Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


Deixe um comentário

POR QUE O FEIO PREVALECE?

O caos urbano é resultado de inúmeras causas. Poucas cidades obedeceram a um planejamento racional. Mesmo estas, como Brasília e Belo Horizonte, por exemplo, começam a sentir os efeitos de um crescimento desmesurado e irracional.

Todavia, o exemplo de ocupação incrivelmente insensata é São Paulo. Ela explodiu e explodiu mal. O seu entorno é a evidência da falta de educação. Num país em que sobram áreas inabitadas, as pessoas se espremem umas sobre as outras, em toscas habitações que nem de longe atendem ao chamado mínimo existencial.

Invadem-se áreas de preservação permanente e a leniência governamental, com a tendência do sistema Justiça tutelar os incapazes, trabalha com “o fato consumado”. Nunca mais se devolverá à natureza a área que dela foi roubada. E cuja ocupação insana causará uma cadeia de sequelas nefastas para uma população muito maior do que aquela ali residente.

As favelas proliferam e continuam a prodigalizar o feio. Sujeira, imundície, esgoto a céu aberto, edificações toscas e nem sempre frágeis. Pois a construção de alvenaria convive com a casa de lata, de papelão, de isopor e de tudo o que estiver à mão.

O problema se mostra insolúvel. Afasta-se a ideia de qualquer possível enfrentamento. A ausência do Estado é nutriente das facções que o substituem e garantem aquilo que interessa a tais desvalidos: permanecer onde estão, sem o risco de reintegração de posse. Proteção para desenvolver atividades lícitas, outras que tangenciam a licitude e, principalmente, as que afrontam o Estado de direito.

Tudo converge para a falta de educação. De uma educação integral. Não do mero acesso da criança à rede escolar. Onde a ensinarão a decorar informações desatualizadas, que ela encontraria se quisesse – e quantos já fazem isso – up to date no Google e outras redes sociais.

A intensidade da deterioração de vastas e crescentes glebas paulistanas inviabiliza qualquer sonho de tratamento eficaz. Mas algo precisa ser feito.

Sou defensor da regularização fundiária. Mas não é suficiente entregar ao invasor um título dominial para resolver todas as carências que o acometem. Precisamos unir todos os esforços, toda a inteligência e toda a lucidez, que nem sempre está na Administração Pública, para algo mais arrojado. Mas também, talvez mais efetivo.

As áreas deterioradas não têm beleza. Apenas feiura. E a feiura corrói as almas. Ficam empedernidas. Insensíveis. Cruéis.

O Brasil produziu arquitetos os mais talentosos, os mais criativos, os mais premiados. São chamados a produzir em todo o planeta. E estão aqui em São Paulo. Conurbação que tem alguns dos conjuntos habitacionais mais deprimentes e desprovidos de estética. Tem de ser assim?

Por que não chama-los todos e dividir a cidade entre eles, para que ajudem num grande Plano Urbano de Beleza? Ainda há pouco, o arquiteto Renzo Piano afirmava: “Temos vergonha de falar em beleza, roubada pela publicidade. ..É preciso começar a fecundar, a fertilizar as periferias. Elas são o começo do deserto, e o deserto cria monstros”.

Os arquitetos são poetas, sonhadores, acreditam na utopia. E, muita vez, fazem a utopia se concretizar. A arquitetura tem por missão construir os locais em que as pessoas se encontram, onde se produz o milagre da convivência. Por que não começar por oferecer um espaço, em cada região deteriorada, para que os moradores possam exprimir suas necessidades, mas também os seus desejos? Como diz Renzo Piano, “a alma não é guiada penas pela necessidade, mas também pelo desejo. E às vezes este é ainda mais forte do que aquela. Então, a arquitetura não é só a arte de responder a necessidades. Deve atender, igualmente, a quereres, esperanças, sonhos”.

Não é impossível concentrar, em espaços como esses, a canalização das expectativas de uma comunidade excluída, mas que pode protagonizar medidas viáveis para melhorar sua condição. Cuidar melhor dos dejetos, replantar as árvores dizimadas, ressuscitar os córregos poluídos, pintar suas habitações, torna-las mais coloridas, mais acolhedoras, mas compatíveis com o ideal tão proclamado e que é o norte inspirador do pacto federativo brasileiro: a dignidade da pessoa humana.

Um sonho deste insuportável calor de verão? Pode ser. Mas tirem-me tudo. Menos o sonho. Posso viver sem outras coisas. Mas não sobrevivo se não sonhar.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, Docente da Uninove, autor de “Ética Ambiental” e Presidente da Academia Paulista de Letras 2019-2020.

skyline-561272_1920.jpg

 


1 comentário

DEMOCRACIA VIRTUAL

Animei-me quando o Ministro Ricardo Enrique Lewandowski assumiu a presidência do STF. Conhecendo-o há décadas, sei de sua abertura para uma nova concepção de Judiciário. Tinha a esperança de que pudesse implementar algumas reformas ao combalido território da Justiça.

Uma delas, premente e que não se justifica ser relegada, é a remessa do projeto de Estatuto da Magistratura, obrigação do STF há trinta anos ainda não cumprida. Outra, que cheguei a comentar com ele, foi a implementação da Democracia Virtual. É sobre esta que talvez caiba uma reflexão.

Quatro décadas na Magistratura, quatro anos no Ministério Público, me mostraram o sacrifício da logística e o elevado dispêndio de uma eleição. Algo que não resiste a uma singela análise de custo-benefício.  Edifícios públicos e privados são requisitados. A cidadania recrutada a trabalhar gratuitamente. Gastos com alimentação, preparo dos espaços físicos, mobilização de enormes equipes para levar as urnas eletrônicas. Mobilização de funcionários da Justiça, de policiais, um aparato que, além do mais, deixa imunda a cidade. Sem falar nas longas filas de insustentável justificação, quando as pessoas hoje são localizadas e podem se manifestar em qualquer parte do globo. Que o digam os juízes, que já despacham por via eletrônica mesmo quando fisicamente fora do Brasil.

Tudo bem, democracia tem seu custo. Mas não pode ser algo mais simples e menos dispendioso? Hoje o Brasil possui 265 milhões de mobiles, para 209 milhões de habitantes. Isso significa que muitos brasileiros têm mais de um celular, ou smartphone, ou tablet, ou notebook ou computador pessoal. Todos antenados, todos conectados.

As últimas eleições já não mostraram a força das redes sociais? Por que não tentar algo mais arrojado? O essencial não é colher a manifestação da cidadania? A tecnologia não está a cada momento mais veloz, eficiente e confiável?

O uso das redes equivale ao retorno – ou até à implementação única, pois dizem que ela nunca existiu – do ideal da Democracia Direta. A ideia não vingou.

 Frustrada a primeira tentativa, reiterei a proposta ao Ministro Dias Toffoli, que, aparentemente, não a repudiou de imediato.

O certo é que o Brasil tem urgências e tem prioridades. É prioritário, por exemplo, remunerar melhor os professores, formá-los de outra maneira, pois serão os responsáveis pela geração do desemprego. Quantas as profissões que desaparecerão nas próximas décadas?

A docência passou a ser a mais relevante dentre as tarefas cometidas a um ser humano. A escola precisa ser reinventada. A Democracia também. O dinheiro que o Estado aplica em eleições – e aqui se inclua o famigerado Fundo Partidário, que fez da política partidária a profissão de alguns ociosos – pode ser direcionado ao aprimoramento das estratégias de redução dos riscos cibernéticos. Sem prejuízo de sobrar dinheiro para cuidar com mais carinho da educação.

É óbvio que nunca se eliminará a fake News, que hoje se tornou expressão tão contaminada que os intelectuais americanos preferem falar em “desinformação”. É algo ínsito à fragilidade da matéria-prima de que é feito o homem, ou seja, de boas inspirações e maus instintos.

Ninguém se livrará dos “trolls”, pois eles só têm nome contemporâneo. Mas existem desde as cavernas. São aqueles especialistas em criar cizânia e em estimular controvérsias. Se possível, nas quais eles não estejam envolvidos, mas das quais sejam sarcásticos meros observadores.

O fato incontroverso é que hoje a população que atua, que faz valer a sua vontade, é vinculada e até dependente das redes sociais. As últimas eleições presidenciais devem propiciar uma adequada reflexão e impor uma revisita à Democracia Brasileira. Quem não percebeu que vender a alma para conseguir apoio de nanicos foi irrelevante e que as mensagens direcionadas a quem estava insatisfeito com a mesmice e com as práticas superadas de uma política desprovida de conteúdo já não teria vez?

Se a linguagem franca e direta, no nível que foi apreendido pelo destinatário como veraz, foi suficiente para derrubar os prognósticos dos especialistas, é mais do que chegada a hora de institucionalizar o papel da internet na concretização dos ideais democráticos.

Conheço bem os contra argumentos. Não se brinca com coisa séria. As eleições constituem um espetáculo democrático, do qual a República não pode se furtar, custe o que custar. Os hackers vão fazer a festa e manipular os resultados. Essas teorias conspiratórias estão sempre alerta e surgem a cada eleição. Seja ela eletrônica, manual, por controle biométrico ou mediante o uso da velha cédula de papel.

No momento em que a sociedade acordar para a realidade de que o governante é mero mandatário, não titular de soberania – este é o povo e só o povo – talvez ela decida fazer desta República algo republicano. Com a Democracia Participativa que dá trabalho, pois implicará em assunção de responsabilidades. Algo que a educação, pública ou particular, em todos os níveis, não consegue transmitir, afeiçoada à anacrônica ideia de que alguém consegue transmitir conhecimento a um educando jejuno, inerte, ávido por ouvir o “magister dixit”. Com as aulas prelecionais que esvaziam a sala de aula e lotem os barzinhos das imediações.

Se as redes já propiciam contato direto e permanente entre pessoas, se disseminam verdades e inverdades, mas fazem parte da rotina e do cotidiano do brasileiro, por que não utilizá-las para algo realmente útil e que pode conferir grau qualitativo singular à escolha dos representantes?

Colher a manifestação da população interessada em efetivo protagonismo, valendo-se daquilo que ela aprendeu a usar, tanto que está a antecipar o desaparecimento da moeda, já sepultou o cheque, reduziu o uso do papel e a locomoção, é algo que pode conferir outro patamar à fisionomia e, principalmente, às entranhas desta complexidade instigante chamada Brasil.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.

analytics-3088958_1920.jpg


4 Comentários

PRISÃO NÃO É SOLUÇÃO

Ao contrário. É mais problema. Que ingenuidade acreditar que o encarceramento soluciona o problema da criminalidade. Já somos o terceiro maior país em quantidade de presos, mas disputamos também o ranking da intensificação da violência. Ou não é violência o vergonhoso índice de mais de 60 mil homicídios de jovens brasileiros?

A Justiça Criminal é um aparato simbólico. Impossível deixar de lembrar da metáfora: a lei penal é uma teia que segura os pequenos insetos, mas que os grandes atravessam com facilidade.

Dir-se-á: mas e a Lava Jato? Ótimo que o Brasil tenha experimentado essa fase. Mas ela conseguiu perseguir e condenar todos os safados de todos os municípios brasileiros?

Em regra, o pequeno delinquente sente o rigorismo da lei. O grande em por si o talento das melhores inteligências, um sistema de Justiça muito sofisticado para as necessidades do País: cinco Justiças diferentes, duas delas se digladiando em disputa por competência. Quatro instâncias, de tanto apreço ao duplo grau de jurisdição. Aqui dobramos o padrão de todo o mundo civilizado. São quatro as longas jornadas para a obtenção de uma decisão definitiva. Acrescente-se a singular circunstância de que, nesse trajeto, há mais de cinquenta oportunidades de reapreciação do mesmo tema. Tal o tentacular e labiríntico processo recursal, cujo caos é conhecido.

A burocrática teia procedimental e as estruturas carcomidas conferem vida longa, quase infinita, às lides. Algumas situações emblemáticas, impulsionadas pela mídia ou por qualquer outra pressão forte, conseguem se tornar exceções. A regra do sistema judicial brasileiro é a ineficiência e a imprevisibilidade.

A sensação de insegurança faz com que a sociedade clame por mais prisões, por redução da maioridade penal, por penas mais severas. E o Parlamento, caixa de ressonância das aspirações populares, costuma atender aos clamores.

O resultado é essa indústria do cárcere. Quanto valor econômico não está envolvido nela? As construções, o fornecimento de alimentação e de equipamentos, o transporte para conduzir a família do encarcerado à periódica visita, o pequeno comércio em torno aos estabelecimentos prisionais, sustento de muita família numa era de crescente desemprego.

Prende-se muito e prende-se mal. O crime é coisa de pobre? Não necessariamente, mas a miséria é um componente. O crime é prática de jovem. Dos 15 aos 24 é que se infringe a lei penal.

Lamentavelmente, não são os menos providos de inteligência que se voltam para a delinquência. Ao contrário. Muitos são os que vislumbram a falta de perspectiva, um futuro indigno, a exclusão e a desigualdade que os leva para a droga primeiro, na condição de consumidores. Depois para o crime, também vinculado ao entorpecente. Tráfico e delito patrimonial. Basta fazer uma pesquisa séria.

Embora o ordenamento seja em tese perfeito, a prever um sistema progressivo que devolveria o sentenciado à sociedade perfeitamente recuperado, não é o que acontece. Quem atende ao preso é a facção criminosa. Daí a surrada mas veraz constatação de que o presídio é uma pós-graduação para delitos mais graves.

Quanta ilusão sustentar-se a ideia de que prender mais significa menos violência. Já somos o terceiro maior aprisionador do planeta. A crueldade na prática delitiva só aumenta. Mata-se hoje sem qualquer comiseração. É a droga? É uma espécie de vingança contra a sociedade injusta? Ou é simplesmente falta de educação de qualidade?

Não tenho o monopólio da verdade. Mas o doutor Joi Ito, diretor do Media Lab, do MIT –  Instituto Tecnológico de Massachusetts, professor da Faculdade de Direito em Harvard, ofereceu uma explicação que deveria nos inspirar: “A razão pela qual existem crimes é que as pessoas não têm dinheiro, perderam o emprego, não têm um sistema social de bem estar, é porque as escolas públicas estão perdendo recursos. Para reduzir crimes você precisa fazer as pessoas felizes, com educação e com emprego”.

Tão antiga essa verdade inequívoca de que uma escola em adequado funcionamento elimina a necessidade de construir várias prisões.

A prisão é um mal. Insitamente um mal. Mal necessário, porque há pessoas que não podem sair dela. Mas, no Brasil, ela está recebendo, prioritariamente, aqueles que nunca nela poderiam entrar.

O amanhã dirá com quem está a razão.

_ José Renato Nalini foi Presidente do TACRIM-SP, o maior Tribunal especializado em crime em todo o mundo e Presidente do TJSP-2014-2015.

                prison-553836_1920


Deixe um comentário

ALGORITMO: AMIGO OU INIMIGO?

Talvez a palavra do ano em 2019 seja algoritmo. A leitura dos três livros de Yuval Noah Harari (Sapiens, Homo Deus e 21 lições para o século 21) só assusta. Para o escritor israelense, “um algoritmo é um conjunto metódico de passos que pode ser usado na realização de cálculos, na resolução de problemas e na tomada de decisões. Não se trata de um cálculo específico, mas do método empregado quando se fazem cálculos”.

Ele já domina a nossa vida, sem que muita gente se aperceba disso. São eles que viabilizaram o desenvolvimento da ideia de inteligência artificial. Uma inteligência mais aguda e mais eficiente do que a do ser humano. Só que desprovida de consciência.

Os algoritmos são tão velozes e permitem tantas combinações, que vão substituir os humanos em inúmeras tarefas. Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, acredita que pelo menos 752 profissões desaparecerão nas próximas décadas. Os países civilizados já estão experimentando isso. No Brasil, laboratório antropológico de simultâneo convívio entre múltiplos graus civilizatórios, a coisa vai tardar a chegar. Mas já está afetando a vida de muita gente.

O diretor do Media Lab do MIT – Instituto Tecnológico de Massachusetts, Joi Ito, em recente visita ao Brasil, foi questionado a respeito do impacto que a inteligência artificial causaria no mundo do emprego. Mencionou-se que Elon Musk, da Tesla, acredita ser a mais assustadora das questões do futuro próximo. Já Peter Diamandis acredita num amanhã de abundância.

A resposta de Joi Ito: “ambos estão errados. Há uma preocupação excessiva com superinteligência. Eu estou mais preocupado com a inteligência estúpida. Porque estão usando algoritmos para todo tipo de decisão, para estabelecer sentenças judiciais, liberdade condicional, para vender produtos. É um sistema muito eficiente. A Amazon usa algoritmos e só oferece Amazon Prime – sistema de vantagens – para ricos. Em Boston, uma família negra ganha 8 dólares de renda. Os brancos em Boston recebem 247 mil dólares. Estou muito preocupado, porque algoritmos só estão reforçando preconceitos e criando um sistema injusto em termos de desigualdade social. Seguro de carros, planos de saúde, estão usando algoritmo e o resultado é injusto com os negros e os mais pobres. Algoritmo tem um tremendo efeito negativo. É bom para os negócios, mas não é justo”.

E em relação a Peter Diamandis: também “está errado, porque abundância não faz ninguém feliz e te deixa gordo. Comida, por exemplo. Não há falta, mas há um problema de distribuição. É um problema social que o Silicon Valley não vai resolver”.

Convenço-me, a cada momento com intensidade maior, de que o problema do mundo não é a tecnologia. É a ética. É a capacidade que o ser humano está perdendo de ser efetiva e realmente humano. A humanidade se desumaniza à medida em que persegue interesses personalíssimos, em que não consegue respeitar o semelhante, nem a natureza, nem a transcendência, tudo porque deixou de respeitar-se a si mesmo.

Haverá caminho de volta? Por isso, à indagação: “Algoritmo é amigo ou inimigo?”, só se pode responder “Depende”. Depende de cada um de nós. Daquilo que fizermos ou que viermos a permitir que se faça com ele.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras.

              head-4519964_1920

 


Deixe um comentário

VIVEMOS A PÓS-PRIVACIDADE

Constituição de 1988 consagrou inúmeros valores conflitantes. A leitura atenta e a reflexão em torno ao conteúdo do artigo 5º servem para auxiliar qualquer pretensa análise do que é o Brasil. Como compatibilizar liberdade & ordem, propriedade e função social, publicidade & privacidade?

Este último tema suscita indagações até o momento não respondidas. Os indivíduos querem mesmo proteger sua intimidade, “o direito de estar só”? Têm inequívoco direito ao esquecimento?

A queda de braço entre publicidade e sua irmã republicana a transparência, com a intimidade ou privacidade, mostrou que as primeiras levaram a melhor. De início, o exibicionismo que é uma das faces do consumismo inconsequente, ditadura do capitalismo selvagem, põe na lona a privacidade. São as pessoas mesmas que fazem questão de divulgar pelas redes sociais cada passo e cada experiência. A idolatria pelo self ganhou asas supersônicas ante o advento das redes sociais.

Como pretender reserva, discrição e comedimento se a cada minuto a minha imagem e aquilo que estou fazendo ganha o potencial de infinitos acessos e quase nunca é recuperável, desde que atingiu a nuvem?

A pretexto de oferecer esse conforto impensável há algumas décadas, de fazer com que sua imagem e sua voz, seus movimentos e suas emoções cheguem a um destinatário em qualquer parte do planeta, as grandes empresas controladoras do mundo se apropriam dos dados pessoais. Dados que são fornecidos pelos próprios usuários. Não são forçados a isso. De certa forma, fazem um contrato com Google e Facebook. Os benefícios e facilidades propiciados por essas empresas compensam que eles saibam a nosso respeito, mais do que nós mesmos.

A tendência da era contemporânea não é a meditação, a autoanálise, a reflexão, o “conhece-te a ti mesmo”. Reclama-se ação, protagonismo, fruição ao máximo das emoções e das sensações. Nesse caminho, vamos fornecendo aos detentores do real poder no Século XXI – a informação e o conhecimento – os dados que singularizam nosso perfil.

O Brasil é um campo extremamente propício a incursões antropológicas. País de iletrados, de escassa leitura, de educação cada vez mais deficiente, da mediocridade conseguindo ultimar cursos universitários e atingir a pós-graduação com analfabetos funcionais, as redes sociais constituem o eixo de concentração das informações.

Tudo muito rápido, até instantâneo, e muito superficial. Acrescentem-se as fake News. A versão mais relevante do que o fato. E aí, o mundo web passa a ser o desaguadouro das aspirações, desejos e delírios da massa. Isso restou evidenciado nas eleições de 2018, assim como já ocorrera nos Estados Unidos com o advento da era Trump.

Com a educação claudicante, o apelo ao emocional em lugar do racional, a superficialidade das relações, a satisfação que se atinge mediante foco exclusivo nos sentidos, é muito remota a possibilidade de se proteger intimidade ou privacidade. São valores retóricos e suscetíveis de fundamentação. Mas relegados pela sociedade instintiva em que estamos mergulhados.

Não enxergo perspectivas de se voltar à era da ascese, da reserva, da prudência, do “sacrário das intimidades” que ainda reside na arqueologia do pensamento conservador. Varrido pelo vendaval dos novos tempos, nada obstante a fixação em temas de costumes e de uma moral que se viu banida pelo egoísmo insensível, patologia de que padece toda a humanidade.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.

magnifying-glass-1607208_1920


Deixe um comentário

NÃO ESPEROU O GOVERNO

Outra grande perda neste convulsionado 2019 foi a de Lázaro de Mello Brandão (1926-2019), falecido em 16 de outubro. Nascido em Itápolis, no interior paulista, foi escriturário na Casa Bancária Almeida & Cia., a partir de 1942. Instituição que se tornou no poderoso Bradesco, da qual Lázaro foi Presidente até 2017. Serviu ao Bradesco durante 76 anos, sucedendo ao fundador Amador Aguiar. Foi sucedido por Luiz Carlos Trabuco Cappi.

Conheci bem o Sr. Lázaro. Era amigo de Paulo Bomfim, com quem almoçava de vez em quando. Homem muito simples, atendia a todos com simpatia e generosidade.

No mesmo dia de sua morte, a mídia noticia que o rendimento médio do trabalho do 1% mais rico é 34 vezes maior do que o da metade mais pobre. Alcançamos triste campeonato no ranking do índice GINI, que mede a concentração econômica.

Desde 1988, a Constituição Cidadã fala em eliminação da miséria e redução da desigualdade. Nada obstante, o rendimento médio do um por cento mais rico é de R$ 27.744 mensais, enquanto que os cinquenta por cento mais pobres ganham R$ 820 no mesmo período.

O que tem isso a ver com Lázaro de Mello Brandão?

Ele foi um dos responsáveis por consolidar a ideia de que o Bradesco é uma instituição financeira voltada para os de baixa renda, atenta ao correntista que não tem vez nos conglomerados internacionais.

Além do crédito aberto aos pobres, o Bradesco tem tradição de se voltar à educação formal de milhares de crianças e jovens. A “Cidade de Deus”, em Osasco, é um exemplo de inclusão e de abertura de oportunidades a quem quer estudar e progredir licitamente.

Lázaro de Mello Brandão não esperou que o governo o incentivasse a se interessar pelos mais humildes. Pode inserir-se numa tradição que já mostrou o exemplo de Roberto Simonsen, outro “bom patrão”, numa linha inversa à do capital predatório, que não enxerga senão cifras e desconsidera qualquer aspecto da tão decantada “responsabilidade social”.

A pequena casa bancária de Marília produziu perfis como Amador Aguiar, Laudo Natel, Lázaro de Mello Brandão e Luiz Carlos Trabuco Cappi. Sinal de que ainda há esperança no Brasil, para quem se desvincular da subserviência à política partidária que profissionalizou quase todos os seus integrantes e que é algo a ser repensado se esta Nação quiser atingir o estágio pelo qual aspira.

_ José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-Graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2019-2020.  

Lázaro Brandão, presidente do conselho de administração do banco Bradesco.


1 comentário

DEFINITIVAMENTE ENREDADOS?

Sou usuário e praticamente dependente da internet. Não costumo anotar as horas que passo a me utilizar do computador, do celular, a visitar Face, Google, WhatsApp ou Instagram. Maravilho-me com o milagre da comunicação online que me permite acompanhar a viagem de pessoas queridas, do outro lado do planeta, e até conversar com elas. A capacidade produtiva avançou até o infinito. Escrever artigos, enviá-los a uma capilaridade inimaginável, tudo isso causa impacto em alguém que começou a escrever em cadernos de caligrafia, que já usou caneta tinteiro de molhar a pena, que aprendeu datilografia com as mãos escondidas sob um grande aparato de lata, para aprender a encontrar as teclas sem olhar o teclado. O mundo progrediu muito. Mas será que é só progresso?

Nada mais é suscetível de aceitação em termos absolutos. Tanto que há críticos acerbos das redes sociais e demonizam as gigantes Face, que controla o Instagram e o WhatsApp e Google, dona do Gmail e do YouTube, assim como as três outras grandes: Amazon, Apple e Microsoft.

Jaron Lanier, cientista com atuação no Vale do Silício desde os anos 1980, escreveu um livro cujo nome dispensaria explicação: “Dez Argumentos para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais”, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca. A mera leitura do índice do livro, com esse decálogo que pretende derrubar nossa submissão às redes sociais, talvez seja inspiradora: 1. Você está perdendo seu livre-arbítrio; 2. Largar as redes sociais é a maneira mais certeira de resistir à insanidade dos nossos tempos; 3. As redes estão tornando você um babaca; 4. Elas minam a verdade; 5. Transformam o que você diz em algo sem sentido; 6. Destroem sua capacidade de empatia; 7. Deixam você infeliz; 8. Não querem que você tenha dignidade econômica; 9. Tornam a política impossível; 10. Odeiam sua alma.

Cada argumento mereceria reflexão e análise. O primeiro já é um desafio. Li os três best-sellers de Yuval Harari – Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o século 21 – e o jovem professor israelense sustenta que já não temos livre-arbítrio. Tudo é uma questão de bioquímica a impactar os neurônios. A aceitar-se a tese, eu, particularmente, me auto-indagaria: como pude passar 43 anos a julgar, a acreditar que as pessoas tiveram condições de escolher e de selar o seu destino?

Mas a advertência de Jaron é interessante. O mundo que ficou menor com a possibilidade de diálogo online instantâneo independentemente da distância física, também tornou mais iradas e agressivas as pessoas. A construção de uma sociedade humana fraterna e solidária não foi o resultado atingido. Ao contrário, vê-se muita agressão, muito bullying, muita crueldade, falta de caridade, de decência e tudo poderia convergir para o melancólico reconhecimento de que a humanidade se tornou ainda mais desumana.

Cada qual terá condições de escolher o bem, ao invés de optar pelo lado do mal? Investir naquilo que dignifique o ser humano e banir aquilo que o desqualifique?

Minha experiência pessoal é a de que tenho conseguido revisitar momentos mágicos da inspiração humana, com as mensagens mais edificantes que poderiam ser produzidas. Músicas que nos marcaram, frases que nos fazem crescer, aqueles pontos altos que propiciam concluir: a vida valeu a pena.

Embora atento à advertência de Jaron Lanier e sem desconhecer os perigos das redes, que são controladoras de nossos instintos e cujos algoritmos definem e precificam nossas preferências, vou continuar a me servir delas. Não desconheço que o capitalismo de vigilância desconfigurou a hierarquia do poder no globo e que, muita vez, somos parte da manada que num inconsequente “estouro da boiada”, faz muito estrago no acervo civilizatório produzido ao largo da História. Mas procuremos nos servir daquilo que nos torna mais sensíveis e mais humanos e, se possível, nos livrar do contrário: o que nos converte em seres frios, impassíveis, incapazes de reagir diante da injustiça e da maldade.

Por enquanto, concluo que todos estamos, irremediável e definitivamente, enredados nessa teia da qual é impossível se livrar.

_ José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2019/2020.

ipad-820272_1920