Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Asfixiar meus netos

Nenhum avô mentalmente são asfixiaria seus netos. Entretanto, são muitos os que, de forma inconsciente, contribuem para isso. Como? Deixando de se opor à política insensata de destruição do Planeta, da qual somos ao menos cúmplices.

Quem assistir ao documentário “Chasing Ice” ficará alarmado com o ritmo de desaparecimento das geleiras que garantem o equilíbrio do clima na Terra. A ruptura de algumas calotas durante cem anos – de 1909 a 2009 – foi mais lenta do que a ocorrida nos últimos dez anos.

Culminamos com o espetáculo dantesco do desligamento de um enorme iceberg, de 30 trilhões de toneladas, equivalendo a toda a península de Manhattan, onde residem cerca de meio milhão de pessoas. Muitas delas, as mais ricas e poderosas do planeta. Só que a espessura do gelo é três vezes superior à do mais elevado edifício ali construído.

Tudo isso caiu no mar e a causa é o aquecimento gerado pelo efeito estufa. Algo comprovado pela Universidade de Nevada, que contém o acervo histórico das geleiras. Isso é reversível? Talvez não. Mas o que pode ser feito é exigir uma política supraestatal consequente com os malefícios que estamos causando ao ambiente. Mudar os hábitos de consumo. Produzir menos resíduo sólido.

Ou seja: ser mais limpo, não ser uma criatura suja, que só aumenta o que é descartável. Investir na busca de matrizes energéticas sustentáveis. Mas, acima de tudo, fazer um exame de consciência sério: eu sou responsável por reduzir, drasticamente, o suprimento de ar para que meus netos e bisnetos sobrevivam. Tenho noção do que isso significa?

Se eu tiver um espaço para reflexão e verificar o que foi a Terra há algumas décadas e o que é hoje, se eu for alguém suscetível de se comover, não há como deixar de assumir a minha parcela de responsabilidade.

É preciso vontade política, sim. Mas a vontade política é titularizada por quem? Por todos e cada um desses seres que se consideram racionais, que ainda têm capacidade de se emocionar e que, ao menos em relação aos seus descendentes, ainda mostra alguma espécie de amor.

Até os ímpios cuidam de suas crias. Mimam seus rebentos. Nós, que nos consideramos um pouco melhores do que eles, temos o dever de atuar de maneira mais efetiva, eficaz, eficiente e convincente.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 30/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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A vocação das cidades

Esse o título de um livro de Waldemar Fontes, publicado pela Barra Livros, que merece atenção. O especialista em Organização e Métodos e em Análise de Sistemas se propôs endereçar às escolas e aos alunos um desafio. Descobrir a vocação de sua cidade, para favorecer o empreendedorismo e fomentar a descoberta de talentos que poderão ser explorados com resultado benéfico para todos.

A partir da constatação de que as aulas teóricas são desinteressantes, principalmente para o jovem que já tem discernimento e sabe escolher, o propósito é oferecer vivência, participação de forma prática do conhecimento. “A participação real fornece mais estímulo e mais satisfação, além de ser um forte apoio à aprendizagem, fazendo com que se retenha, de forma mais dinâmica, aquilo que é vivenciado. E o fato de trabalharem no contexto da sua própria cidade ou bairro, torna o conhecimento aprendido mais próximo da realidade do aluno”.

O repto lançado aos alunos é a formação de grupos para descobrir o que a cidade ou bairro oferecem como opções de uma exploração útil, proveitosa e rentável. Toda cidade tem algo peculiar, singular e que pode ser incrementado com o olhar carinhoso e criativo da mocidade. Detectar essa vocação nem sempre explícita permitirá a criação de novos postos de trabalho, não necessariamente emprego, alavancar veios artísticos ou artesanais, aflorar dons que ficariam ocultos não fora esse empenho coletivo.

Onde está o segredo? Pode estar na agricultura, no campo pastoril, industrial, de serviços, turístico, esportivo, automotivo, cultural, alimentício ou gastronômico, no artesanato e no folclore. Tudo é suscetível de despertar o interesse daqueles que se devotarem a essa causa e, se forem de fato entusiasmados, poderão entusiasmar públicos crescentes.

O convite é oportuno em momento crítico da economia brasileira. Não há perspectivas de rápido saneamento das finanças públicas. Seria necessária uma profunda reforma política, tributária, previdenciária, bancária e mesmo do sistema Justiça. Isso não está no horizonte. E os municípios não podem permanecer à espera de que as coisas caiam do céu. Hoje, o que costuma cair do céu é chuva ácida e tempestades que inundam e causam enorme estrago.

A formação dos grupos nas escolas haverá de contemplar a criação de ambientes de pesquisa. Em lugar do aluno ouvinte, a copiar lições e a memorizá-las, ele deverá ser provocado a pensar como será sua cidade daqui a 20 anos e como ele se imagina nela ou fora dela.

O que poderia servir para divulgar sua cidade no Estado, no País ou mesmo no Exterior? De que ele se orgulha em sua terra natal? Como é que isso pode ser disseminado e gerar lucro?

A pesquisa haverá de partir de uma análise geral do município. O que ele já possui? Está na área agrícola, pastoril, de mineração e extrativismo? Está na sustentabilidade? Ou no Artesanato? Há viés de interesse pela Astronomia? Automobilismo, motociclismo, modelismo, uso de drones? Cultura? Folclore? Energias alternativas, como a solar, eólica, fotovoltaica, biogás ou biomassa? Como é que sua cidade se destaca nos esportes? Quais as principais modalidades? Fotografia, Cinema, Documentário, aplicativos de informática, youtubers? E a gastronomia, como é que anda? E a História? e o turismo? Pode ser campestre, rural, orgânico, religioso, da imigração ou da colonização estrangeira? Tem algum assentamento? Ou formação quilombola?

O essencial é descobrir esse veio indutor de uma transformação da cidade num polo de interesse local e extralocal. Logística, robótica, nanotecnologia, medicina de ponta, acolhimento aos idosos, equipamentos que possam servir como exemplo.

Tudo vale a pena e se o jovem vier a ser despertado para essa missão, cada município brasileiro se tornará um centro de irradiação de infinitas possibilidades de real desenvolvimento. Afinal, o município brasileiro é entidade da Federação! Da mesma categoria da União e dos Estados-Membros e do Distrito Federal. Vamos fazer valer esse status, em benefício dos munícipes. Pois ninguém nasce na União ou no Estado, lembrava mestre Franco Montoro. Todos nascem e pertencem à cidade.

Fonte: Correio Popular| Data: 28/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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A hora da ciência

O Brasil tem de festejar o lançamento do 1º edital do Instituto Serrapilheira para estímulo à pesquisa científica. O intuito é estimular os cientistas brasileiros a buscar respostas às grandes perguntas de nosso tempo. Foram escolhidos sete grandes temas: energia, espaço, forma, identidade, informação, matéria e tempo.

As áreas que serão financiadas: ciência da computação, ciências da terra, ciências da vida, engenharias, física, matemática e química. Nenhuma das áreas está necessariamente ligada a um tema específico. Depende da criatividade do pesquisador estabelecer uma relação entre os objetos de estudo e os temas.

Podem se inscrever os pesquisadores que obtiveram título de doutorado  a partir de 2007. Mulheres com filhos terão um ano a mais para cada filho, até dois. Todos devem estar vinculados a instituições brasileiras.

Serão escolhidos inicialmente 70 projetos, os quais receberão até R$ 100 mil. Depois de um ano, de 10 a 20 projetos dentre os 70 iniciais serão contemplados com aportes de até R$ 1 milhão para 3 anos de pesquisa.

É coisa extremamente rara que o Brasil financie pesquisa. Embora o discurso retórico seja edificante – a universidade se apoia sobre três pilares: ensino, pesquisa e extensão – a pesquisa é pobre. Graças ao casal Branca Vianna e João Moreira Salles, o Serrapilheira reduz a distância entre nosso País e o Primeiro Mundo.

Agora é hora de chamar todos esses pesquisadores anônimos que, em seus laboratórios, permanecem a estudar e a propor soluções para infinitos problemas humanos e fazê-los se interessar por esse projeto que poderá gerar incontáveis benefícios para a ciência no Brasil.

A escola pública fica mais esperançosa de que o ensino e o aprendizado científico obtenha seu “lugar ao sol”, pois nesta área poderíamos superar o atraso e acertar o passo com a contemporaneidade, mediante oferta de perspectivas insuspeitas para o amanhã de nossa infância/juventude.

Fonte: Diário de S. Paulo| Data: 27/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Quando parar de estudar?

Resposta: nunca! O século XXI propõe um padrão de vida em que o estudo é parte obrigatória. Durante toda a existência útil, a pessoa precisa continuar a estudar, a aprender, a se reinventar. A pesquisa “O Futuro do Trabalho”, levada a efeito no Fórum Econômico Mundial em 2016, indicou que 65% dos líderes globais consideram a capacitação das equipes para a solução de problemas complexos o maior desafio desta era.

Isso em virtude da alucinante revolução tecnológica ora enfrentada. Se na década de 90 o conhecimento tecnológico dobrava a cada 15 anos, hoje ele dobra a cada 18 meses. Quem não se atualizar verá desaparecer a sua competência e capacidade de sobreviver.

Não é apenas estudar as novas tecnologias. É saber usar aquelas disponíveis e combinar conhecimentos antigos com as descobertas recentes. Habilidades quais o empreendedorismo, técnicas e criatividade, resolução de problemas inventivos, Design Thinking, talento para persuadir, empatia, compreensão, tudo isso faz parte de um menu que a contemporaneidade oferece a quem quiser subsistir com dignidade e com alegria.

Ninguém deve esperar o convite do patrão, mas o segredo é ser proativo. Quem tem curiosidade chega lá. Quem precisa de empurrão não pega nem no tranco. Cada profissional tem de se perguntar, a cada dia, se aquilo que faz pode ser feito de melhor forma, em menos tempo, com dispêndio menor de recursos e energia. E também se autoindagar se continuará a fazer isso nos próximos anos ou se enxerga maneira mais esperta de chegar ao mesmo resultado.

Ninguém mais poderá se refugiar nas certezas, pois o inesperado surge e a incerteza é a única realidade com que se pode contar. A educação está a enfrentar uma luta incomensurável: não se pode ensinar aquilo que não se sabe o que vai ser. A maioria das profissões com as quais acenamos aos nossos estudantes não existirá dentro de vinte anos. E o que surgirá no lugar? Não há dúvida de que haverá o que fazer, só que isso ainda não tem nome. Cumpre a nós todos adivinhar o que virá!

Só a mente criativa, imaginativa e ousada de jovens audaciosos é que poderá ajudar a humanidade a encontrar caminhos dignos diante de um futuro tão repleto de mistérios.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 27/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

crédito: A2Img/Diogo Moreira

Sala de Leitura.


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Ensino Médio, múltiplas portas

Um dos raros consensos no universo educacional é o de que o chamado ensino médio precisa ser urgentemente revisitado. As crianças assimilam um currículo de cuja elaboração, naturalmente, não participaram, mas o jovem não aceita a transmissão de conhecimento na modalidade presente. São 13 disciplinas ou mais, em compartimentos estanques. Não há diálogo entre elas. Mas o principal defeito do sistema é o seu quase total alheamento da realidade. Não se consegue mostrar ao aluno que o acervo de informações ministrado em sala de aula tenha utilidade prática para uma vida futura muito diferente. Menos ainda interessá-lo a memorizar dados disponíveis em qualquer “móbile”.

Ingressou-se numa nova era: a crescente conectividade das tecnologias de comunicação e informação, a inteligência artificial, a internet das coisas, a robótica, a nanotecnologia. Mas as aulas continuam idênticas às de várias décadas passadas. Há quem diga que, em termos de escola, fazemos o mesmo há séculos.

Até iniciativas saudáveis, como a adoção de um currículo mínimo, esbarram na inércia. O padrão é replicado ano a ano e insiste-se na produção exclusiva de material em papel, quando a inserção no mundo virtual permitiria explorar potencialidades hoje apenas pressentidas. Só que o jovem tem a nítida percepção de que o sistema está equivocado. A resposta é a fuga da escola. A evasão no ensino médio é preocupante. Classes ociosas ou semivazias e barzinhos e baladas repletos de jovens que mostram estar ali por não encontrarem nas aulas a resposta para os desafios de hoje e, principalmente, do amanhã.

Quando se constata que a indústria brasileira não se preparou para a quarta revolução industrial, continua a produzir insumos, maquinário e ferramentas para um tipo de empresa que já não existe, pode-se compreender a dimensão do drama. O cardápio de profissões que a escola oferece ao jovem não existirá dentro em pouco. Enquanto isso, o que ele deverá fazer para subsistir com dignidade ainda não tem sequer nome.

Como não há progresso por salto, e obrigatório é o percurso das etapas essenciais à recuperação do tempo perdido, a urgência impõe reflexão consistente da parte de toda a inteligência brasileira.

Reitere-se o mantra adotado a partir do meu contato pessoal com o ensino público paulista: a educação é direito de todos, prodigalizado na cornucópia de bens da vida assegurados pela Constituição cidadã de 1988. Mas esse direito de todos não é obrigação exclusiva do Estado. É dever compartilhado com a família e com a sociedade. Explícita a opção fundante do artigo 205 da Carta política.

O Estado de São Paulo investe cerca de 30% de seu orçamento – 30% do orçamento do Estado-membro considerado o mais poderoso em termos econômicos em todo o Brasil – na escola pública. Ainda assim, os resultados poderiam e devem ser melhores se houver aproximação familiar e da sociedade e seu autêntico interesse em aperfeiçoar a formação das novas gerações.

O primeiro objetivo é tornar a escola sedutora. Atraente. Interessante. Por que a geração “nem-nem” persiste em sua opção pelo nada? Não estuda porque a escola é desinteressante e aborrecida. Não trabalha porque não encontra algo que o satisfaça como indivíduo desperto para o mundo novo. O “mundo maravilha” de algumas excelentes campanhas publicitárias, em confronto com o “mundo vazio” da vida real.

O mergulho irreversível na vida digital impõe a adoção de todas as fórmulas para instigar a curiosidade intelectual do jovem. Não é substituir pela máquina, pela tecnologia, aquilo que está condicionado a um impulso vital: a vontade de conhecer. Mas é servir-se das possibilidades abertas por esta profunda mutação para alicerçar uma busca mais consciente e direcionada do conhecimento. Nunca houve tanta possibilidade de acessar a sabedoria amealhada pelo ser humano neste sofrido planeta. Afirma-se que a cada 18 meses dobra a quantidade de informações disponíveis. Há um tesouro incalculável a permitir que o nosso jovem – bem orientado, mas a partir de sua determinação – seja um sábio muito mais completo do que qualquer figura legendária da História Universal.

Todos são chamados a implementar uma nova tática para despertar o interesse da mocidade pelo estudo. A família é motor insubstituível. Mãe que participa da vida escolar do filho é um fator de aceleração no processo permanente de absorção do domínio de qualquer assunto. A proximidade familiar da escola alicerça os seus sólidos fundamentos de centro de irradiação de tudo o que é bom para converter a sociedade numa comunidade de interesses sadios.

A sociedade tem papel relevante. Empresas, bancos, entidades, organizações não governamentais, comércio e serviços, igrejas, clubes, associações e pessoas físicas com vontade de mudar o Brasil. Todos são chamados a pensar e a agir. Oferecer oportunidades ao jovem estudante. Propiciar-lhe, se ele estiver no ensino regular, um turno extra com atividades práticas. Incentivá-lo a pensar como se enxerga daqui a 20 anos. O que fará de sua vida? Quais as opções que gostaria que fossem oferecidas para o seu porvir?

Há muito a ser feito. Algo já se faz, mas é preciso mais. Pois a messe é grande. É urgente a multiplicação de obreiros. Acaso o convite do constituinte se mostre insuficiente a motivar consciências ainda empedernidas, que fique a advertência de que a alternativa – deixar as coisas como estão – é nefasta. Quando os bons não fazem a sua parte, o mal cuida de ocupar esse vácuo. Há sinais de que ele pode avançar, até porque se apropriou de virtudes que o bem negligenciou. Disciplina, esforço, sacrifício, hierarquia, obediência, pontualidade, assiduidade, tudo isso a serviço de causas alimentadas por aquilo que não deveria existir na cogitação dos humanos. Paradoxo para as criaturas que se consideram a única espécie racional com morada nesta Terra.

Fonte: O Estado de S. Paulo| Data: 24/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

crédito: A2Img/José Luis da Conceição
ENSINO MEDIO

 


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Liberta ou aprisiona?

Queira-se ou não, aceite-se ou não, mergulhamos irreversivelmente no universo digital. Estamos plugados, ligados, acessamos redes sociais, nos comunicamos, somos informados e conduzidos pelo som permanente das novas mensagens ou por sinais quase imperceptíveis de que informações continuam a chegar.

O lado bom é que nunca se obteve tanto conhecimento. Afirma-se que o acervo de dados dobra a cada dezoito meses. Tudo o que acontece no mundo chega imediatamente até nós. O lado ruim é que muitos se tornaram escravos do sistema. Vivem sob seu comando, alienam-se do mundo real. Já nem conseguem conversar pessoalmente. Só por whatsapp.

Um dos mais respeitados estudiosos do tema é Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro – ITSrio.org. Ele fala da reação a essa dependência que, insitamente, não é diferente de qualquer outra, como aquela que subordina a vontade humana ao álcool, ao fumo e a outras drogas, dentre as quais o sexo pervertido.

A reação viria mediante movimentos como o “slow media”, baseado no “slow food”. A tentativa seria fazer com que os ingredientes da informação venham a ser escolhidos conscientemente e preparados de forma concentrada. Começaria por abolir o hábito de realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo, o “multitasking”. O uso mais saudável da internet é também o objetivo do jovem designer americano Tristan Harris, que deixou seu emprego no Google para criar uma ONG chamada “Time Well Spent” (Tempo Bem Empregado). Para ele, as pessoas tiveram sua mente sequestrada pela tecnologia. Ele é considerado o que mais se aproxima a “uma consciência ética no Vale do Silício”.

Não é fácil a missão de Tristan Harris. Ele gostaria de convencer as empresas de tecnologia a criar produtos que respeitem o livre-arbítrio dos usuários. Não é o que ocorre. O smartphone, por exemplo, nos mantém prisioneiros. Seu dono, quando não está olhando para a tela, tem a sensação angustiante de que está perdendo alguma coisa muito importante. Haveria alguma condição para se criar um smartphone que, depois de algumas horas de uso, nos mandasse descansar ou dissesse que era hora de dormir? Por enquanto não se vislumbra tal vereda. A tecnologia das informações nos liberta ou nos mantém prisioneiros?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 23/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Quem é que pensa no Brasil?

Alguns fantasmas bem concretos nos rondam: mais de 14 milhões de desempregados, apenas considerados os que procuram empregos; violência crescente: mais de 60 mil homicídios por ano; sucateamento da indústria; desmatamento acelerado; infraestrutura insuficiente. Tudo a culminar por descrédito no sistema político e no governo.

Enquanto isso, a profundidade das discussões no Parlamento, com intensa repercussão na mídia, é a de um pires. Não se reclama urgente e profunda reestruturação do Estado brasileiro. Que precisaria começar com uma reforma política séria. Nenhum País pode merecer quase quarenta propostas de governo. Uma política que aceita quarenta partidos é o testemunho da falência da política. Inexiste tanta definição do que deva ser a coordenação do poder para atender ao povo.

Os partidos políticos no Brasil têm sido reflexo dos sindicatos. São agremiações que existem para disputar recursos financeiros do Fundo Partidário. Precisam resgatar seu valor, seu respeito e sua importância.

Mas não é só. A reforma da Previdência é urgente. Não adianta vociferar se a conta não fecha. Tivemos aposentadorias muito precoces. Pessoas que ainda podiam permanecer na frente de trabalho preferiram o chamado “ócio com dignidade”. Se as coisas continuarem como estão, precisão desistir do ócio ou conviver com a indignidade. Pois proventos e pensões não cabem no PIB brasileiro.

É uma questão atuarial, menos do que jurídica ou política. Ninguém quer tirar direito adquirido a ninguém. Só que a conta não fecha. O que fazer?

Mas há outras questões também sérias. Como disciplinar o Estado brasileiro, que conta com 6 mil municípios, dos quais muitos não têm condições de subsistência autônoma? Criar município é fácil, pois só se consulta a população interessada na autonomia. E depois? Viver do Fundo de Participação? Isso é falacioso. É preciso ter coragem de rever a sistemática. Se não há condições de arrecadação suficiente para a manutenção dos serviços essenciais, é pensar em voltar a ser distrito. Garanto que muitos prefeitos não se oporiam, eis que ameaçados constantemente de improbidade e outros epítetos, seja pelo Tribunal de Contas, seja pelo Ministério Público ou defensoria, sempre atentos aos direitos e muitos próximos ao Poder Judiciário.

O sistema tributário precisa ser revisto para que a União seja a mera aliança entre as entidades federadas, desnecessário o carreamento de recursos que penalizam Estados membros e Municípios. Se o constituinte quis fazer do Município uma parte da Federação, é preciso conferir dignidade para que a condição de ente federado tenha lugar e consequência.

O sistema judiciário também precisa de revisão. Não pode dar certo um País que tem mais faculdades de Direito, sozinho, do que a soma de todas as demais existentes no restante do planeta. A judicialização da vida brasileira é um custo muito dispendioso e já provou que não dá certo. Além de afugentar o capital externo, temeroso dos passivos trabalhistas e judiciais embutidos nas empresas brasileiras.

Só depois disso é que se poderá pensar no governo que vier. Vamos refletir em termos de Brasil, não conforme as próximas eleições. Hoje os prognósticos são sombrios. Se não houver comprometimento efetivo com a verdade, mais a vontade inabalável de fazer o Brasil do discurso coincidir com o Brasil real, o amanhã poderá ser nefasto. E o risco que todos corremos é o de que é tão célere a passagem do tempo, que logo mais o amanhã será ontem

Fonte: Correio Popular | Data: 21/07/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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