Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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ARTE ALGORÍTMICA

Até 11 de agosto, pode ser visitada a FILE São Paulo, no prédio-sede da FIESP-CIESP de São Paulo, Avenida Paulista, 1313, em frente à estação do Metrô Trianon. É o vigésimo ano dessa exposição de arte tecnológica, manifestação das conquistas e inovações nessa arte que se interconecta com as linguagens algorítmicas, com as pesquisas mecatrônicas e com a Inteligência artificial.

É impressionante verificar como crianças se entretêm no Studio Tony Spark, da Holanda, que fornece a experiência de uma nova forma de gravidade. É um protótipo de instalação imersiva, propiciadora de sensações visuais e corporais. A instalação Witaya Junma, da Tailândia, interpreta o soprar das bolhas de sabão. De acordo com o sopro do espectador, formas e contornos variam. O vento ativa e move as peças do mecanismo e o resultado, toda vez diferente, torna cada interação única.

A Sunshowers, composição de parceria entre Sérvia e França, foi inspirada no capítulo de abertura do filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa. Investiga ideias de animismo e tecno-animismo, trazendo vida sob a forma de inteligência artificial a todos os objetos, naturais ou artificiais.

O italiano Rino Stefano Tagliaferro preparou uma viagem dentro do celebérrimo quadro “Última Ceia”, de Leonardo da Vinci. Para comemorar os 500 anos da morte do grande pintor e cientista, é um conto emocionante no qual os personagens ganham vida e se movimentam. Consegue-se entrar dentro da pintura e participar da Santa Ceia, hoje visitada em Milão por milhões de turistas a cada ano.

A Alemanha comparece com um número de dança em Realidade Virtual, em que se explora a relação homem/máquina na era da digitalização e Inteligência Artificial. Também interativa é a experiência de Realidade Virtual preparada pelos alemães, que levam o partícipe a visitar uma das áreas de conservação florestal mais protegidas, no norte do Brasil. São 400 hectares de floresta amazônica virtual, a ser explorada mediante a perspectiva dos animais que ali habitam. É o mundo mágico de Tumucumaque.

Nicolás Alcalá proporciona uma reflexão ao assistir o curta-mensagem de animação em Realidade Virtual, sobre Anaaya: uma brilhante cientista que busca encontrar um novo planeta para a humanidade, enquanto a Terra morre lentamente, fruto das mudanças climáticas extremas que nós mesmos causamos. É bom para fazer pensar, neste momento em que se ridiculariza a preocupação dos cientistas quanto à devastação promovida no mundo e, infelizmente, de forma ainda mais ignorante e cruel neste sofrido Brasil.

Há muito mais coisa a ser vista na FILE. Com o reinício das aulas, as professoras poderiam levar seus alunos para que eles acordem e vejam que, sem adentrar à realidade virtual, não haverá futuro para os que sobreviverem. A FILE aceita agendamento de grupos, dispondo de guias e monitores para esclarecer todas as questões. Acesse ccfagendamentos@sesisp.org.br

Não percam. É um espetáculo magnífico. Tenho a certeza de que a criatividade infanto-juvenil dele extrairá lições de extrema valia para aqueles que já estão irreversivelmente imersos no mundo virtual da Quarta Revolução Industrial.

_ José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.

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EDUCAÇÃO CORPORATIVA: A BOLA DA VEZ

Não é novidade que a educação convencional deixe a desejar quanto a uma das funções que a ela atribuiu o constituinte de 1988: qualificar para o trabalho. Também não é novidade que as empresas mais conscientes começaram a preparar seus quadros. O início foi nos Estados Unidos, em 1927, com a General Motors. Hoje, a chamada Educação Corporativa ou Universidade Corporativa está bem disseminada.

Quase metade das empresas brasileiras já possui uma forma de preparo de seus colaboradores permanentes. O exemplo inovador da General Electric e da Apple é uma inspiração para quem se dedica a esse mister. O foco é desenvolver as competências que o profissional precisa ter para o bom desempenho no setor.

Cita-se como caso de sucesso o McDonald’s que, desde 1961, tem na educação um eixo estratégico. Propicia a seus jovens funcionários noções de cultura empreendedora, gestão e valores para o adequado exercício da liderança. O segredo é despertar no servidor a vontade de estudar, a respeitar as pessoas, a gostar de gente. Conscientizar-se da relevância do trabalho que executa.

A educação corporativa produz resultados excelentes. Introduz o estudante que na escola pública ou particular se restringia a decorar conteúdos, no mundo da inovação interdisciplinar. Não é só a empresa ou o setor que ganham. Toda a sociedade cresce quando a educação é levada a sério por segmentos cuja atividade não é o ensino, mas que se compenetram da responsabilidade social que recai sobre todas as engrenagens da Nação.

As iniciativas corporativistas podem ter flexibilidade para inovar de verdade. Como reconhece Estela Renner, fundadora da Maria Farinha Filmes, “A ternura, a empatia, a cooperação e a solidariedade precisam estar dentro das escolas para que nossas crianças e jovens possam ter um ambiente fértil para que a magia do conhecimento as possa encantar. Para que os sonhos possam produzir pensamento científico, filosófico, artístico e humanitário, para que a cultura lhes dê identidade”.

Com certeza, o arcaísmo e o ranço de obsolescência de grande parte das escolas não permita desenvolver um projeto de tamanha envergadura. Mas a educação corporativa tem tudo para enveredar por essa alternativa. “A potência de cada estudante é uma janela para a sociedade que sonhamos e só assim teremos cidadãos capazes de serem protagonistas de suas histórias. Se o objetivo é formar pessoas bem sucedidas, precisamos ressignificar o conceito de sucesso. Isso não deveria significar, em primeiro lugar, ser feliz? “, afirma Estela Renner.

A escola tradicional, seja pública seja particular, exige do aluno que ele tenha boas notas. Quase sempre, forçando-o a memorizar conteúdos que são facilmente encontrados no mundo digital. Ainda não chegou ao século XX e já estamos no século XXI.

Já a educação corporativa tem tudo para enfrentar o desafio da 4ª Revolução Industrial e para promover um outro e mais eficiente estilo de educar: aquele que habilitará o estudante a exercer com alegria as tarefas do seu trabalho e a aceitar a necessidade de um permanente preparo em relação às surpresas que o inesperado inevitavelmente trará.

A flexibilidade da educação corporativa a coloca anos-luz à frente do modelo conteudista do ensino convencional. Ela muda para melhor o mundo imprevisível que aos incautos continuará a surpreender.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, Universidade Corporativa das Delegações Extrajudiciais do Registro Imobiliário em São Paulo.

Formação, Curso De Treinamento, Treinamento Empresarial


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VIVER COM INTENSIDADE CADA DIA

Uma das angústias do mundo contemporâneo é a falta de sentido existencial que muitos experimentam. Não conseguem superar dificuldades que atormentam todas as pessoas, são permanentemente insatisfeitos, consideram-se vítimas do destino, da fatalidade e chegam a crer que sua jornada é permanente alvo de uma conspiração cósmica.

O sentido da vida é conferir sentido a ela. Aquele que não se conforma com a tese da explosão, o Big-Bang que deu origem ao mundo e a tudo o que existe, pode se refugiar no design inteligente. Eu me satisfaço com a crença de que alguém supervisiona o mundo, malgrado a infelicidade que nele grassa. Quase tudo, resultado da própria insensatez e arrogância de quem se considera o supra-sumo, a mais perfeita criatura, a única espécie auto-denominada racional. Embora a racionalidade seja algo em falta na civilização contemporânea.

Um dos fundadores da já famosa “School of Life”, a Escola da Vida, é o escritor Roman Krznaric, autor de “O poder da empatia” e “Carpe Diem: Resgatando a arte de aproveitar a vida”. Sua proposta é estabelecer conexões. Para ele, nesta era do selfie, o segredo é fotografar outra pessoa. Ter curiosidade em relação a seres humanos que você não conhece.

Uma prática interessante é tentar falar com um desconhecido ao menos uma vez por semana. Há uma riqueza imensa no outro. Cada pessoa tem muito a ensinar e viver é aprender. A grande força da vida é a habilidade de conseguir mudar de ideia. Já as redes sociais, para ele, representam o espelho mais destrutivo já inventado pelo homem.

Todas as pessoas precisam se motivar para continuar a enfrentar as vicissitudes rotineiras e inevitáveis. Um projeto que Roman aponta como ideal é o do alemão Felix Finkbeiner. Com nove anos de idade, começou a plantar árvores. Já está na Universidade e o programa não cessou. Ao contrário, só cresce. É algo que justifica uma existência que, sem essa iniciativa, poderia ser mais uma passagem passiva e anônima por algumas décadas, neste infeliz planeta.

A pergunta que ele sugere, deva ser feita a cada um, a começar pela auto indagação: – Você se considera um bom legado para o futuro próximo e distante? Estamos fazendo as escolhas certas? Como é que serei considerado – se vier a ser lembrado – após minha partida?

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. RT-Thomson Reuters.

Aventura, Cabelo Loiro, Explorar, Menina, Salto, Oceano


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SOBRAM POUCAS

O dendroclasta, o que derruba árvores, é um assassino do amanhã. Sem árvores não haverá água, não haverá oxigênio, não haverá vida. Isso não amedronta aqueles que se empolgam com algum dinheiro no bolso. E assim caminha a insensata humanidade, a destruir florestas e a acelerar a finitude da espécie.

Por incrível que pareça, ainda restam algumas árvores longevas, testemunhas escoteiras da crueldade do homem. O botânico Ricardo Cardim, apaixonado por jequitibás, juntou-se ao colega Luciano Zandora e ao fotógrafo Cássio Vasconcelos e o resultado é um belo livro. O título: “Remanescentes da Mata Atlântica – as grandes árvores da floresta original e seus vestígios”, publicado pela Editora Olhares.

Depois de percorrer 12,5 mil quilômetros por São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Alagoas e Bahia, fotografou o que resta da cobertura vegetal que cobria todo o litoral brasileiro e que a sanha interesseira e ignorante da espécie humana praticamente destruiu. Restam menos de 10% da mata original.

Há fotos interessantes, que emocionam o leitor sensível, quando ele se lembrar de que milhares de outros exemplares magníficos da silenciosa construção da natureza foram derrubados impunemente. Dentre as mais interessantes, anote-se o jequitibá de 4,35 metros de diâmetro e 58 metros de altura, que fica em Camacã, cidade ao sul da Bahia.

A mais alta árvore da Mata Atlântica está em Ubatã, também na Bahia, com 64 metros de altura, ou o equivalente a um edifício de vinte e dois andares. A maior figueira, com circunferência de 21,4 metros e 40 metros de altura fica na reserva Legado das Águas, em São Paulo.

Há dois Jequitibás gigantescos, avalia-se que têm de seiscentos a mil e duzentos anos – ou seja, ambos nasceram antes da descoberta do Brasil. Muito antes! Um deles está em Santa Rita do Passa Quatro e o outro em Porto Ferreira.

Infelizmente, a Mata Atlântica se tornou uma porção de minúsculas porções, com 245 mil pedacinhos, o que impede a recomposição da cobertura original e sepulta o sonho da recuperação da fauna silvestre.

Povo infeliz o que não sabe preservar o que herdou gratuitamente, mas que destrói sem piedade.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, integrou a Câmara Reservada ao Meio Ambiente do TJSP e o Conselho da Fundação SOS Mata Atlântica.Escreveu “Ética Ambiental”, 4ª ed. RT-Thomson Reuters.

Desmatamento, Deforest, Madeira Serrada, Untimber


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IGREJA & ESCRAVIDÃO

A celebração da “Consciência Negra” oportuniza a lembrança de muitos próceres da Abolição, ato significativo que extinguiu formalmente a dominação de um ser humano por outro. Há muitos heróis lembrados e que merecem reconhecimento e gratidão dos pósteros. José do Patrocínio, Luiz Gama, José Mariano, André Rebouças, Afonso Celso Júnior, Severino Ribeiro, José Bonifácio o Moço, Antonio Bento. Mas a voz mais ouvida, porque mais sedutora, pela causa do abolicionismo, foi a de Joaquim Nabuco.

Arriscava-se, expunha-se ao opróbio ao confrontar os escravistas, os que pensavam na libertação apenas em termos econômicos. Certa feita, em Capivari, lograram fugir das fazendas sessenta escravos. Na serra de Cubatão foram localizados por soldados com ordem de mata-los. Nabuco não só verberava no Parlamento, como escrevia no “País” em 19.10.1887: “Depois de ter sido moralmente deposto pelo exército nacional, o Sr. Cotegipe imaginou vilipendia-lo, pondo-o às ordens dos senhores dos escravos fugidos, e não há negar, a humilhação é completa e a desforra sangrenta”.

Sustenta que soldado que sucumbe na captura de escravos não é herói da Pátria: “Quando muito, é vítima da disciplina. O escravo, porém, morre pela sua liberdade, pela sua família, pela sua raça, morre defendendo-se e não atacando, morre como o mártir da primeira de todas as religiões, como o herói da maior de todas as batalhas, como todo homem tem direito de morrer, desde que não pode ser livre senão a preço da sua vida”.

Embora a Igreja, enquanto instituição humana, tenha sido adepta à escravidão, havia muito reconhecera o erro desse pérfido costume. Foi por isso que Joaquim Nabuco entendeu haver modo infalível de forçar a Princesa-Regente a providência que seu coração maternal já assumira. Estava no exercício do poder, enquanto o pai cuidava da saúde na Europa. Valeu-se do Jubileu de Leão XIII, com quem esteve em audiência privada em 10.2.1888. Descreveu minuciosamente a audiência. Fez ver ao Papa que a melhor maneira de solenizar o seu Jubileu no Brasil, então a maior Nação católica do mundo, seria uma formal e explícita condenação à escravidão.

Leão XIII respondeu que a escravidão estava condenada pela Igreja e já devia há muito tempo ter acabado. O homem não pode ser escravo do homem. Todos são igualmente filhos de Deus.

O Papa quis saber bastante sobre o movimento abolicionista no Brasil. Joaquim Nabuco narrou como o tema contaminara toda a sociedade e que os proprietários mesmo de escravos haviam renunciado a esse domínio e que não havia, “na história do mundo, exemplo de humanidade, de uma grande classe, igual à desistência, feita pelos senhores brasileiros, dos seus títulos de propriedade escrava. Disse que essa era a prova real de que a escravidão no Brasil tinha sido sempre uma instituição estrangeira, alheia ao espírito nacional”.

Também referiu que a Família Imperial tem contribuído para favorecer os escravos, mas que “uma dinastia tem interesses materiais que dependem do apoio de todas as classes e não pode afrontar a má vontade de nenhuma, muito menos da mais poderosa de todos”.

Já o Papado, “não depende de nenhuma classe, por isso coloca-se no ponto de vista da moral absoluta, que nenhuma dinastia pode tomar, sem destruir-se”. Terminou por dizer: “Não peço a Vossa Santidade um ato político, ainda que as consequências políticas que a nação há de, sem dúvida, tirar do ato que imploro, sejam incontestáveis. Felizmente, Vossa Santidade está em uma posição donde não vê os partidos, mas só princípios. O que queremos é um mandamento moral, é a lição da Igreja sobre a liberdade do homem. Não há governo no mundo que possa ter a pretensão de que o Papa, ao estabelecer um princípio de moral universal, está de acordo, ou em conflito com os interesses políticos desse governo”.

Embora a Encíclica tenha demorado, porque o Ministério Cotegipe fez chegar ao Vaticano a conveniência do Papa não se manifestar, Leão XIII doou 300 mil francos para a obra antiescravagista, canonizou o apóstolo dos negros, Pedro Clever, apelou em favor das vítimas para todos os homens, independentemente de religião ou de país e dava apoio à obra do Cardeal Lavingerie na África.

Leão XIII deu à Princesa Isabel uma “Rosa de Ouro”, por haver assinado a Lei Áurea.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.

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REVOLTA-SE A NATUREZA

São suficientes os acenos de que a “nova ordem” não acredita no aquecimento global e que a tutela do ambiente deve se submeter aos interesses do agronegócio para que o desmatamento na Amazônia fosse incrementado. O mau exemplo de Trump, que abandona o Acordo de Paris, se propaga como se isso fosse apenas um gesto político e não importasse no sacrifício de todas as modalidades de vida no planeta.

Quanta insanidade. O resultado que cientistas acabam de anunciar evidencia a fragilidade do clima, a intensificação na produção de gases produtores do efeito estufa, a conspurcação do solo, da atmosfera, da água e de todos os elementos, diante de nossa absoluta ausência de respeito à natureza. Mas o ser humano, pretensioso e ignorante, não se verga à evidência.

A tragédia é que, neste caso, não adianta invocar o princípio de que “a pena não passará da pessoa do criminoso”. As consequências serão suportadas por todos. Sem exceção. Ainda não temos condições de abandonar a Terra e procurar outro planeta para também acabar com ele!

Sempre foi assim? Não. Embora na rabeira do mundo, a ostentar os mais pífios resultados em educação, em saneamento básico, em condições gerais de sobrevivência digna, em saúde, em segurança, já fomos melhores. Houve precursores do ambientalismo respeitáveis e lúcidos. Um deles foi José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência.

Considerado um dos cientistas mais avançados da Europa nos séculos XVIII e XIX, já em Portugal cuidava de reflorestar as áreas devastadas para a construção de caravelas com as quais a Pátria lusa conquistou o mundo.

Quando voltou para o Brasil e cuidou de preparar a Independência, continuou a se preocupar com a natureza. Duas vezes preso por ingratidão e êxito da inveja de seus inimigos, na segunda vez foi morar em Paquetá, uma ilha à altura ainda quase virgem.

Foi ali que também se refugiava o Barão de Tautphoeus, que fora preceptor de Joaquim Nabuco e por ele tão lembrado no clássico livro “Minha Formação”. Sobre ele, o grande brasileiro que é o “Pai da Abolição” enfatiza: “Tautphoeus fora sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que chegara ao Brasil tinha sido um explorador de suas belezas. A madrugada, a alta noite, a distância não eram impedimento para ele, tratando-se de um nascer de sol, um efeito de luar, um fio de água descendo pela pedra, um jequitibá escondido na mata virgem”.

Esse olhar de admiração, de surpresa diante do inesperado de uma paisagem que não se repete, foi sufocado pelo chamado “progresso”. Embora desprezada, a natureza responde como ela pode. Cegos e surdos aos contínuos e crescentes pedidos de socorro, os homens continuarão a sofrer as consequências de sua cupidez e de sua ignorância.

Afinal, não é o planeta que corre risco de desaparecer. É a espécie desalmada, cruel de burra, que não sabe cuidar do seu único habitat, este pequeno planeta, de um precário sistema solar, perdido no cosmos cuja imensidão nem passa pela consciência minúscula de quem se considera imortal, mas que – insensatamente – abrevia a sua passagem por aqui.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Ambiental”, 4ª ed., RT-Thomson Reuters.

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O QUE É LEALDADE

Nesta Nação em que os valores declinam ou já estão sepultados, é bom lembrar que eles já foram cultivados em Pindorama. Um brasileiro dos mais ilustres e respeitados tem lições de altivez, erudição, compromisso, amor à causa e muitas outras a ensinar as novas gerações. Se estas estivessem prontas a ouvir. O que é muito discutível.

Falo de Joaquim Nabuco, o verdadeiro “Pai” da abolição, enquanto a Princesa Isabel é considerada a mãe. Todo o brilho e eloquência do pernambucano foram destinadas a convencer o Parlamento à época de que a escravidão era uma chaga que desonrava o Brasil perante as Nações civilizadas.

Após o 13 de maio de 1888, o ressentimento motivou a elite e o “castigo” imposto à família imperial foi a proclamação da República.

Como sempre acontece com os áulicos, eles bandeiam para o colo do poder e se impõem como adeptos de primeira hora. Joaquim Nabuco era padrão de decência. Considera essa abjeta migração uma perfídia contra as instituições. Considera que o Brasil deve ao trono “a independência, a unificação e a redenção de nossa pátria” e que o Parlamento “tem, portanto, o dever de impedir que não triunfe contra ele essa reação contra a lei de 13 de maio, essa desforra do escravismo que se foi abrigar à sombra da República”.

Enxerga no movimento republicano e em “suas origens incontestáveis”, cotejada com a “alta inspiração moral da Lei de 13 de maio, ter nascido a agitação republicana do ressentimento de uma classe contra o maior acontecimento de nossa pátria, porque basta isto para estigmatizar a nova República perante o mundo civilizado, que aplaude os progressos da nossa pátria e para impedir que ela tenha raízes no coração do nosso povo, identificado com a dinastia naquele grande ato”.

Os republicanos havia muito alardeavam o novo regime e insultavam o Imperador, um verdadeiro democrata. Quando ele partiu para a Europa, a fim de cuidar da saúde já combalida, Quintino Bocaiúva queria reproduzir no jornal “País” um artigo atroz e cruel, sob o eloquente título “O Esquife”.

Nabuco não ignorava que a abolição viria a ser punida com a República. Por isso, assim como os demais monarquistas, envolvia a família imperial, notadamente a Princesa Isabel, com boa dose de gratidão e remorso. Sabia que o Brasil não estava pronto para a República, nem a República era adequada ao Brasil naquele momento.

Ao endereçar à Princesa Isabel a mensagem por ocasião do terceiro aniversário da Lei Áurea, ela que já estava exilada na Europa dele recebeu mensagem do teor que segue: “Somente para Vossa Alteza Imperial, o dia de hoje guardará a mesma irradiação luminosa. Para os que até 15 de Novembro só pensavam na desforra, ele agora não lembra senão a decepção da vingança. Para os escravos ele tornou-se um dia de luto e para os abolicionistas um dia de expiação. Os escravos sentem na sua liberdade uma ferida, os abolicionistas na sua gratidão uma falha”.

Assim começou a República no Brasil, sem a participação do povo, com a imensa ingratidão perpetrada contra a família imperial, notadamente o Imperador, que era o mais simbólico “filho da Pátria”: aqui foi deixado aos cinco anos, órfão e só, para governar com serenidade, lucidez, tirocínio e discernimento, por quase meio século.

 A República, ao nascer sob tal signo, saberia preservar uma virtude que requer caráter, como o é a lealdade?

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário e palestrante, autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed., RT-Thomson Reuters.

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