Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Francisco, o destemido

Depois de acenar para os excluídos, invisíveis para o tradicionalismo, o Papa Francisco exorcizou a pedofilia, promoveu o ecumenismo e reatou os laços entre USA e Cuba. Mas continua a sua revolução corajosa, a enfrentar o anacronismo que fez fugir da Igreja Católica uma legião de desalentados.
Atacou a Cúria Romana, estrutura hierárquica e humana já contaminada como as demais instituições da miserável criatura prepotente e arrogante que é o homem. Não só “pôs o dedo na ferida”, mas lancetou o tumor e atingiu o seu cerne, mencionando os quinze males que acometem a administração da Igreja.

É bom lembrar a todos os cristãos, de que essas doenças podem atingir qualquer ser humano. Por isso, é preciso estar vigilante. Quais são elas?
Recapitulemos a lição pontifícia: 1. Sentir-se autossuficiente, não fazendo autocrítica, não se atualizando e não tentando melhorar; 2. Trabalhar demais sem repouso; 3. Perder a sensibilidade ‘que nos faz chorar com os que choram‘; 4. Limitar a liberdade do Espírito Santo devido ao excesso de planejamento; 5. Trabalhar sem coordenação, como ‘uma orquestra que só produz ruído‘; 6. “Alzheimer espiritual”, que atinge os que se esqueceram de seu encontro com o Senhor; 7. Fazer da aparência e dos títulos o principal objetivo da vida; 8. “Esquizofrenia existencial”: muitas vezes afeta os que trocam o serviço pastoral pela burocracia; 9. Praticar o “terrorismo da fofoca”, falando pelas costas; 10. Cortejar os superiores e honrar pessoas que não são Deus, esperando por sua benevolência; 11. Por ciúmes ou astúcia, ficar contente com a queda de alguém, em lugar de ajudá-lo; 12. Ter um “rosto fúnebre”, muitas vezes sintoma de medo. O apóstolo deve transmitir alegria por onde passa; 13. Tentar preencher o vazio existencial do coração com bens materiais; 14. Formar ‘círculos fechados‘ que buscam ser mais fortes do que o todo; 15. Querer mostrar-se mais capaz do que os outros, por meio de calúnia ou difamação.

Honestamente falando, quem é que já não cometeu algum desses pecados ou apresenta sintoma de alguma dessas enfermidades? Francisco é destemido, conquista a ira dos que preferem o clima das catacumbas e desenham um Deus vingativo, rancoroso, triste e perverso, assim como o carcomido coração deles.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Celebrar São Paulo

Celebrar São Paulo é celebrar a coragem. Desde os primeiros que venceram o desafio de escalar a Serra do Mar, a grande muralha verde que separava a orla do Planalto, até os sobreviventes do século XXI.

Viver em São Paulo exige destemor e audácia. Destemor para enfrentar um trânsito caótico, de uma cidade que se viu mutilada para servir ao ideal automobilístico e deixou desaparecer seus cursos d‘água, suas várzeas, sua flora e sua fauna. Audácia para permanecer nesta insensata concentração de milhões de pessoas, tantas delas ainda sem inclusão no mercado e no banquete capitalista.

Celebrar São Paulo é ter orgulho de sua gente. Dos nativos aos adventícios. De José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, a Bartolomeu Bueno, que não quis ser rei, Fernão Dias Paes, até chegar a Airton Senna e aos anônimos motociclistas mortos no trânsito e transformados em cifras nefastas da contabilidade da morte.

Celebrar São Paulo é ter saudades da garoa, das praças limpas, onde não havia o atestado presente da miséria humana, da polidez e elegância discreta de seu povo, de civilidade e boa educação de berço. Tudo tão em falta no varejo da mediocridade. São Paulo, onde tudo é imenso, a superar todas as previsões e que um dia recebeu a ordem – São Paulo tem de parar – no polo oposto da arrogância do São Paulo não pode parar.

São Paulo não obedece às ordens, nem ao planejamento, pois o seu povo continua bandeirante. Apenas com a multiplicidade de bandeiras, cada qual com seu dístico, sem convergência e sem rumo.

A Justiça continua a funcionar em São Paulo, a despeito da insuficiência crônica de orçamento, atenta às insuperáveis dificuldades postas ao Poder Público numa era de incertezas. A despeito da falta d‘água, da carência de energia elétrica, da imprevisibilidade das manifestações e da generalizada insatisfação que é o sintoma de uma era de abundância de preocupações.

O Tribunal de Justiça de São Paulo, na antevisão dos dias difíceis que viriam, estimulou o home office, os julgamentos virtuais, o resgate da autoestima de todos os que fazem o Judiciário caminhar, ainda que a enfrentar intempéries.

Para amenizar o sofrimento de quem vivencia momentos preocupantes desta metrópole, armou-se da poesia de Paulo Bomfim, o mais emblemático dentre os poetas paulistas e paulistanos, a nos recordar – de forma contínua – que esta insólita metrópole precisa de um remédio urgente: o amor de quem nela vive e de quem não tem o privilégio e o surpreendente milagre de nela conseguir sobreviver.

Feliz aniversário, cidade de São Paulo!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Ateu Praticante?

A era dos direitos garante a todos crer ou não crer. Mas uma das tendências constatadas nos Estados Unidos é o crescimento dos agnósticos. Em Nashville, capital do Tennessee, existe um encontro denominado “Assembleia dos Domingos”, uma espécie de fórum de ateus. Em 2007, eram 15% dos americanos que se diziam não professar religião alguma e não acreditar em nada além da finitude existencial. Já em 2012, são 20% os ateus.

Alguns ateus famosos se pronunciam: Brad Pitt e Mark Zuckerberg, criador do Facebook, por exemplo. Há conferência anual para os não-crentes: Skepticons – encontro dos céticos e “paradas do orgulho ateu”. O cientista P.Z.Myers, da Universidade de Minnesota, escreveu “O ateu feliz”, um best-seller, acrescentando sua contribuição ao crescente número de livros de divulgação do ateísmo.

Isso acontece nos Estados Unidos, nação que surgiu do fervor puritano dos quakers. Seria um paradoxo? Alguns acreditam que a fragilidade do sentimento religioso deriva da própria política. O ateísmo seria uma reação aos anos em que os religiosos perfilharam o lado errado da História: guerras, machismo, homofobia e escravidão. O fanatismo religioso levaria as pessoas mais sensíveis a uma ojeriza à confissão que não hesita em sustentar a exclusão daqueles que não rezam a mesma cartilha. Um contrassenso, pois o Cristianismo prega a igualdade: todos os seres humanos são irmãos de Cristo e filhos de Deus Pai.

Por enquanto, os ianques continuam muito crentes. Foi ali que em 1952 o presidente Harry Truman criou o Dia Nacional de Oração, celebrado até hoje em 1º de maio. Em 1954, acrescentou-se ao juramento à bandeira a expressão “uma nação sob Deus”. Em 1956, na presidência Dwight Eisenhower, acrescentou-se “In God we trust” nas cédulas do dólar.

Terra de contrastes, ali também se desenvolve esse afã ateísta que tenta subtrair os crentes à prática religiosa e à confissão, para que assumam postura crítica e tentem convencer o mundo inteiro de que é melhor não crer. Todavia, a crença é algo invencível. Não é a primeira tentativa, nem será a última. Leio a biografia de Getúlio, de Lira Neto e vejo que o ditador descrente, ao perder seu caçula, exclamou: “Custa-me a crer que a generosidade, a gentileza, a inteligência de Getulinho serão enterradas juntamente com seu corpo!”. É a dúvida que acomete até os mais descrentes dentre os ateus praticantes.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Um país sem excelências…

…nem mordomias! É o livro de Cláudia Wallin, com que o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, deputado Samuel Moreira, me presenteou. Logo na capa, a epígrafe instigante: “Na Suécia, os políticos ganham pouco, andam de ônibus e bicicleta, cozinham sua comida, lavam e passam suas roupas e são tratados como “você”. No Brasil…”.

A capa do livro estampa a foto de Carld Bildt, ministro das Relações Exteriores da Suécia e ex-primeiro-ministro,de bicicleta, a caminho de seu gabinete. O prefácio é de Luiz Fernando Emediato: “Viva a Suécia, Pobre Brasil!”. Ele começa por analisar a anomalia da República brasileira: “A incipiente democracia brasileira vive uma situação sui generis. Ser político e alto servidor público transformou-se numa profissão que confere à pessoa enormes confortos e mordomias e altíssimos lucros. Empresários podem ser ministros, ou ministros ou altos secretários se transformam em banqueiros, depois de seus controvertidos mandatos. Deputados e senadores costumam ser empresários ou delegados de corporações empresariais ou agrárias”.

O Reino da Suécia teve origem nos idos de 1200 da era cristã. O Rei Gustav é casado com Silvia, que estudou no Colégio Porto Seguro e quando viaja, usa avião de carreira e carrega sua própria bagagem de mão. As pessoas já se esqueceram de que ela dirigiu seu carro para ir à maternidade prestes a dar à luz à Princesa Vitória, hoje já casada. Pois é nesse país que o exercício da política é conduzido predominantemente com integridade, ausência de privilégios anacrônicos e respeito ao dinheiro dos impostos do cidadão, diz a autora. Um país onde os deputados recebem cerca de 50% a mais do que ganha, em média, um professor primário. Pois “os suecos querem mais transparência e menos políticos desconectados da realidade das ruas“. E o senso de autocrítica do poder persiste, como disse o então 1º Ministro, Göran Persson: “Não lidero o governo mais brilhante do mundo. O gabinete de ministros não é nenhum modelo de elite intelectual, e particularmente bonitos nós também não somos”. Mas têm autocrítica, o que parece faltar em alguns outros países. Que tal aprender alguma coisa com os suecos?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Xô, depressão!

A vida contemporânea oferece desafios que os antigos talvez não vivenciassem. Um deles é enfrentar os males da mente. A depressão acomete quase 7% da população mundial ou 400 milhões de pessoas. O resultado é catastrófico em vários níveis: incapacita o deprimido, atormenta sua família e subtrai à economia enorme energia e talento das pessoas.

Em 2010, os custos diretos e indiretos da depressão foram estimados em 800 bilhões de dólares, mais de 2 trilhões de reais. Custo que já parece exagerado, mas que vai dobrar nos próximos 20 anos. O deprimido perde oito dias de trabalho por mês, enquanto os “saudáveis”, quando perdem dia de serviço, não chega a dois.

Há muito preconceito contra a depressão, por alguns considerada uma fórmula de escapar às responsabilidades e não uma enfermidade. Mas depressão é doença. Atinge tanto homens como mulheres, mas há uma incidência preponderante na mulher em idade fértil. É algo com vinculações genéticas, pois filhos de pessoas deprimidas tendem a apresentar mais depressão do que os outros. Uma grande percentagem tem medo de recaída e quase todos afirmam que, nas crises, se esforçam para que os outros não percebam o real estado d’alma.

A depressão é porta de entrada para outros males da mente. Hoje a vida impõe ritmos desumanos, de forma a multiplicar os sintomas de incompatibilidade entre a higidez mental e a situação de uma legião de pessoas. Um dado já comprovado é o de que o morador de rua apresenta um quadro mental de anomalia. Não é verdade que um ser humano em plena saúde prefira o desconforto e a insegurança das vias públicas ao abrigo do lar.

Multiplicam-se também as várias síndromes, dentre as quais a do pânico está a conquistar muitas criaturas. Tudo isso precisa ser levado a sério, pois numa República em que aumentam os aposentados e os que se encontram em licença-saúde, assistir à proliferação de patologias da consciência é tema que deve interessar a todos, principalmente aqueles que se preocupam com o futuro de uma República enredada em assistência deficiente à saúde, refém de uma Previdência atuarialmente desajustada e onde prepondera a convicção de que a obrigação do Estado é suprir todas as necessidades, a despeito da insuficiência crônica de recursos financeiros. De qualquer forma, lutemos contra a depressão combatendo suas causas. Xô, depressão! Vade retro!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Água ou álcool?

Adverte o engenheiro Arlindo Falco Júnior (FSP de 17.12.14, p.A3) sobre um fato que a população desconhece. Somente 10% da água consumida é para uso direto das pessoas. 20% vão para consumo industrial e 70% para a agricultura. Dir-se-á que tudo, no final, converge para atender a necessidades humanas. Mas é preciso cotejar o custo-benefício desse gasto.

São Paulo tem 4,5 milhões de hectares plantados com cana de açúcar. Quase 20% do território paulista. Fenômeno constatável a olho nu. Tanto que já escrevi sobre “cana & cana”, pois a separar um canavial de outro existe um presídio. Para produzir essa cana, foi necessário despender 78,2 bilhões de metros cúbicos de água, enquanto a chuva foi de 50,9 bilhões. Houve um déficit de 27,3 bilhões de metros cúbicos de água. Como faltou chuva, extraiu-se água do solo, do lençol freático, da umidade do ar, dos rios e cursos d’água.

Ainda se usa a nefasta queima da palha para colher 780 mil hectares do plantio. Método que, segundo Arlindo Falco, “exaure a umidade do solo, depredando os recursos hídricos”. Considerado também o consumo de água nas usinas, chega-se a uma pegada hídrica de 2.100 litros para produzir um litro de etanol. Resultado: quando alguém abastece o carro com 40 litros de álcool por semana, utilizou no transporte 84,3 mil litros de água. O que é mais vital para a subsistência da vida: o álcool ou a água?

Muitos diagnósticos foram feitos e, como sempre, a imprevidência é a regra num Brasil de “malfeitos”. Um continente com tanto sol, poderia investir mais na energia solar. Uma costa de 8,5 mil quilômetros poderia pensar em energia das marés e em matriz energética eólica.

Mas o imediatismo e a limitação intelectual enxergam apenas o lucro rápido. Vamos continuar a fazer mais do mesmo. Continuemos a acabar com as poucas matas nativas, enterrar os cursos d’água. Dizimar a mata ciliar. Poluir os rios. Preservemos a “coivara”, o arcaico e criminoso método da queimada.
Quando estivermos com sede, bebamos álcool. Ele serve também para higienizar, já que os banhos com água se tornarão a cada dia mais raros. Burra e irresponsável humanidade!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Acordem, educadores!

Um dos raros consensos no Brasil do dissenso é a falência da educação. Por mais que se destine verba considerável para a formação das atuais e futuras gerações, a República parece claudicar em todos os níveis. O retrocesso é evidente. Há algumas décadas, a escola pública era tão boa que os menos aplicados procuravam a escola particular. Hoje, só fica no ensino público aquele cujos responsáveis não conseguem arcar com os crescentes custos de uma escola considerada boa.

O fenômeno é muito mais grave do que possa parecer. Não é apenas falta de metas e objetivos. O que visa uma boa escola? Fazer o aluno decorar informações e responder como papagaio às indagações? Ou uma educação integral cuidaria de formar pessoas felizes e capazes de um desempenho ideal em sua existência, tanto no aspecto emocional, familiar, social e profissional?

A escola é maçante. O aluno não gosta dela. Os professores estão desanimados. Já não têm paixão, ao menos em sua maioria, como eram idealistas e entusiastas os educadores de outrora. Pior ainda, os pais não se interessam pela educação de seus filhos. Parecem acreditar que o governo é que deve zelar pelo seu bom comportamento e pelo seu sucesso. Mas é no lar, na mãe educadora, no pai disciplinador, que tudo começa.

A Coreia passou por conflitos sérios e deu a volta por cima porque levou a sério um projeto consistente de revolução educacional. A China também. E tantos outros países.

Não é falta de dinheiro. É falta de projeto. É ausência de originalidade. No entanto, há modelos que poderiam ser copiados, como o da Universidade Minerva, em São Francisco. Ela não tem salas de aula, nem biblioteca. As aulas são on-line, por meio de plataforma exclusiva, com horário marcado e professor em tempo real. Professor que não é um replicador de textos, mas um animador, um coordenador dos debates. Ao menos duas vezes por encontro, os alunos têm de expor suas ideias.

O neurocientista Stephen Kosslyn, um dos diretores, resume o objetivo do projeto: “A ideia é desenvolver a capacidade de pensar criativamente, criticamente e de se comunicar de maneira efetiva”. Enquanto isso, temos muitos analfabetos funcionais recebendo diploma nas várias graduações universitárias. Que tal acordar para as urgências do mundo?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.