Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Não é a escola que faz o aluno

                       O artigo “Escolas fazem diferença?” de Hélio Schwartsman, publicado na FSP de 14.4.2018, aborda um tema de extremo interesse para toda a sociedade brasileira. O jornalista aborda a tendência contemporânea de proliferação de escolas consideradas “nichos de excelência”, que cobram mensalidades superiores a dez mil reais e são destinadas, obviamente, às famílias que podem pagar.

            Não é ruim que o Brasil tenha cada vez mais escolas, cada vez mais opções para todos os níveis. E que a performance das grandes empresas, ávidas por conquistarem mercado florescente, seja estímulo para a escola pública. Quando há melhora de nível do ensino em qualquer espaço, há possibilidade de se ampliar a comparação com todos os outros. Que os responsáveis pelo ensino estatal copiem os bons exemplos e propiciem ao aluno que não pode pagar, qualidade compatível com a dessas escolas-modelo.

            A boa notícia contida no texto é o de que não é a escola de elite a responsável pelo êxito do alunado. Ela tem bons resultados porque trabalha com uma clientela diferenciada. Há um estudo científico mencionado, de Atila Abdulkaridoglu, a atestar que para bons alunos, não é a escola que faz a diferença. “O que é bom já nasce feito”, a velha lição da sabedoria popular não é destituída de razão. É o aluno que faz a escola, não o contrário.

            Posso testemunha isso, eis que nunca deixei a sala de aula, desde 1969. Sempre lecionei, simultaneamente, em unidades de elite e em outras escolas. Em todas tive alunos promissores. A diferença é que nas escolas consideradas de excelência, o aluno vem de lares onde há bibliotecas, onde se lê bastante, onde os pais têm curso universitário. Viajam nas férias, conhecem outros países e dominam outros idiomas.

            Nas escolas que acolhem todos os candidatos aos vestibulares, onde, na verdade, sequer há seleção, mas basta se matricular e honrar as mensalidades, sempre módicas se comparadas com as “ilhas de qualidade”, a origem do alunado é outra. Ensino fundamental deficiente. Não sabem ler. Não sabem interpretar. Não conseguem se exprimir em vernáculo erudito.

            Ainda assim, se o estudante quiser, ele vence todos os obstáculos. Embora seus colegas das escolas consideradas de ponta comecem melhor, há condição de superação se ele se esforçar. Mas esforçar-se mesmo, sem esmorecer. Há espaço para todos aqueles que têm o ingrediente vontade e a consciência de que o estudo ainda é a única chave certa para a mudança de vida que depende de cada indivíduo e não de condições exteriores a ele.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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XII Encontro notarial e registral do RS

Bento Gonçalves (RS) – Principal atração do primeiro dia do XII Encontro Notarial e Registral do Rio Grande do Sul, a palestra magna, foi ministrada na noite de sexta-feira (06.07) pelo desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ/SP), José Renato Nalini. O tema abordado foi “As Delegações Extrajudiciais e a 4ª Revolução Industrial”.

Nalini iniciou sua fala, abordando as principais mudanças ocorridas nos últimos séculos…

Confira essa matéria completa no link abaixo:

José Renato Nalini ministra palestra magna do XII Encontro Notarial e Registral do RS

e

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Não Dá Para Fugir

            Um dos paradoxos da sociedade contemporânea é o discurso do apreço à privacidade e a “surra de lavada” que ela está levando de sua concorrente, a transparência. A Constituição de 1988 é pródiga em acolher antagonismos que vão reclamar imaginação criadora e malabarismos hermenêuticos para conciliar ordem e liberdade, propriedade e sua função social e o nosso tema de hoje: privacidade (ou intimidade) e publicidade (ou transparência).

            Uma primeira constatação é a de que as pessoas gostam de aparecer, de se mostrar, de se exibir. Aqueles minutos de fama no “fogareiro das vaidades” continua a funcionar e a atrair milhões de seres humanos ávidos por não serem esquecidos.

            Já é um contrapeso à defesa da intimidade. Em seguida vem o argumento da segurança. Todos têm medo e este justifica uma certa perda de privacidade. Pais seguem os filhos durante todo o tempo em que os não têm sob suas vistas. Cargas são acompanhadas pelos interessados em não perdê-las de vista. Os espaços que abrigam valores, tangíveis ou intangíveis, têm de estar sob a proteção de esquemas cada vez mais sofisticados.

            Isso decreta o fim do anonimato. Há poucos dias, Filipe Oliveira anunciava que o anonimato está com os dias contados. Hoje, entrar em loja, hotel, escola, ônibus e estádio de futebol sem ser reconhecido será quase impossível. A inteligência artificial ajuda a identificar as faces e não adianta tentar fazer plástica para mudar a fisionomia. Há outros caracteres indestrutíveis e esses bastarão para reconhecer quem quer fugir.

            Há um acerto de 99% na identificação por imagem. As câmeras não só identificam, mas são hoje capazes de detectar a emoção da pessoa. Prato cheio para o comércio, que saberá como lidar com sua potencial clientela, diante da reação fotografada pela câmera de segurança diante de um produto. Outra tecnologia já disponível: ao identificar o rosto do cliente, a empresa pode em seguida chama-lo pelo nome. Tratamento individualizado, em abono à vontade de ser prestigiado que se detecta na maioria dos viventes neste quarto de século.

            Para as escolas, o sistema servirá para avisar os pais de que o filho não entrou em sala de aula. Ou que está em companhia daquele colega que não é bem visto pela família.

            O sistema está mal começando. Pensem na disseminação disso e no ousado exercício de futurologia bem possível: ninguém mais será um desconhecido daqui a alguns anos.

             JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Lição de Moral

            Jô Soares volta ao espaço que domina: a cena teatral. Com a peça “A Noite de 16 de janeiro”, de Ayn Rand, que se passa no Tribunal do Júri. Jô é o Juiz Jonathan Sloane, que preside o julgamento de Andrea Karen, amante acusada de assassinar o milionário Bjorn Faulkner. No clipping de apresentação, Jô diz que escolheu o papel de Juiz porque é discreto, mas autoritário: usa à vontade o martelo que simboliza a soberania do Judiciário. E pode fiscalizar – de forma permanente – todo o elenco.

            Muita gente atua durante o espetáculo: o promotor Jonas Flint é o ator Marco Antonio Pâmio, excelente desempenho. O advogado de defesa Mark Stevens é o conhecido Cassio Scapin. A ré Andrea Karen é Guta Ruiz, muito expressiva.

            Os jurados são convidados especiais. Na noite da estreia, um deles era Fábio Porchat. Eles é que escolhem se a ré será culpada ou inocente.

            Tudo o que Jô faz é bem feito. Domina a cena. Conquista o público mesmo quando não fala. Expressivo, seus olhares, a interjeição gestual, as reações corporais, tudo mantém o auditório bastante ligado e atento. Não se sente o tempo correr.

            Melhor seria se a utilização dos termos técnicos não se afastasse tanto do nosso sistema. Nada obstante as diferenças entre o Júri americano e o brasileiro, há termos comuns: interrogatório é peça reservada ao acusado, no caso a ré Andrea Karen. As testemunhas prestam depoimento.

            Mas vale a pena assistir a esse grupo que reconstitui um julgamento com alguns pontos altos, como a atriz Tuna Dwek, a interpretar a governanta Magda Svenson. Importante é ainda procurar conhecer melhor a escritora Ayn Rand, cujo livro “A Revolta de Atlas”, de 1957, ainda vende duzentos mil exemplares por ano. Escreveu ensaios filosóficos muito cultuados, como “A virtude do egoísmo”, “For the new Intelectual” e cujo texto foi lembrado pelo Procurador da República Rodrigo Janot numa de suas peças processuais: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, eles é que estão protegidos de nós; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem teor de errar, que sua sociedade está condenada”.

            16 de janeiro é dia do aniversário de Jô, que completou 80 anos em 2018. A peça está no Tuca, teatro da PUC-SP, rua Monte Alegre, Perdizes, capital, até 2 de setembro, todas as sextas, sábados e domingos. Não perca.

             JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Não falta mais nada

            Não há dúvida de que etanol é melhor do que diesel e gasolina. Mas também não se pode negar que extinguir toda a biodiversidade brasileira para transformar o Brasil num imenso canavial também não é bonito. Nem é solução.

            Chega o que se fez com São Paulo. A vocação natural de um Estado-membro com a dimensão paulista era a de pequenas propriedades rurais, normalmente chamadas “sítios”, que funcionavam como pequenas autarquias. A família cuidava da terra e dela extraía o seu sustento, a sua saúde e a sua dignidade.

            Um pouco de tudo. Café, milho, frutas, verduras. Gado e pequenos animais. Vida campestre. Festas juninas e outras comemorações. Costumes ingênuos, tão consagrados na cultura popular, na música regional, no folclore, nas crendices e nas superstições. Vida pura, bucólica, feliz.

            O que aconteceu depois? A cana-de-açúcar passou a atrair os pequenos lavradores, que arrendaram suas terras e viram a destruição de suas casas, seus currais, seus pomares. Tudo virou o enorme e verde canteiro da monocultura que sustenta as usinas. Desaparecem espécies nativas. Fulmina-se a fauna silvestre. As famílias são arremessadas para as periferias das grandes cidades. Perdem parâmetro e, muita vez, a própria dignidade.

            Quem percorre São Paulo se assusta com os canaviais que dizimaram a mata nativa. As queimadas ajudaram a desertificar. Onde as reservas florestais? Onde os córregos? Onde a beleza natural?

            Agora um projeto de lei do Senador Flexa Ribeiro, do Pará, quer liberar o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia Legal. Poucas vozes se alteiam para impedir essa atitude nefasta. Na véspera do Dia Internacional das Florestas o Brasil recebe mais esse golpe.

            A insensatez é a matéria-prima abundante no Brasil, em todas as esferas governamentais. Enquanto isso, a deficiência ética já sepultou o que seria de relevância extrema para salvar esta Pátria que já foi considerada o celeiro do mundo, o pulmão da Humanidade, a mais exuberante biodiversidade do planeta.

            Estamos condenados a nos transformar em deserto e não foi por falta de aviso. Foi por ignorância e cupidez. Unidas, são o veneno e a desgraça da Terra.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Falta é Vergonha

            Em recente artigo, Oded Grajew, idealizador do Fórum Social Mundial, respondeu a Clóvis Rossi, que criticou a inexistência de modelo econômico capaz de oferecer esperança às pessoas. Para Oded (FSP, 19.4.18, p.A3), o problema é a destinação de 82% de toda a riqueza gerada em 2017 para 1% dos mais ricos. 1% dos mais ricos detém mais riqueza do que todo o restante da humanidade.

            Para atender à ambição dos que acumulam riqueza, “nossa biodiversidade e nossas florestas estão sendo dizimadas e o aquecimento global produz alterações climáticas extremas, transformando terras férteis em desertos elevando o nível dos mares e ameaçando a própria existência da espécie humana”.

            Somente os cegos à miséria do mundo, os surdos aos clamores dos excluídos e os de coração insensível não percebem que o novo modelo econômico deveria adotar o eixo central da redução das desigualdades e preservação dos recursos naturais. É dessa forma que se protege a continuidade da vida no planeta.

            Grajew oferece opções: imposto internacional sobre todas as transações financeiras mundiais, o fim dos paraísos fiscais, adoção do piso vital mínimo. Os investimentos militares deveriam ser convertidos em investimentos sociais.

            Os recursos públicos deveriam estimular o trabalho não poluente, que não agrida ao meio ambiente, como nas áreas artística, cultural, esportiva, educacional, científica, médica e de preservação ambiental. Apoio efetivo aos grupos sociais mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com deficiência.

            Na verdade, o problema não reside na falta de ideias, propostas, recursos e conhecimentos. Está na falta de vontade política e de consciência dos poderosos. Estes só pensam no próprio interesse, no egoísmo imediatista que não enxerga senão a próxima eleição e o que é possível arrancar deste povo sofrido e entregue à sanha multipartidária, que só está ligada na obtenção de benefícios pessoais.

            Alguém está pensando em eliminar as dezenas de partidos que só servem para promover a venda de espaço na TV ou para servir de roupa de aluguel a quem quer conquistar imunidade ou foro especial? Por que não se pensa em extinguir o Fundo Partidário e que os partidos sejam sustentados pelos seus filiados?

Seria um bom começo. Mas quem acredita que o esquema leve a sério uma proposta como essa?

Não faltam projetos, nem propostas, nem planos. Ao Brasil, o que continua a faltar, é o ingrediente vergonha.

           JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Obesidade Bronquítica

            Paulo Hilário Nascimento Saldiva, mais conhecido como Paulo Saldiva, é um médico prestigiado e um pensador que ajuda a mostrar caminhos para o Brasil. Preside hoje o IEA – Instituto de Estudos Avançados da USP, centro de excelência encarregado de projetar o País do futuro e uma usina criativa na qual excelentes ideias têm sido geradas.

            Acaba de publicar um livro, “Vida Urbana e Saúde”, editado pela Contexto e que todos deveriam ler. Alerta a população de que anos contínuos de inalação de ar poluído converte cada ser humano em portador de bronquite crônica. Quem está no trânsito paulistano – e não é muito diferente em grandes cidades paulistas – ainda que não fume, está consumindo o equivalente a um cigarro a cada duas horas.

            Não é só, nem é o bastante. Viver na poluição atmosférica nos torna obesos, sujeitos a hemorragias, insuficiência renal e cardiorrespiratório. Ou seja: a cidade de São Paulo está enferma e enfermiços os seus habitantes ou habituais frequentadores.

            Saldiva critica as administrações municipais que se limitam a cuidar da cidade como se fora um Pronto-Socorro. Não investem no tratamento de base, como educar sobre alimentação, modificar hábitos e cultura. Só diante do colapso de algum sistema é que se faz algo mais sério.

            Uma receita de Saldiva: usar mais transporte público, pedalar e andar a pé. Isso reverteria em perda de um quilo por mês. É claro que o ideal seria um transporte civilizado, com fluidez no trânsito. As pessoas dormiriam melhor.

            As maiores vítimas são as crianças. Como há trânsito e violência, as crianças não caminham mais. Não brincam nas ruas. O “dever de casa” é feito diante da tela. Até comer a criança o faz olhando para o computador. Enquanto isso, nos Estados Unidos há caminhada obrigatória no entorno da escola e no Japão, em lugar de ginástica laboral, os empregados e patrões têm de caminhar no mato para desestressar e relaxar.

            Acrescente-se a carga de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, mais frequentes nos grandes centros urbanos. A solução é viável e perfeitamente ao alcance da nossa vontade: formar redes de solidariedade, de afeto e de apoio. Já a solidão coletiva acelera o sofrimento mental, o consumo de álcool e de drogas.

            Leiam o livro e sigam alguns dos conselhos de Paulo Saldiva. Vocês só têm a ganhar!

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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