Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Inovar sem temor

Cada povo tem sua história, sua cultura, suas tradições e suas características. Isso não impede que boas práticas sejam customizadas e implementadas em outras plagas. Quando se fala em educação e se procurar alcançar os índices desejáveis, não há por que deixar de importar soluções exitosas em outras nações.

A Finlândia é uma referência mundial em educação. A “escola do futuro” ali já existe e parte do pressuposto de que devam ser absorvidas metodologias mais conectadas com a realidade atual. Daí a ruptura com disciplinas compartimentadas, trabalho cooperativo entre alunos e professores e ensino a partir de projetos. Propõe-se a um desafio e de estimula o aluno a oferecer alternativas para solucioná-los.

Todos têm noção de que o Ensino Médio com a profusão de disciplinas sem qualquer conexão com a multiplicidade de docentes sequer chega a identificar o aluno, deixa de lado o que é mais importante do que informar e fazer decorar. Cada ser educando é um indivíduo com suas carências e aptidões, com suas angústias e seus talentos. O ideal é um ensino individualizado, o que o atual sistema não permite.

O aluno quer ter vez e voz e investir em sua capacidade crítica e estimular sua curiosidade produzem resultado mais tangível do que adestra-lo a guardar na memória informações que podem ser localizadas na internet. A educação atual foi concebida como se o mundo fosse estável e previsível. Mas tudo hoje é multidimensional, imprevisível e a única certeza é a incerteza. O inesperado surpreende a cada momento e quem não estiver apto a enfrenta-lo não aproveitará o manancial de conhecimentos disponibilizado pelo mundo digital.

As competências socioemocionais são tão ou mais importantes do que as técnicas de ensino/aprendizagem. A sala de aula tem de ser repensada, a distribuição topográfica de assentos e carteiras não corresponde à urgência da interação e participação de todos os aluno. E, mais ainda, a escola não é o único lugar de aprendizagem. Todos os espaços servem para despertar na criança e no jovem o interesse por dominar áreas que sequer têm nome.

Nosso cardápio de ofertas de profissões é escasso e pobre. O mundo exige habilidades que não têm sido mencionadas no ambiente escolar. A  hora é de inovar sem temor. O futuro merece que nos preocupemos muito mais com ele do que tem sido a manutenção de modelos anacrônicos superados.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 13/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Somos emocionalmente frágeis?

Diante da irreversível constatação de que as habilidades socioemocionais são mais importantes para a felicidade pessoal do que as capacidades cognitivas, é preciso estar atento à influência da emoção em nosso comportamento.

Dentre as consequências da debilidade emocional na postura pessoal e profissional, os especialistas apontam uma série de inconvenientes, todos aptos a atrapalharem nossa vida.

A síntese da maior parte deles seria a incapacidade de separar os problemas pessoais das atividades profissionais, de forma que os resultados esperados sejam afetados. Outro é a competitividade excessiva. Também a falta de foco nas tarefas.

Muitos emocionalmente frágeis têm dificuldade para lidar com as limitações das pessoas. Algo presente em inúmeros ambientes, até mesmo naqueles que não admitiriam essa influência, é a participação na maledicência, nas mentiras que desarmonizam a equipe e prejudicam o ambiente de trabalho.

O emocionalmente inseguro não tem capacidade de reconhecer seus talentos. Sua motivação é atrelada apenas ao reconhecimento. Egocentrismo e sensibilidade extrema são inimigos de um bom desempenho. Quem se fragiliza não tem motivação no trabalho e reclama o tempo todo.

Outra ocorrência não rara em muitos espaços de convívio é a incapacidade de receber críticas. Quem se vê afetado intensa e continuamente por fatores emotivos, não consegue planejar sua carreira. Começa a padecer de falta de controle emocional em situações de pressão e seu comportamento passa a ser pautado pelo domínio das emoções.

Nem sempre se consegue atravessar sozinho por esse caminho árduo do autoconhecimento, de maneira a conseguir conduzir-se com equilíbrio e sensatez. Quando o cenário não se mostrar dos melhores, é conveniente procurar auxílio de um especialista. O importante é ter noção daquilo que nos prejudica, nos afeta e nos impede de explorarmos nossas potencialidades, comprometendo o lugar do trabalho, expondo-nos ao ressentimento daqueles com os quais convivemos e, acima de tudo, tornando-nos profundamente infelizes.

A vocação humana é a felicidade. Se possível, transmitindo esse espírito de bem-estar e conforto espiritual para todos aqueles com os quais interagimos.

Fonte: Diário de S. Paulo| Data: 13/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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O poeta Ayres Britto

Quem conhece o poeta Carlos Ayres Britto não pode deixar de encantar. Ele é um ser humano singular. Irradia sensibilidade. É um testemunho vivo do que significa a dignidade da pessoa humana, tão decantada como supravalor fundante, tão vilipendiada na prática.

Somente um poeta, como julgador, consegue fazer com que o contraditório seja concretizado em sua plenitude: colocar-se no lugar no outro. Sentir as dores do outro. Estar, simultaneamente, na condição de cada uma das partes. Longe da sofisticação teórica insuficiente para a realização da justiça concreta.

Desde o “Varal das Borboletras”, entusiasmei-me com o talento do irmão de alma de Paulo Bonfim, outra criatura que é primícias da Providência Divina. E veja, muito feliz, que ele continua a produzir. Talentoso cultor da síntese, tão distante de nossa prolixidade jurídica, fabrica seus aforismos na categoria do que ele mesmo chama “poemas-flash” ou oximoros. Oxímoros são combinações de palavras com sentido antagônico tendentes a se excluir mas que, juntas, geram reforço e produzem efeito profundo, simbólico, filosófico e inspirador.

Alguns dos aforismos de Ayres Britto foram recentemente publicados na “Ilustríssima” da Folha de S. Paulo de 28.5.2017 e serão incluídos num livro ora no prelo. Não resisto a me apropriar e a partilhar com aqueles que não tiveram a oportunidade de lê-los. Aqui vão:

“A silhueta de verdade só assenta em vestidos transparentes”. “Ao contrário da roupa no tanque ou nas pedras do rio, quando mais se torce a verdade, mais ela encarde”. “O pior juiz é o que faz de sua caneta um pé-de-cabra”. “Quando um povo pega o touro da corrupção a unha, monta relâmpago em pelo e não cai”. “Não tenho metas ou objetivos a alcançar. Tenho princípios, e na companhia deles nem me pergunto aonde vou chegar”. “Especialidade de vigaristas é conciliar voz fluente e pensamento gago”. “Há quem tenha por fim não ter princípios”. “Conservador é um sujeito movido a imobilismo”. “O sangue da vida também flui pelas veias das palavras”.

Magnífica poesia e filosofia para viver melhor. Vale refletir sobre cada criação que deflui da mente privilegiada e generosa do poeta Carlos Ayres Britto. Para minha alegria, dileto e cultuado amigo.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 06/07/2017

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O que você quer no fim da vida?

Mais dia, menos dia, todos temos de morrer. Embora prefiramos não pensar nisso, a verdade é que não escaparemos à morte. Por haver enfrentado a proximidade dela, que me ceifou pessoas muito queridas, escrevi “Pronto Para Partir?”, que está na terceira edição. Penso muito sobre a morte, até para valorizar o milagre da existência. Acordar a cada dia, estar respirando, podendo enxergar e andar, é uma dádiva que mereceria gratidão e reconhecimento contínuos. Nem sempre fazemos isso.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, Japão, Itália e Brasil pela revista “The Economist” e pela Kaiser Foundation mostra que, no final da vida, estender os dias o máximo possível é extremamente importante para 50% dos brasileiros. Já nos Estados Unidos, Itália e Japão esses índices foram bem inferiores. O tema da pesquisa foi: “o que as pessoas querem no fim da vida” e a primeira indagação era: em se tratando de assistência, que é mais importante no fim da vida. A reposta “estender a vida o maior tempo possível” foi 9% das respostas no Japão. Nos Estados Unidos, 19%, na Itália 13% e no Brasil, 50%. A opção “ajudar as pessoas morrer sem dor, desconforto ou estresse” mereceu 82% da preferência dos pesquisados no Japão, 71% nos Estados Unidos, 68% na Itália e 42% no Brasil.

Quando se pergunta o que é de extrema importância ao pensar na própria morte, a maioria dos brasileiros responde que é estar em paz espiritualmente. Já o japonês e norte-americano dizem que é não deixar a família em má situação financeira, enquanto o italiano quer ter ao seu lado as pessoas amadas. Quanto a quem devem ter a decisão final sobre tratamento médico de uma pessoa com doença terminal no fim da vida, 47% pensam que é o paciente ou seus familiares, 40% atribuem a responsabilidade ao médico e 12% a ambos igualmente.

Salientam os pesquisadores que a forte religiosidade dos brasileiros influencia na concepção que têm sobre os cuidados que desejariam no fim da existência. Na verdade, a fé é alavanca poderosa para manter a serenidade, mesmo sabendo que no final da linha haverá o supremo mistério. Aquele que nos aguarda e que ninguém veio para contar como é.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 09/07/2017

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Quem se arrisca?

Poucos são os que se arriscam a um difícil exercício de futurologia. Como será a escola de amanhã? Há quem propugne até a redução do equipamento destinado a ensinar, pois o conhecimento será cada vez mais acessível e disponibilizado. Basta a curiosidade do educando para descortinar infinitas possibilidades de aprendizado.

O acervo de informações dobra a cada dezoito meses, dizem os especialistas. O difícil mesmo é filtrar esse excesso de dados, a inflação de números, assertos, teses e versões. Por isso é que o professor do amanhã precisará ser ainda mais vocacionado do que o de hoje. Ele será um orientador, um estimulador, um incentivador, um conselheiro, um cúmplice na descoberta das novidades.

O que se sabe é que tudo aquilo que hoje se oferece como cardápio para a criança e o jovem terá saído do menu do porvir, ou seja: as atividades das quais o mundo terá necessidade não têm mais ainda nome certo. Menos ainda as profissões que se encarregarão de exercê-las. Para o treino do adulto de amanhã é mais importante investir em potencialidades do que em continuar a fazer com que a memória selecione aquilo que, provavelmente, a pessoa precisaria saber. Hoje ainda se prefere “adestrar” a criança a formá-la para ser um adulto com capacidade de escolha e com autoridade crítica.

Mais do que as habilidades cognitivas, haverá necessidade de investir nas habilidades socioemocionais. Criatividade, assertividade, empatia, curiosidade, originalidade, capacidade de conviver são o que se exigirá do ser humano daqui a algumas décadas.

Fala-se, pois, que nem haverá necessidade dos equipamentos atuais, com grandes edifícios repletos de compartimentos denominados “salas de aula”. Como a tecnologia é que dominará o ambiente, a palavra de ordem é conectividade. Em qualquer espaço e em qualquer lugar, o aluno terá condições de saber o que se espera dele e a pesquisa que deverá fazer para chegar até lá.

O “mobile” é que terá múltipla utilização, assim como a inteligência artificial garantidora de que roupas, óculos, outros apetrechos “falem” entre si e com os domínios virtuais disponíveis. As “navegações” pelas mais diferentes situações serão viáveis. Tanto geográfica como no percurso do corpo humano, no tempo e no espaço, para que o penetrar em outra época se torne possível e seja proveitoso.

O alunado portará chips, será servido por lentes providas de câmeras, os exercícios serão games. A interação possibilitará um salto na criatividade e não haverá limites para a autorrealização pessoal. Todos os caminhos estão abertos para as pessoas, tanto no nível da eletrônica e da informatização, e aí têm lugar os programadores, como nos serviços cada vez mais necessários de cuidadores, produtores de mudas, preservacionistas, designers, acompanhantes, guias, companheiros para longas e curtas viagens. Pilotagem de drones, administração de big data, analistas de viagens espaciais, biohackers, profissionais da realidade virtual, mecânicos de robôs, nanotecnólogos e paramédicos.

Memória de pouco valerá, mas, em compensação, é urgente investir em boa comunicação, adaptabilidade, facilidade de aprender e de trabalhar em equipe, tolerância, paciência, compreensão e capacidade de perdoar, pois o bicho-homem continuará a ser produzido com a mesma matéria-prima falível e fissurada com que hoje vem ao mundo.

Fonte: Correio Popular Campinas| Data: 07/07/2017

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Nem só dinheiro

O presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, Conselheiro Sidney Beraldo, promoveu um encontro muito interessante no Palácio dos Bandeirantes. Chamou de “Semear”, para disseminar as boas práticas na educação, principalmente aquelas desenvolvidas no âmbito dos municípios.

Iniciou sua fala com uma observação interessante. Nem sempre o investimento de recursos financeiros no ensino conseguem os melhores resultados. Exemplificou com municípios que investiram 26% do orçamento em educação e obtiveram índice no IDEB (avaliação nacional de desempenho do aluno) igual a 8. Já um município que investiu 34% só obteve 5.

O que vale é a qualidade do gasto, não o seu montante. Um município como Dumont aplicou cerca de R$ 2.500 por aluno/ano e chegou ao nível 8 no IDEB. Enquanto outro que investiu R$ 10 mil chegou a 5,3. Por isso é que se mostra urgente evidenciar o que leva cidades que lutam com idênticas dificuldades, todas atravessando fase muito difícil na policrise brasileira, a um quadro de tamanha desigualdade nos seus números finais.

O essencial é uma gestão inteligente. Gestão que parta de um verdadeiro afeto pelo ensino. É insuficiente reservar bom orçamento, boa estrutura e demais aportes materiais se não houver uma substanciosa carga afetiva.

Aquilo que a educação mais necessita é de carinho, de respeito e também de consideração. Não se chegará ao bom termo se não existir devotamento. Por isso é que escolas vulneráveis, a despeito de todas as vicissitudes, produzem excelentes frutos. São professores vocacionados, diretores atentos, pais extremosos e dedicados, que não se descuidam do aprendizado dos seus filhos.

É milagrosa a intercessão da família junto à escola pública. Se a família estiver junto, o sucesso é garantido. E não há de se ter pressa. Educação é projeto demorado. Quem quer fazer rápido faz sozinho. Mas para ir longe, é preciso ir junto. A união de todas as pessoas de boa vontade é capaz de converter a escola pública no nicho de excelência que todos almejamos. E todos temos direito de almejar.

Fonte: Diário de S. Paulo| Data: 06/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Cansaço da vida

Música de Maysa muito ouvida nos anos sessenta parece adequada para os dias que o Brasil atravessa. “Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor. A vida passa, e eu com ninguém, e quem me abraça não me quer bem”. Em seguida a música fala de fracasso: “de fracasso em fracasso, e hoje, deserte de tudo, o que resta é o cansaço, cansaço da vida, cansaço de mim, velhice chegando e eu chegando ao fim”.

A sensação de cansaço é um componente bastante próximo daqueles que já não acreditam nas instituições humanas. O que aconteceu com o Brasil que chegamos, como dizia Claude Lévy-Strauss, ao declínio sem passar pelo apogeu?

Para quem duvida de saída honrosa para a crise brasileira, é bom verificar o que acontece em outras partes do mundo. Para Dominique Wolton, especialista francês em ciência da comunicação, a chegada do poder de Emmanuel Macron derivou do colapso eleitoral dos antagonismos.

É portadora de mensagem de inovação, renovação e juventude. “É, antes de tudo, um lição de otimismo”. Para o sociólogo Wolton, a grandeza da política é que as cartas são sempre redistribuídas. Essa é a esperança que se deve transmitir à juventude brasileira.

As instituições, em regra, estão sendo preservadas. A Justiça está respondendo às urgência de uma faxina geral. É preciso renovar a certeza de que todos somos maiores que a crise e que o Brasil quer gente séria e comprometida com o próximo para reger seus destinos.

A democracia reclama protagonismos sério de cada um. Muita gente se acostumou a reivindicar sem contrapartida. É necessário assumir deveres, obrigações e responsabilidades. Não é preciso interagir diariamente como o eleitorado para que o político seja respeitado. Ele tem de trabalhar em benefício do povo.

O interessante é que Dominique Wolton não fã ardoroso das redes sociais, tão incensadas ultimamente. Para ele, elas ampliam o presente e esmagam o futuro.

Elas impedem o debate sobre questões verdadeiramente fundamentais, pois são muito fundamentais. As redes sociais criam a ilusão de um tempo que para no presente, o que nos leva a confundir expressão com ação que o Brasil clama.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 02/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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