Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Cada qual com o seu furacão

Mal se afastava o Harvey e surgiu o Irma. Ainda mais violento, mais devastador e mais incontrolável. O terremoto no México deixou suas marcas. Era inevitável recordar que os Estados Unidos quiseram fugir ao compromisso assumido em Paris, quanto ao possível controle das emissões dos gases causadores do efeito estufa.

Mas não é apenas o americano o leniente em relação à natureza. Em todos os lugares prevalece a insensatez. Desde a produção catastrófica de resíduo sólido que polui e envenena o mundo até à deliberada destruição do verde, eliminação das espécies e a conversão do planeta em território morto, insuscetível de abrigar qualquer espécie de vida.

Enquanto a conversão não vem – e talvez ela venha tarde demais – países que teriam tudo para se considerar abençoados oferecem outro cenário igualmente melancólico. Na semana em que furacões e vendavais destruíam patrimônios e matavam, o Brasil continuou a assistir a espetáculos não menos deprimentes.

Primeiro, a apreensão de mais de cinquenta e um milhões de reais em espécie. Como explicar? Prevalece a presunção de boa fé? O que sentiram os desempregados, os sem teto, os sem saúde?

Depois, aquele diálogo que enxovalha as instituições. É o reflexo daquilo que pessoas “acima de qualquer suspeita” pensam do Estado Brasileiro? Eloquente a visão dos grandes personagens da nossa História mais recente: o Parlamento já foi detonado. Nas mãos deles a destruição do Executivo. Chamariam outra pessoa para acabar com o Judiciário.

Como avaliar o naufrágio do bom senso, pois de ética há muito sepultada, nem se pode cogitar nesse panorama. Perdeu-se qualquer freio inibitório. Terra devastada, terra de ninguém, numa comparação metafórica, mas muito realista, com o território físico flagelado pelas ocorrências climáticas.

A restauração das cidades vitimadas é mais fácil do que a recomposição do tecido moral em solo tupiniquim. Haja coragem para mostrar à infância e juventude que isso não é o Brasil. Ou que nossa Pátria não merece passar por este calvário. Em nossos sonhos, somos muito melhores do que as personagens surrealistas que dominam a cena. Somente uma educação de qualidade – e com a participação da família e de toda a sociedade, sem exclusão – é que poderá reverter a calamitosa marcha do País rumo a novos horizontes.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 10/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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O justo e o injusto

A experiência humana relata que o primeiro encontro com a justiça é, exatamente, a sensação de que ela está ausente. A injustiça é amarga e deixa cicatrizes. O justo seria natural, a normalidade que não persevera na memória. Isto é real ou construção da consciência coletiva num determinado momento histórico?

O Brasil judicializou a vida. Nenhum tema é subtraído à apreciação judicial, por irrelevante possa parecer. Leva-se a sério nesta República o princípio da inafastabilidade do controle judicial, que o constituinte inseriu no artigo 5º, inciso XXXV da Constituição Federal.

A proliferação de Faculdades de Direito propiciou a multiplicação de carreiras jurídicas e o ensino anacrônico, sem qualquer mutação estrutural desde a importação do paradigma coimbrão, garante ao processo a hegemonia dentre as disciplinas do Bacharelado.

A fase de transição ora em curso gera um desconforto palpável. Reivindica-se a segurança jurídica, assim como estão presentes no discurso outras qualificações desse bem intangível: segurança. Assim é que se prega segurança ambiental, segurança alimentar, segurança econômica, segurança comunicacional e até segurança genética.

Enquanto o novo chega de forma célere, mas fragmentado, o velho se desfaz e resiste a deixar a cena. Daí os paradoxos enfrentados por uma coletividade que não tem noção exata do que está a acontecer.

O ensino jurídico sequer desconfia que o mundo mudou e ainda mudará bastante, antes de que os bacharéis que a cada ano são produzidos aos milhares, se apercebam de que insuficiente a formação recebida. A velocidade da era da comunicação e informação é incompatível com a pretensa estabilidade do mundo processual, em que início e subsequentes fases do desenvolvimento de uma ação judicial assentam sua previsibilidade no ordenamento.

As soluções precisam ser mais efetivas, eficazes e eficientes. Ninguém consegue aguardar mais de uma década para obter a definitivade provinda de uma decisão judicial em última instância.

O processo rigidamente programado precisa dar lugar à autonomia de vontade das partes. A busca de composição tem de ser a iniciativa do interessado em colocar paradeiro a um conflito, o que é consequência natural do convívio, antes de que ele se converta em forma velada ou escancarada de violência.

O direito há de ser encarado como instrumento para a pacificação, a edificação da harmonia possível entre desiguais portadores de certezas, ferrenhos defensores de suas posições. O formalismo e o procedimentalismo são superados por uma ruptura paradigmática intensa e crescente. Já passou da hora de oferecer a quem se proponha estudar as Ciências Jurídicas e Sociais, um arsenal de estratégias que supere a rigidez dos códigos. Aprender a compreensão, o diálogo, a persuasão, a compaixão e a conhecer os meandros do labirinto insondável da mente humana é mais importante do que decorar dispositivos facilmente detectáveis na internet.

Tudo está em ebulição no planeta. A produção de teorias e de sofisticadas razões jurídicas para sustentar antagonismos já não se mostra suficiente à edificação de um convívio saudável. Os utopistas são chamados a uma urgente reelaboração do design do direito. Sem isso, prevalecerá a metáfora do processo kafkiano, fator de angústia e desengano, que não liberta o homem de suas aflições, mas sugere sua fragilidade e insignificância perante o incontrolável. As vãs pretensões do homo sapiens esbarram no inesperado e na impotência de controlar sua vida, se não se converter à humildade, postura única para um ser angustiado por sua finitude.

Fonte: Correio Popular| Data: 08/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Matemática sedutora

O pavor de muitos alunos é a matemática. Para os que são providos de raciocínio lógico, é fácil penetrar nos mistérios das equações e se encantar com a mágica dos números. Para os menos dotados – como eu – a matemática e seus derivados são de assustar. Trigonometria, Física, Estatística, tudo aquilo que requer um talento cada vez mais necessário para que o Brasil dispare no cenário das grandes nações, o desastre é certo.

Por isso é que se torna urgente converter a matemática em assunto sedutor. Não é impossível. Os cálculos são prazerosos. Principalmente quando se vincula a operação matemática e a vida real. Daí o sucesso da educação financeira e, também espero, do Projeto “Vida Segura”, que habilitará o jovem a administrar virtualmente um patrimônio e experimentar, de forma lúdica, mediante a utilização de games, o valor da tranquilidade, garantida pelo direito securitário.

Com vistas a tornar a matemática algo atraente, além da Olimpíada de Matemática e da iniciativa de professores apaixonados por sua disciplina, há um desafio interessante. A Associação “Nova Escola”, que tem no seu portfólio as marcas “Nova Escola” e “Gestão Escolar”, em parceria com a Fundação Lemann e com o Google, se propôs a criar milhares de planos de aula totalmente gratuitos e alinhados com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A proposta é elaborar um material com estratégias claras para ensinar para uma turma heterogênea, orientação para aplicar atividades criativas em sala de aula e sugestões de exercícios e avaliação.

O início é a matemática, mas o intuito é confeccionar mais de seis mil planos para a Educação Infantil em todas as disciplinas do Ensino Fundamental previstas na Base Nacional Comum Curricular: Matemática, Língua Portuguesa, História, Geografia, Inglês, Ciências, Arte e Educação Física.

O primeiro passo é um processo seletivo aberto para professores interessados em produzir esses planos de aula. O trabalho será remunerado. A primeira seleção é exclusiva para os elaboradores de material de Matemática. Para conhecer melhor o projeto, acesse o site https://novaescola.org.br/inscricoes/regulamento.

E boa sorte!

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 07/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Ensinar por vocação

Ensinar é uma vocação inigualável. Na escala das profissões, o magistério merece estar à frente de todas as demais. O professor é quem desperta a infância para a complexidade, mas também para a beleza e a exuberância da vida. Um bom começo, nos anos iniciais da criança, é certeza de um futuro digno. Por isso a preocupação das pessoas de bem, com a adequada formação do professor.

Nesse campo, uma excelente notícia é a criação da Faculdade SESI de Educação. Ela se propõe a oferecer o que há de melhor e atualizado na formação e no aperfeiçoamento de profissionais da educação básica, exatamente a maior carência da escola brasileira. Os cursos de graduação incluem licenciatura em Ciências Humanas (Geografia, História, Filosofia e Sociologia), em Ciências da Natureza (Física, Química e Biologia), em Linguagens (Português, Inglês e Arte) e em Matemática. Além disso, manterá cursos de pós-graduação na esfera da especialização, de acordo com as exigências do MEC, a par de cursos de extensão e de aperfeiçoamento, oficinas e encontros de trabalho.

A promessa é de um novo paradigma na formação de professores para a educação básica, mediante formação por área do conhecimento, de maneira a assegurar domínio dos conteúdos e articulação de diferentes componentes curriculares. A residência educacional é o estágio supervisionado desde o primeiro ano. Com ela, o futuro mestre aprende o que ensinar e como ensinar. Articular-se-á, de forma colaborativa, com uma das maiores e melhores redes de escola do Brasil, o sistema SESI, mas também colaborará com escolas públicas e privadas de todo o Estado de São Paulo.

Garantirá a empregabilidade, pois os professores formados pela Faculdade SESI terão a oportunidade de atuar, logo que formados, como profissionais contratados pelas 167 escolas SESI do Estado. Não se descuidará das novas tecnologias e inovações curriculares e esse compromisso tem o aval do responsável pela implementação da Faculdade SESI de Educação, o prestigiado e experiente educador Cesar Callegari, que já foi secretário da Educação e que integra o Conselho Nacional de Educação como um de seus mais notáveis integrantes.

Fonte: Diário de São Paulo|Data: 07/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Somos os mais frágeis

Não é suficiente o desemprego, o aumento da violência, a fuga do capital, o sucateamento da indústria, o desalento e tantas outras vicissitudes que ocupam a mente nacional no presente momento. Ainda somos os mais vulneráveis no mundo virtual. Os brasileiros foram os que mais sofreram com fraudes na internet.

A percentagem de usuários que sofreu phishing – assim se chama o roubo de dados pessoais – no segundo semestre de 2017, disparou no Brasil. Chegou a 18,09%, enquanto que o segundo lugar, a China, registrou 12,85%. Em seguida vêm Austrália – 12,69% – Nova Zelândia – 12,06% – Azerbaijão – 11,48% – Canadá – 11,28% – Qatar – 10,68% – Venezuela – 10,56% – África do Sul – 9,38% – Argentina – 9,35% e Reino Unido – 9,29%.

Os dados são fornecidos pela Kaspersky Lab, empresa de antivírus. Desde 2015, o Brasil está no topo da lista. É o tipo do ranking que não nos interessa. Para aqueles que estiveram à frente da pesquisa, os hackers brasileiros exprimem a mentalidade Robin Hood. Preferem atacar os Bancos e instituições financeiras. Ainda comemoram, colocando fotos nas redes sociais com exibição do dinheiro ilicitamente subtraído.

Existe até um “Rap dos Hackers”, que tem uma das estrofes bem eloquentes: “Sou criminoso/Terrorista virtual; Hacker de responsa e vagabundo sempre paga um pau”.

A receita para não ser invadido e sofrer prejuízo, é não abrir e-mail suspeito, não baixar nada de procedência desconhecida e estar com o antivírus atualizado. Em 2014, o Brasil foi considerado o país mais perigoso para os Bancos. A perda em 2015 foi de R$ 1,8 bilhão com ataques virtuais.

Isso tem reflexo na urgência de prover o estudante brasileiro de conhecimento atualizado, para que nossos jovens sejam programadores, elaborem softwares e aplicativos que defendam o usuário dos mobiles, até porque a cultura digital chegou para ficar.

Todas as empresas que já atuam na área e principalmente o setor financeiro, devem propiciar ao estudante da escola pública em curso regular, um contraturno diretamente destinado a fazer de nossos youtubers técnicos competentes e hábeis para enfrentar o mundo do crime. Um dia o bem terá de prevalecer. Para isso, é preciso empenho, estudo, dedicação e sacrifício.

Fonte: Jornal de Jundiaí|Data: 03/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Ideias para o fundão

Surreal e kafkiana a discussão em curso pelo Parlamento, quanto ao Fundo Partidário para custear eleições. Será essa a primeira urgência nacional? O déficit de 159 bilhões para 2018 não deveria inspirar outro tipo de preocupação?

De qualquer forma, a cidadania poderia ser chamada a sugerir como é que as eleições deveriam ser custeadas.

Primeiro, é acabar com a propaganda eleitoral gratuita. Gratuita para quem, cara pálida? Adivinhe quem paga os milionários minutos da TV?

O Presidente da Câmara já forneceu uma boa pista. Cada candidato, com o seu celular, grave sua mensagem – e nisso os nossos jovens poderiam ser contratados para um exercício insuperável de criatividade – e mande para o seu círculo de amigos. Pedindo que cada qual consiga mais dez. O poder das redes é imenso. Foi responsável pela chamada “Primavera Árabe”, consegue fazer movimentos como “Occupy Wall Street” e mesmo aqui, sabe congregar pessoas.

Mas há outras propostas. Por exemplo: o candidato se oferece para realizar um serviço e cobra por isso. Recente programa de TV mostrou um rapaz que quer realizar mais de cem tarefas diferentes, até – provavelmente – escolher aquela que o cative. É se propor a cozinhar, a fazer faxina, a cuidar de um jardim, a servir como babá, a acompanhar um idoso, a ser cuidador. A fazer palestras mediante módica quantia cobrada como ingresso. Vender coisas que já não servem para o seu uso. E por aí vai.

Seria uma fórmula muito democrática de se conseguir dinheiro. O que não vale é fazer o povo pagar para essa propaganda em regra desprovida de bom gosto, brega e medíocre, que apenas constrange a parcela mais erudita da população. Se estas sugestões forem consideradas ousadas ou na contramão daquilo que os políticos profissionais entendem adequado, então que o custeio saia da verba destinada à Justiça Eleitoral. Ela pode ser menos onerosa, se as eleições forem facultativas e se as pessoas puderem votar usando seus “mobiles”: celular, smartphone, tablet, computador pessoal.

Não há necessidade de convocação de milhões de pessoas, ocupação de milhares de prédios, dias de serviço parado, despesas com alimentação, etc, se as redes servem para fazer transferência monetária e se as decisões judiciais já são eletrônicas. Quem é que tem outras boas opções para não sacrificar ainda mais o bolso cansado do cidadão?

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 01/09/2017

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Tempo sem pressa

Não se tem tempo para mais nada. Todos os minutos, as horas, os dias são engolidos na volúpia de uma velocidade incrível. Tem-se a percepção de que os movimentos da Terra foram acelerados nos últimos anos. Terrível a sensação de que não se fez o que se devia e o tempo foi desperdiçado com coisas que não valiam a pena.

Nem sempre foi assim. Houve na História da Humanidade um “tempo sem pressa”, que era mensurado por noções singelas como dia e noite, verão e inverno. Essa cadência previsível orientava os ciclos agrícolas. A semeadura, o trato, a colheita.

O tempo também era essencial para as práticas religiosas. Não é por acaso que “hora” e “oração” vêm da mesma raiz latina. Tempo do advento, tempo da quaresma, Páscoa, Natal. Tudo muito bem definido e marcado pelos sinos. O som dos sinos remonta a essa época tranquila. O que ocorreu com a noção de estabilidade que desapareceu de nossa vida?

No século 14 surgiu o relógio e ele substituiu os sinos. A marcação das horas passou a ser controlada pelo homem. Propriedade divina, migrou para a titularidade dominial humana. Já não se podia desperdiçar o tempo. A ociosidade, até há pouco, é considerada um ilícito. Daí a conhecida contravenção da “vadiagem”.

“Time is money”, foi o ponto culminante dessa mutação. Não se pode perder tempo. Este deve ser utilizado em coisas úteis. Coisas que sirvam para a sociedade consumista. Não há tempo para a contemplação, para a meditação, para a reflexão. Por isso é que a patologia mental nunca esteve tão em alta.

 A passagem não se fez sem conflitos sérios. A prática da usura era condenada não sob aspecto moral, senão pelo indevido uso do tempo. Os ganhos de quem praticava a usura ao emprestar dinheiro a juros eram ilícitos porque pressupunham uma hipoteca sobre um tempo que não pertencia aos homens, senão a Deus.

Isso mudou e não se pode afirmar tenha sido melhor para o aprimoramento dessa criatura que se diz racional e que se acredita perfectível. Saudades de um tempo que não vivi, o “tempo sem pressa” do medievo. Mas saudades de um tempo que vivi. Nas décadas de cinquenta e sessenta, em que havia tempo para visitas domésticas. Em que havia tempo para ficar conversando na rua. Em que as praças eram lugares para as crianças brincarem, os jovens namorarem, os idosos conversarem.

O que fizemos com o nosso tempo? Ele está sendo usado com utilidade maior? Houve salto qualitativo no aproveitamento do tempo com pressa ou éramos mais felizes na era do tempo sem pressa?

Fonte: Correio Popular| Data: 01/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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