refletir sobre isso. Aprender é como subir uma escada. A cada degrau, descortina-se um horizonte novo. Quando se chega ao último degrau, o que é que se enxerga: a imensidão daquilo que ainda não descobrimos.

A descoberta da sabedoria lembra a metáfora platônica da Caverna. O mito da caverna é uma estória que conta a vida obscura de seres humanos acorrentados numa gruta, na qual não penetra a luz. A visão é restrita, porque permite apenas observar as sombras dos indivíduos que passam por uma pequena fogueira. Aqueles que estão presos a essa caverna pensam que o mundo se resume a isso.

Um homem audaz consegue encontrar a saída da caverna. Defronta-se com a luz, fica acometido daquela cegueira natural que é encarar o sol, depois de se deixar a sombra. Poucos instantes depois, verifica a grandeza do mundo. Suas cores, seus formatos, sua imensa variedade.

Volta para contar aos antigos companheiros que devem se esforçar e sair da caverna. Mas ninguém acredita nele. Acaba sendo sacrificado pelos moradores da caverna.

O que é que Platão quis dizer com isso? A nossa vida na ignorância equivale a residir na caverna escura. Quem não sabe e não tem noção de quem não sabe, resigna-se a uma vida medíocre. Adquirir sabedoria é enfrentar o sol. A luz solar é o conhecimento. Pode assustar, de tamanha intensidade. Mas depois mostra a vida como ela é. Com seu colorido, com sua multiplicidade, com sua exuberância.

Essa a missão de cada qual. Ainda continuamos, muitas vezes, numa caverna. Tudo aquilo que não conhecemos e por que não nos interessamos é um trecho da caverna que ainda precisa ser superado.

Há muitas cavernas contemporâneas. A caverna da incompreensão, a caverna da intolerância, a caverna do preconceito, a caverna da insensibilidade. É verdade que o ser humano é uma criatura imperfeita, incompleta, cheia de vícios e de defeitos. Mas a sua vocação é a perfectibilidade. Temos de nos encarar como seres que podem e devem ser melhores a cada momento.

Para isso, é preciso acreditar nos próprios talentos. Ninguém nasce completamente desprovido de qualidades. Ao contrário: nascemos ricos em potencialidades. Depende de nós fazer com que elas se concretizem.

O tema “caverna” surgiu neste ano de 2018 naquele episódio de que todo o planeta tomou conhecimento: os meninos da Indonésia que ficaram presos enquanto incursionavam por uma caverna e que foram surpreendidos pela inundação.

Aprendemos com eles um livro inteiro de lições. Não se viu desespero das famílias. Ninguém acusando o professor-guia, nem culpando o governo porque não sinalizara a caverna. Houve uma corrente de fé, de esperança e de certeza de que eles sairiam vivos.

Lição de liderança dentro do infortúnio. Não fora a tranquilidade, a paz, a calma, a prudência e o final da estória poderia ter sido outro.

Quando extraímos algo para as nossas vidas de circunstâncias nas quais não estamos diretamente envolvidos, estamos vivenciando a realidade incontestável do “só sei que nada sei”. Cumprimos o mandamento do contínuo aprendizado. Tornamo-nos melhores, porque esse é o objetivo da obtenção do conhecimento.

Mas existe o outro comando: “Conhece-te a ti mesmo”.

Há pessoas que chegam a idade longeva, alcançam a velhice – e a alternativa a ficar velho é muito problemática, pois seria morrer cedo… – e, na verdade, não se conhecem bem.

Somos entidades complexas. O ser humano não é simples. Basta mencionar a heterogeneidade absoluta entre todos os humanos. Ninguém é igual a ninguém. Mesmo o gêmeo univitelino é diferente de seu irmão. Somos todos singulares, indivíduos irrepetíveis.

Às vezes temos uma vaga noção de quem somos. Mas quantas vezes não nos surpreendemos diante de uma reação inesperada, que não estava nos nossos planos?

Conhecer-se melhor é missão perene e indeclinável. Temos aquelas qualidades naturais que podemos chamar de talentos ou virtudes, mas também nascemos com inclinações, com temperamentos, com DNA que implica em certas tendências. O autoconhecimento permite que lapidemos os nossos atributos, investindo naquilo em que somos bons – e sempre podemos ser melhores – sem deixar de combater nossas fragilidades.

Saber quem somos, o que nos agrada e o que nos irrita, descobrir quais são os anseios profundos, nem sempre coincidentes com aquilo que apregoamos quando inquiridos, é o primeiro passo para a obtenção de uma vida equilibrada.

O equilíbrio é um ideal que nem sempre as pessoas alcançam. Há muitos seres atormentados, infelizes, angustiados. Sigmund Freud chegou a detectar um mal-estar da civilização, característica da idade moderna que permaneceu na contemporaneidade. O que seria tal sensação de desconforto?

As explicações são múltiplas. Há quem diga que ela provém da falta de Deus. Outros explicam à luz da insistência humana em ignorar a morte. O único encontro inadiável é com a morte. A mais democrática das ocorrências é a finitude. Ninguém foge dela. A “indesejável das gentes” é a única previsão insuscetível de equívoco. Quem apostar nela acertará. Ninguém que esteve animado pelo sopro vital, dela escapou.

Mas o equilíbrio, de acordo com a psicologia, é um estágio em que a criatura precisa satisfazer a quatro esferas relacionais. A primeira é, justamente, consigo mesmo. Daí a relevância do “conhece-te a ti mesmo” para a felicidade pessoal. Quem se conhece bem, estará pronto para o enfrentamento com a segunda esfera: relacionar-se com o outro.

Domar os instintos inferiores, aprender a conviver, garantirá um relacionamento estável. Com o parceiro/parceira, com os demais familiares, com os companheiros de trabalho, com os stakeholders, com todas as pessoas. Viver é relacionar-se. Ninguém vive só. Aliás, a hipótese do homem sozinho é uma exceção, desde Aristóteles, até Tomás de Aquino.

Para Aristóteles, o homem é um animal político, no sentido de que, sozinho, não sobrevive. Ao menos com alegria. É de Aristóteles a conhecida expressão: “uma andorinha só não faz verão”. A explicação é natural e singela. Ao contrário de todos os outros filhotes animais, o filho do homem não sobreviveria se não tivesse cuidado permanente de um núcleo. Primeiro da mãe que, por ter dado à luz, pode estar combalida. Mas daquele terceiro que foi o responsável pela nova vida: o pai. Está explicada a origem da família.

Já Tomás de Aquino previu o homem só em três oportunidades: indivíduos muito bem providos de qualidades superiores, não necessitariam do semelhante para sobreviver (excellentia naturae). A patologia de pessoas que nascem com deficiências tão agudas que não conseguem conviver também condenam seu portador a viver sem companhia (corruptio naturae). A terceira hipótese é chamada de mala fortuna: alguém a quem a falta de sorte condena a viver sozinho. É a narrativa celebrada na literatura, cujo herói é Robinson Crusoé. Em virtude de naufrágio, viveu isolado, até que aparecesse o índio que ficou conhecido como Sexta-Feira.

A terceira esfera de relacionamento é com a natureza. E o ser humano está conseguindo rompê-la. Maltrata o ambiente, polui solo, água e atmosfera. Destrói o verde. Acaba com a biodiversidade. Não sobreviverá a espécie se não se converter. E não há muito tempo para isso. Os efeitos do aquecimento global, gerado pela emissão exagerada dos gases produtores do efeito estufa já se fazem sentir.

A quarta e última relação que precisa ser administrada é com a transcendência. O homem não é só matéria. É também espírito. A ciência e a tecnologia avançam, mas não existe resposta definitiva para as perguntas eternas: Por que nascemos? Tudo se acaba com a morte? Para onde iremos depois?

O crente dispõe de um arsenal de respostas para esse questionamento instigante. Quem não crê, precisa encontrar a fórmula de valorizar esta passagem transitória pelo planeta e conformar-se com a inevitável sobrevinda do nada.

A verdade é que ainda não dispomos de material suficiente para arredar todas as dúvidas e para desvendar todos os mistérios. Nossa existência é a busca “de resolver um problema que milênios de especulação e de experiência humana histórica nunca até hoje foram capazes de resolver: descobrir a verdadeira natureza do Espírito e a lei invariável e exata de todas as suas relações com o Não-Espírito, a Matéria e a Vida, ou o misterioso processo de auto-realização do primeiro na história das sociedades humanas”[1]

E a escrita? Onde entra nisso?

Em tudo. Um exercício excelente para o autoconhecimento é escrever uma autobiografia. Como é que você se enxerga? Quais seus pontos altos, quais seus pontos fracos? O que o preocupa, o que o atormenta? Quando se sente completamente realizado? Quais seus anseios, seus sonhos, seus projetos?

Olhar-se interiormente não é tarefa fácil. Todos somos muitos. Somos aquilo que pensamos que somos. Somos também aquilo que os outros pensam que somos. Esses “outros” incluem os próximos, os íntimos, mas também os que nos enxergam de longe.

Será que coincide a ideia que faço de mim com a ideia que os outros de mim fazem? Há muitos perfis de uma única pessoa. Depende da proximidade, das circunstâncias, do contexto, da história de cada um, de episódios que vimos e interpretamos de uma maneira, mas que podem ser interpretados de outra, completamente distinta daquela que fizemos.

Podemos também fazer um outro caminho. Registrar o primeiro episódio que conseguimos resgatar na nossa memória. Qual a primeira imagem, a primeira sensação, a pioneira ideia que tive do mundo e de meu ingresso nele?

Episódios da infância, narrativas que nos comoveram, fatos marcantes que nos envolveram e à nossa família. Como era o primeiro amigo? E a primeira professora? Como eram nossos avós? Quais as recordações que guardei deles? E os tios, os primos, os vizinhos?

O primeiro namoro, o primeiro flerte, o primeiro namoro. As primeiras relações sentimentais sérias. Por quem já chorei? Como foi que esqueci e superei paixões frustradas?

Quais as estórias que guardei? Quem as contava? Sei contar de outra maneira? Quais os livros que me impressionaram? Eu conseguiria fazer um resumo deles?

As notícias que me chocam ou despertam meu interesse. Como eu as escreveria?

Hoje está em desuso um estilo literário que já esteve muito em voga: a epistolografia. As cartas, as mensagens, a correspondência que era muito comum durante todo o decorrer da História da Humanidade. Hoje as pessoas parecem preferir o whatsApp, o twitter, o e-mail. Mas nada substitui uma carta física. Abrir o envelope, encontrar aquele pedaço de papel com o carinho, as saudades, o sentimento afetivo insubstituível.

Tente escrever cartas. A quem já morreu, mas num acerto de contas que fará bem à sua consciência, à sua alma. A quem está vivo mas é inacessível. A alguém com quem você se desentendeu. Lembre-se que poderá não haver tempo de reconciliação. Ainda que, a final, não enderece a missiva, nada custa escrevê-la. É uma forma de você se apropriar de sua capacidade de perdão ou de superação.

Assim nascem os escritores. Eles escrevem, primeiro, para si mesmos. Nem sempre contam com leitores que se debrucem sobre o seu trabalho. Escrever é um exercício de extrema importância para quem quer se conhecer melhor. O vício da escrita se completa com o vício da leitura.

É a possibilidade de adentrar a mentes de pessoas com as quais você nunca se relacionará diretamente. Até porque, grande parte delas já partiu para o etéreo. É a viagem que não necessita de passagem, nem de passaporte, nem de deslocamento. Você faz no momento que quiser, quando lhe apetecer, vestido como quiser, no ambiente que escolher.

Nesse sentido, todos os livros são de autoajuda. Ninguém é o mesmo depois de ler um livro, qualquer seja ele. Tudo o que se lê contribui para plasmar o nosso “eu”. É a maneira mais eficiente e menos dispendiosa de prosseguir no caminho da perfectibilidade. Não há como não nos tornarmos melhores, quando, à medida em que nos conhecemos melhor, vamos também assimilando experiências vivenciadas por outros humanos, assim como nós, feitos da mesma matéria, ou seja, de angústia e de sonho.

_ José Renato Nalini é Acadêmico da Academia Paulista de Letras desde 15.8.2003. Ocupa a Cadeira 40, cujo Patrono é José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca e fundador seu conterrâneo José Feliciano de Oliveira.

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Autor: Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e Conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

Um pensamento sobre “ESCREVER Á ANUNCIAR-SE AO MUNDO: O INCENTIVO À ESCRITA

  1. Amo as suas publicaçoes! Elas nos permitiem refletir sobre a vida, de um modo geral, e a responsabilidade e importância do papel de cada um de nós nesse lindo planeta em que habitamos. Obrigada!!!!

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