Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Um norte a seguir

Desde que a humanidade existe, foi necessário buscar a fórmula que permita o convívio entre interesses conflitantes. As explicações recorrentes do fenômeno social partem desde a fragilidade do ser humano até a noção de perigo que ronda, permanentemente, toda espécie de experiência vital. Ninguém consegue viver sozinho, a não ser nas exceções indicadas por Tomás de Aquino: a excellentia naturae, de quem recebeu da Providência tamanha e superior inteligência, que não precisa do semelhante para cumprir com os seus objetivos nesta Terra. No polo antípoda, a situação de corruptio naturae, de quem é provido de patologia que inviabiliza a convivência hígida. Por fim, a mala fortuna, de quem por acaso ou fatalidade perdeu a companhia dos semelhantes. Todos os demais integrantes da espécie racional precisam uns dos outros para exercer, em plenitude, a missão de passar algumas décadas no Planeta sofrido e frágil que lhes foi destinado.

Para a coordenação desse relacionamento é que existe a normatividade. Embora a visão de Jean-Jacques Rousseau imprima à natureza humana uma bondade natural, do “bom selvagem” que é puro ao nascer, mas corrompido no contato com os demais ainda tenha adeptos, parece às vezes preponderar a concepção de Thomas Hobbes. O autor de “O Leviatã” enxerga na sociedade entre os seres pensantes o “inferno de todos contra todos”. O homem é o lobo do homem. Pronto a devorar o seu semelhante se ele atravessar seu caminho, ou vier a disputar o que seja, na ambição que é própria de um espírito sempre insatisfeito.

A elaboração de códigos de conduta procura colocar ordem numa sociedade que, deixada ao livre jogo dos interesses individuais, viveria conflito permanente. Por isso é que se elaborou o sofisticado universo do Direito. Esta ciência do agir correto só existe para oferecer paz àquele transeunte de uma efêmera passagem pela aventura terrena.

Não parece que a receita funcione a contento. O que se verifica é que as contendas, controvérsias, lutas e desentendimentos proliferem, e que o equipamento construído para administrá-los sob regras não consegue responder a contento às expectativas dos usuários.

O Direito, para os Romanos, que nos legaram a estrutura base para o sistema ainda hoje vigente, não era senão a síntese de três regras: viver honestamente, não prejudicar a ninguém e dar a cada um o que é seu.

A singeleza da tríade parece ter fugido da consciência, à medida em que a sociedade se sofisticava. Como explicar satisfatoriamente que o esquema normativo não seja suficiente para indicar o caminho reto para um percurso tranquilo pelas décadas reservadas a cada vivente? Por que as questões não conseguem ser tratadas de maneira preventiva, presente a incontrastável constatação de que a institucionalização da discordância pode prejudicar todos os envolvidos? Pois é notória a insatisfação de quem recorreu à Justiça, embora desta venha a ter uma resposta favorável. Sempre ouvi de um Professor das Arcadas que o direito de ação, a possibilidade de levar o adversário a juízo, não é na verdade um “direito”, mas é um “ônus”. E me convenço de que ele tinha razão. É trabalhoso, é custoso, é angustiante litigar. A vitória, depois das vicissitudes de quem precisa do Judiciário, tem sabor amargo.

O aprendizado proposto aos clientes da Justiça é fundamental para que se atinja grau civilizatório compatível com as aspirações dos sensatos. A Constituição da República Federativa de 1988 é prenhe de princípios que, levados a sério, edificarão a Pátria justa e solidária prometida pelo constituinte. O mais relevante dentre eles é o da dignidade da pessoa humana. Quem se servir dessa bússola estará reduzindo o incomensurável fosso que hoje é tangível, entre a Nação ideal e o Brasil real.

Atentemos a esse comando fundante: cada pessoa merece o tratamento digno, pelo mero fato de integrar a espécie humana. Verdade objetiva, suscetível de ser observada a cada dia e suficiente a mudar a face e o destino desta Nação, em busca do futuro glorioso com que sempre sonhou.

Fonte: Correio Popular| Data: 03/11/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Os russos nos ensinam

A educação russa é um modelo de eficiência. Na área das ciências exatas, centenas de prêmios Nobel já contemplaram cientistas das várias universidades e institutos de pesquisa daquele país. E eles não são egoístas quando se cuidam de partilhar a sua expertise em matemática, física, química, estatística e outras ciências duras.

Desenvolve-se hoje na rede pública da educação paulista um projeto de extremo interesse. É o ensino da matemática pela “Plataforma Dragonlearn”. Jovens professores russos vieram, “adotaram” escolas públicas, a iniciar-se pela cidade de Santos, e ensinam nossas crianças a aprender matemática de forma lúdica, leve, inteligente e sedutora. A estratégia apresenta a matemática de maneira muito diferente da convencional. Faz-se um link com a vida, com questões cotidianas e com áreas de interesse da criança.

O projeto é um sucesso. E culmina com a Olimpíada Online de matemática para alunos do Ensino Fundamental I do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. É a “bricsmath.com”, que foi testada de 16 a 31 de outubro e cuja navegação oficial teve início dia 1º de novembro, prolongando-se até o dia 15 deste mês.

O Brasil é o segundo, dentre os Brics, em número de inscrições. O primeiro, óbvio, é a Rússia. A participação é gratuita, os exercícios estão disponíveis em português e a duração da “navegação” online é de 60 minutos. É muito fácil participar. Os professores acessam o site http://www.brics-math.com e registram seus alunos online.

Os estudantes recebem seus logins e senhas individuais e resolvem questões em qualquer dispositivo conectado à internet. Podem ser utilizados quaisquer mobiles: smartphones, tablets, notebooks e computadores de uso cotidiano.

Os alunos que já possuem cadastro na plataforma dragonlearn.com.br podem usá-lo para acessar a Olimpíada. A participação é gratuita e mais informações estão disponíveis no site http://www.brics-math.com.

É muito importante que nossos estudantes se compenetrem de que a matemática é necessária, imprescindível mesmo, para toda e qualquer profissão. Principalmente para aquelas que definirão o futuro do Brasil, no setor da engenharia, da física, da computação, da programação e de outros desafios que estão a aguardar os futuros adultos, hoje nossos alunos na escola pública.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 05/11/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

Foto: Mastrangelo Reino/A2IMG

 

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Estudantes dos Anos Iniciais da rede estadual utilizam a plataforma BricsMath.com que está disponível em 5 outros países


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A distância que nos une

A OXFAM Brasil, organização não governamental que estuda as desigualdades no mundo e objeto de uma entrevista do empresário Oded Grajew a Mário Sérgio Conti publicou o livro “A distância que nos une”.

Todos sabem que o Brasil é o país das desigualdades. Nem todos têm noção de que estamos rumo ao campeonato desse ranking indesejável. Que um por cento da população paulistana detém 47% do patrimônio. Que alguém que nasce na Cidade Tiradentes só pode aspirar a 54 anos de vida, enquanto alguém nascido no Alto de Pinheiros chegaria a 79 anos.

O conto da redução das desigualdades nos últimos anos mostrou-se falacioso. Não só inexistiu diminuição como se acentuou a situação iníqua. Convive-se com uma violência crescente – 60 mil mortes por ano, causadas pelo morticínio superior a qualquer guerra. Além da violência dentro de casa, nas escolas, nas ruas, em todos os espaços. Sem falar na violência simbólica da insensibilidade, da falta de compaixão, na invisibilidade dos mais pobres.

Tudo contribui para que o panorama se eternize. O sistema tributário é promotor de desigualdades. Os pobres pagam mais impostos do que os ricos. Qualquer aquisição, por mínima que seja, reserva ao fisco substancial parcela do custo. Para o poderoso, isso nada significa. Para o hipossuficiente, isso é uma carga intolerável.

O Brasil e a Estônia são os únicos países que não tributam dividendos sobre lucros. Quanto mais rico, menos impostos. O dono de um automóvel que foi incentivado a comprá-lo à prestação e quase não tem como sustentá-lo paga IPVA. Mas os que têm lanchas, iates, helicópteros e aviões não pagam.

É de assustar ouvir declarações tão contundentes no sentido de que isso não é por acaso, mas provém de uma premeditação: enquanto houver massa não pensante, não adequadamente educada e incapaz de formar opinião crítica, tudo continuará como sempre foi.

Por esse motivo é urgente que as pessoas lúcidas e de boa vontade se aproximem da escola pública e levem a essa coletividade as condições de oferecer à criança e ao jovem brasileiro um ensino de qualidade.

Só mediante educação consistente e compatível com a 4ª Revolução Industrial é que o Brasil se livrará de suas mazelas e será uma nação compatível com aquela que idealizamos e da qual teremos condições de nos orgulhar.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 02/11/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Profissões em alta

Não é mais novidade afirmar que profissões morreram, outras estão em extinção e aquelas que serão necessárias daqui a algumas décadas ainda não têm nome. O que ainda não aconteceu foi uma reação consistente e focada rumo ao preparo das crianças e jovens para um futuro cada vez mais imprevisível.

  Os empregos desaparecem. Todavia, as pessoas precisarão trabalhar. Nos próximos dez anos, a máquina vai ocupar o lugar de quase 50% dos trabalhadores norte-americanos, 35% na Alemanha, 21% no Japão. E no Brasil?

Engatinha-se na oferta de cardápios factíveis e atraentes para uma juventude totalmente antenada nas redes, que já nasce com “chip”, eis que sua circuitaria neuronal é digital, enquanto que a circuitaria das gerações presentes é analógica. Ou jurássica, se houver interesse em se aproximar da realidade.

O que ensinar? Como ensinar? Como implementar na consciência do educando que educação é processo permanente, que não pode ter fim e deverá perdurar durante toda a existência terrena?

As atividades do futuro estão nas áreas emergentes: biotecnologia, nanotecnologia, mapeamento de dados, tutela do ambiente, cuidado com os idosos, marketing de negócios, mobilidade urbana.

O mais difícil é convencer o educador a se preocupar mais com as competências socioemocionais do que com a capacidade de memorização. O trabalhador do amanhã precisa saber trabalhar em rede, formar nexos e conexões, saber alterar o rumo, ter curiosidade para aprender novas tecnologias, saber conviver. Aprender a dialogar com respeito ao outro, ter presente que pensar diversamente não significa ser inimigo. Aprende-se com a posição contrária.

Fala-se em “nexialista”, que é o profissional apto a estabelecer conexões. Para isso, a comunicação é instrumento imprescindível. Por isso é importante aprender a aprender. Saber exprimir-se. Dominar a linguagem. Conhecer o idioma. Ter condições de ofertar clareza ao expor suas ideias. Sem necessidade de recorrer à onomatopeia ou a muletas como “tipo isso, tipo aquilo”, ou a repetir, de forma inadequada e pueril, o “com certeza”. Expressão comum a vários jovens, que, na verdade, ainda tateiam no terreno da mais absoluta incerteza.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 02/11/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Daqui a alguns anos…

A inteligência artificial já está presente em nosso dia-a-dia. Exemplo: ao digitar uma palavra quando se usa o celular para mandar mensagens, o corretor ou corrige ou faz sugestões. Inclusive antecipa o nosso pensamento. Isso é inteligência artificial.

Queira-se ou não, ela está avançando. Na Medicina, a facilitar diagnósticos e a cotejar resultados de exames periódicos, para chegar a uma constatação que antes dependeria de análise do médico. Para controlar a fila dos que vão se submeter a uma cirurgia.

Diz-se que isso torna a Medicina mais desumana. Mas os que defendem o uso da tecnologia afirmam que o médico terá mais tempo para conversar com o paciente, pois o trabalho de campo já foi feito pela máquina.

Os setores de Recursos Humanos e a administração de pessoal nunca mais serão os mesmos. Pode-se acompanhar a vida de uma pessoa a partir dos dados acumulados, que são os “vestígios informáticos” deixados por ela, quando começou a trabalhar, quais os seus cursos e as notas e avaliações para orientar quem vai contratar. Até mesmo o tempo de permanência nos empregos.

Mas é muito mais que isso. Dentro de poucos anos, a incorporação das máquinas em nossa vida será irreversível. Três fases são antevistas: na primeira, haverá adições externas e não invasivas. É o exemplo de HoloLens, as lentes holísticas que são óculos de realidade aumentada, já em uso após trabalho da Microsoft. Eles conseguem integrar objetos sintéticos e imagens reais.

Na segunda fase, haverá dispositivos que se conectarão com áreas específicas do cérebro, estimulando-as, intensificando-as e extraindo delas todas as suas potencialidades ainda não utilizadas. Na terceira fase, partes inteiras do corpo serão substituídas pelas máquinas e serão ainda mais alavancadas. Já existem laboratórios e empresas que conseguem criar visão artificial para quem não enxerga.

A China está bem à frente de todos os demais países nesse trajeto rumo ao futuro que já chegou. Por isso a urgência em formar gerações plugadas, antenadas com o que acontece no mundo virtual, aptas a desenvolver habilidades que a minha geração desconhecia, mas que serão vitais para sobreviver nas próximas décadas.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 29/10/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Um desafio real

O professor é insubstituível. Aquele que ensina a criança e a estimula a ter curiosidade intelectual precisa ser profissional bem formado e que conserve, durante toda a sua carreira, o entusiasmo que o levou a escolher o Magistério. O advento da Base Nacional Comum Curricular impõe adoção de estratégias para repensar o projeto de formação continuada dos professores. O êxito na implementação das novas Bases está intimamente condicionado ao preparo docente. Os próprios professores gostariam de intensificar atividades de desenvolvimento profissional, conforme indica o resultado do questionário da Prova Brasil de 2015, elaborado pelo MEC/Inep.

A par de inúmeros diagnósticos, o Consed – Conselho de Secretários de Estado da Educação formou um grupo de trabalho com o propósito de refletir sobre a formação continuada dos professores. Além de representantes dos 27 Estados-membros, cinco indicados pela Undime – União Nacional de Dirigentes Municipais de Ensino fizeram parte desse GT.

Grupo heterogêneo, a refletir a própria heterogeneidade do Brasil, não teve em mente sugerir um roteiro de ações a serem rigorosamente seguidas por todos os Estados. Nem elaborar uma “base nacional comum” para as políticas de formação continuada. Sequer se pensou em exprimir unanimidade, ou representar agenda exaustiva de considerações sobre o tema. Levou-se em consideração a relevância da participação de outros profissionais da educação e também as políticas de formação continuada já em curso pelos Estados.

O resultado das reuniões presenciais e das consultas on-line foi a produção de uma relação de considerações organizadas em 9 eixos: Estrutura interna do órgão central, diagnóstico, metodologia, regime de colaboração, provisão das ações, financiamento das ações, relação com o Plano de Carreira, Comunicação das ações e monitoramento e avaliação.

Cada eixo foi objeto de consistente análise, tudo constante do documento final do GT. Apenas para exemplificar, o eixo metodologia propõe considerar a escola como locus principal da formação continuada, a necessidade de se avançar no sentido de assegurar a jornada do professor em uma única escola, a promoção da formação continuada em serviço por meio da utilização mais efetiva de 1/3 da hora-atividade já previsto em lei, a promoção e estímulo ao trabalho colaborativo entre os professores, por meio da coordenação pedagógica, por exemplo.

Ao término da elaboração do relatório, o GT formulou um conjunto de reflexões complementares, quais sejam: 1 – A necessidade de redesenho dos cursos de formação inicial de professores; 2 – A necessidade de se ampliar o conjunto de pesquisas nacionais sobre evidências de impacto de políticas e programas de formação continuada no Brasil, de modo a confirmar ou complementar as principais conclusões da literatura internacional e, principalmente, focar as experiências brasileiras que evidenciem efetividade e eficácia; 3. A urgência de se ampliar espaços de troca e aprendizagem entre os técnicos das Secretarias de Educação, de maneira a compartilhar estratégias bem sucedidas e acelerar o processo de aperfeiçoamento das políticas de maneira sistêmica e 4 – A conveniência de se ampliar as oportunidades de formação técnica para os quadros das Secretarias, vez que muitos dos responsáveis pela formulação e implementação de políticas de formação continuada de professores, não têm capacitação específica ou ampla experiência no tema.

O potencial de incidência do relatório está no desencadeamento de futuras ações e medidas que poderão ser ancoradas e referenciadas no conjunto de ideias e caminhos apresentados no trabalho. Afinal, nada é estático, mas é um processo dinâmico, gerador de novas reflexões, e que precisa ter continuidade, mediante chamamento de profissionais e de doutrinadores que possam alavancar um projeto de extremo interesse para o futuro do Brasil. Qual seja: qualificar e requalificar os professores, para que o fruto de seu trabalho atenda às necessidades de um amanhã que bate às portas e que a todos surpreende pela profunda mutação do convívio e pelo surgimento do inesperado, o convidado permanente deste mundo de incertezas gerado pela 4ª Revolução Industrial.

Fonte: Correio Popular| Data: 27/10/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

Foto: Milton Michida/A2IMG

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Professores passam por curso de formação na Diretoria de Ensino de São Bernardo do Campo


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Antígona Beltrão

Assisti a um último ensaio de “Antígona” no Teatro Raul Cortez, direção de Amir Haddad e uma única atriz, que é um show de interpretação: Andréa Beltrão. Aquela estrela global de “Tapas e Beijos”, da “Grande Família” e de tantas outras cenas televisivas, mostra-se versátil e talentosa ao extremo.

Sófocles legou ao mundo um teatro que faz pensar. E o mundo precisa mesmo exercer um raciocínio que vá além das fofocas e das “fake news”. A peça é uma aula de pós-graduação em humanismo. Serve principalmente para a grande comunidade das Ciências Jurídicas. Pois nos faz pensar se o Direito Natural se sobrepõe à lei positiva.

O mero fato de alguém pertencer à espécie humana, a única a se autoconsiderar racional, torna essa pessoa merecedora de respeito e de reconhecimento de sua dignidade. Impõe o inalienável direito de ter uma sepultura condigna à sua condição.

A luta de Antígona é para enterrar seu irmão que, por haver perdido a guerra, havia sido condenado por Creonte a permanecer insepulto, entregue aos cães e abutres.

Antígona faz pensar no direito de resistência. O ser humano pode resistir à ordem legal, mas considerada injusta? Qual o critério de justiça que prevalecerá? Justiça é algo mensurável?

A direção encontrou na atriz uma personalidade esplêndida, capaz de se transformar em segundos, de assumir todos os papéis, de se impregnar da emoção da personagem e de uma agilidade invejável. Aptidão física, aptidão verbal, magia que transporta o auditório à borrasca emotiva que envolve a trama de ciúmes, vingança, amor, adultério, incesto, violência, orgulho, todas essas interferências ínsitas ao ser humano. E muito mais próximas da realidade brasileira do que poderiam estar no período instigante da mitologia grega.

O espetáculo é didático porque recapitula o encadeamento de fatos conducentes à tragédia que ainda hoje ocupa as cogitações psicológicas deste animal estranho chamado homem! Por alguns considerada a maior das maravilhas, para outros a causa da extinção gradual e acelerada de toda forma de vida neste sofrido planeta. Um projeto frustrado, que chegaria a decepcionar o autor do design inteligente.

Assistam “Antígona”! Fará bem a quem estiver perplexo com o atual momento tupiniquim.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 26/10/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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