Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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Calamitosa inconsciência

Mais de um Estado já assumiu o estado de calamidade pública, mercê de administrações desastrosas e maltrato ao dinheiro do povo. O Brasil precisa acordar se quiser acertar o passo com o desenvolvimento. Neste ano, o Banco Mundial detectou que passamos da 111ª para a 116ª posição em todos os indicadores de eficiência apurados em 189 países. É que somos extremamente burocratizados. O direito, que deveria servir de instrumento de solução de problemas, prefere institucionalizá-los. A interpretação oscila entre a negativa e o percurso labiríntico de senões para impedir que se alcance o resultado desejável. Há boas iniciativas, mas falta uma instância de coordenação que pudesse coletar experiências e concatenar trabalho conjunto.

A educação básica é a maior urgência para o Brasil. Levada a sério, resolveria todos os nossos problemas. A política seria diferente se a nossa população fosse esclarecida. A saúde melhoraria, pois, o cidadão bem formado preveniria males que são produzidos pela ignorância. A violência se resumiria às patologias e não seria endêmica. A economia não patinaria. Pessoas capacitadas encontram alternativas e enxergam mais longe do que as desprovidas de saber. Enfim, tudo tem remédio se a educação atinge suas finalidades, explicitamente previstas na Constituição: fazer com que as potencialidades do ser humano se desenvolvam à plenitude, qualificar para o trabalho e treinar a prática da cidadania.

Educação que é direito de todos e dever do Estado, da família e da sociedade. O Estado destina um terço de seu orçamento à rede pública. Ainda insuficiente, ante o crescimento da demanda, tudo agravada em tempos de crise. Mas a família e a sociedade podem fazer mais. A começar de uma aproximação afetiva, carinhosa e verdadeiramente interessada, junto às escolas públicas. Quando a família se interessa pela escola do filho, tudo vai melhor. Somos todos responsáveis. Talvez nem todos concordem, mas pior do que a calamidade da crise econômica é a calamitosa inconsciência em que grande parte de pessoas que poderiam fazer a diferença mergulhou e dela não parece querer sair.


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Todos pela educação

Venho repetindo, qual mantra, que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade. O apelo destinado àqueles que ainda não participam desse projeto de Nação é para que se conscientizem de que sem educação o Brasil não se desenvolverá. Educação consistente, bem planejada e melhor executada.

Já existem passos importantes que a sociedade civil ofereceu à causa. Um deles é o movimento “Todos pela Educação”, fundado em 2006, cuja missão é contribuir para que até 2022, ano do bicentenário da Independência, o País garanta Educação Básica de qualidade para todas as crianças e jovens. Congrega pessoas de bem e de boa-fé. Apartidário, plural, despertou o interesse daqueles que podem e sabem fazer a diferença.

Produz conhecimento, fomenta e mobiliza. Desenvolve três áreas que funcionam de maneira interligada e complementar, baseada em cinco metas, cinco bandeiras e cinco atitudes. Mencionemos brevemente o conteúdo das cinco atitudes, das cinco metas e das cinco bandeiras.

As cinco atitudes são: 1) valorizar os professores, a aprendizagem e o conhecimento; 2) promover as habilidades importantes para a vida e para a escola; 3) colocar a educação escolar no dia a dia; 4) apoiar o projeto de vida e o protagonismo dos alunos; 5) ampliar o repertório cultural e esportivo das crianças e jovens.

As cinco bandeiras: a) melhoria da formação e carreira do professor; 2) definição dos direitos de aprendizagem; 3) uso pedagógico das avaliações; 4) ampliação da oferta de Educação Integral; 5) aperfeiçoamento da governança e gestão.

E as cinco metas: 1) toda criança e jovem de 4 a 17 anos deve estar na escola; 2) toda criança tem de estar plenamente alfabetizada até os 8 anos; 3) todo aluno precisa estar com aprendizado adequado ao seu ano; 4) todo jovem de 19 anos tem de estar com o Ensino Médio concluído; 5) investimento em Educação ampliado e bem gerido.

O importante do “Todos Pela Educação” é que todos, sem exceção, podem colaborar com essa verdadeira cruzada que, bem-sucedida, mudará o destino das crianças e, ao obter esse resultado, mudará os destinos da Nação. O Brasil precisa do trabalho, do esforço, do sacrifício e, principalmente, do carinho de todos.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 27/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 


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Ainda existe poesia

Antigamente as crianças aprendiam a declamar. Não havia apresentação escolar ou mesmo festa de família em que alguém não fosse chamado a recitar poesias. Eram comuns até mesmo as grandes declamadoras, matronas que mereciam aplausos em solenidades e que encantavam as plateias com sua verve, impostação, capacidade mnemônica e talento.

Poesias havia que arrancavam lágrimas. Outras produziam risos. Os poemas líricos e idílicos provocavam suspiros. Em síntese, a poesia habitava todos os lares. Era um sinal de distinção saber declamar. E não eram apenas as meninas. Jovens rapazes também se esmeravam ao decorar peças de bastante dificuldade e que reproduziam na inteireza, sem titubear, sem hesitar, sem olvidar qualquer parte do texto.

Naquele tempo não havia televisão, nem internet, nem redes sociais. Foram elas que sepultaram a poesia? Não. Por incrível que pareça, a poesia não morreu. Ela continua a existir. Primeiro, porque a beleza ainda tem lugar no coração dos homens. Segundo, porque poesia é um jorro incessante e insuscetível de paralisação, desde que surja numa alma sensível. Se possível, apaixonada.

É saudável constatar que em alguns nichos ela continua presente. Clubes de poesia, Casas de Poetas, Movimentos poéticos ainda congregam abnegados que escrevem e declamam e publicam. E não se recusam a prestigiar espaços onde a poesia é bem recebida e pode se abrigar.

Como seria bom que todos os pais incentivassem seus filhos a ler poesia, a declamar poesia e a escrever poesia.Como seria maravilhoso se todos os professores se empenhassem na disseminação de uma cultura poética, a celebrar os grandes nomes da poesia universal, que merecem cultivo, reverência e honras. E que se cuidasse de semear a imaginação para que novos poetas germinassem desse encontro mágico entre a poesia e seu amante.

O mundo ganharia colorido, seria mais terno e amorável, se a ira cedesse o seu lugar para uma poesia. Romântica, Épica, Folclórica, Histórica, Política, Étnica. Ou poesia sem qualificação. Mera poesia. Poesia mesmo. O mundo precisa de mais poesia e de menos incompreensão.

De mais amor, menos violência. De esperança, não de desalento. A poesia é remédio para o mal-estar civilizatório que angustia a todos e que dá a sensação de que a humanidade regrediu e menospreza o grau civilizatório que tanto demorou a conquistar.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 


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Lâmpada mágica ao alcance de todos

Todos conhecem a estória de Aladim e sua lâmpada mágica, a atender desejos que estão na inconsciência coletiva de todos os tempos. Há inúmeras versões dessa fábula que nos transporta à concretização de sonhos utópicos ou considerados impossíveis. Mas é bom lembrar que nem sempre tais anseios estão efetivamente distanciados da realidade. Existem algumas “lâmpadas mágicas” acessíveis, disponíveis e ao alcance de quem tiver vontade de realizar projetos aparentemente difíceis.

Uma delas é o aprendizado do inglês. Pesquisas mundiais mostram que a proficiência em inglês significa 57% mais possibilidade daquele bom emprego, disputado por muitos e alcançado por poucos. Na Índia, os cursos de inglês atingem grupos de um milhão de pessoas! Para o brasileiro que está a estudar, nos três níveis de ensino, a questão de escala é muito séria. Aproximamo-nos de 50 milhões de estudantes. A Secretaria Estadual de Educação paulista está empenhada em disponibilizar o inglês para toda a sua rede, inclusive para os profissionais de ensino, pois há uma profusão de métodos exitosos para facilitar o ensino e o aprendizado da língua de Shakespeare. Mas também o idioma de Faulner, de Whitman, de Poe, de Bob Dylan, do Sting, da Madonna, de Elton John e outros stars bem conhecidos pela juventude brasileira.

Cumpre investir em escala, multiplicando as fórmulas de aprendizado, inclusive com a intensificação do uso do EAD – Ensino à Distância. Favorecer a divulgação do idioma através de projeção de filmes, concursos de redação, de poesia e de música, intensificar a conversação, e também coibir o “stop and go”, ou seja, o começa e para, tão comum para quem inicia um percurso rumo ao domínio de outra língua. O importante é que na rota de construção de um Brasil mais rico e mais integrado ao mundo civilizado, o inglês é um companheiro inseparável das novas gerações. É a chave que abre o mundo a esplêndidas oportunidades de um futuro prazeroso. É nossa “lâmpada de Aladim” movida a entusiasmo, esforço e vontade firme.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 24/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Horizonte infinito

A educação é a principal questão brasileira. Se enfrentada com clareza, coragem e objetividade, a maior parte dos problemas que afligem a Nação teria sido solucionada. Educação integral reduz a violência. Alguém civilizado não se torna santo, mas ao menos desenvolve freios inibitórios que geram convívio formalmente polido. A redução da violência retrairia o ritmo crescente na edificação de presídios e de estabelecimentos destinados à recuperação de menores infratores.

Educação melhora a saúde. Quem estiver preparado saberá prevenir males evitáveis, cuidará do corpo e da mente. Não serão necessários tantos hospitais, unidades de atendimento, pronto-socorros e similares.

O trânsito flui melhor com pessoas educadas. Não estou dizendo “escolarizadas”, mas formadas em sensatez, prudência e sensibilidade. O meio ambiente ganhará parceiros conscientes. O território minado da política partidária, hoje tão desacreditado, ganhará consistência. Uma boa educação cuidará de oferecer à nacionalidade uma cidadania pronta a assumir seus deveres e, portanto, muito mais apta a participar da missão de edificar a Pátria justa, fraterna e solidária prometida pelo constituinte de 1988.

Educar no século XXI é muito mais do que propiciar vagas em escolas. A universalização no acesso à educação formal praticamente foi atingida. Todavia, resta enorme caminho a percorrer, até se faça da escola – de todas as escolas – o ambiente de aprendizado de vida.

Não basta – embora necessário – transmitir conhecimento à infância e à juventude. A cultura acumulada em milhões de anos da História nunca esteve tão disponível e acessível. O notável e surpreendente avanço das tecnologias da comunicação e informação tornaram o mundo um objeto a ser apropriado por todo aquele que tiver interesse, curiosidade intelectual e acesso a qualquer dessas bugigangas eletrônicas disponíveis: Iphone, tablet, computador, e o que mais vier.

Educar significa habilitar o ser educando a se servir do acervo de informações de maneira a tornar sua vida prazerosa, além de propiciar a ele o sustento próprio e daqueles sob sua dependência.

Quem se devota à educação o faz por amor, senão a tarefa é insuportável. Mas a paixão pelo ensino implica em sacrifícios. É preciso estar alerta para as profundas mutações por que passa o mundo. Em todos os setores, mas, principalmente, no âmbito dos valores.

A circuitaria neuronal das novas gerações é digital, enquanto aquela da maior parte dos profissionais da educação ainda continua analógica. Isso cria um descompasso que só pode ser superado com enorme esforço.

Algo que o educador tem de ter em mente é o de que não se pode prever como será a escola daqui a 20 anos. Só se pode garantir que não será como a escola de hoje.

Grande número de profissões que ainda constam do cardápio oferecido ao alunado está em processo de extinção. Estamos formando profissionais para misteres que ainda sequer têm nome. Daí o incremento em alavancar competências não apenas cognitivas, mas também socioemocionais. Quem se conhece bem pode avaliar as condições ideais para se relacionar com o próximo, intensificar as relações com a natureza e enfrentar a questão da transcendência. É preciso encontrar respostas para o inesperado, para os desafios e para a incontornável necessidade de mudar de rumo quando o panorama o exigir.

Se as incertezas estão em cada curva, o convite a encará-las e superar as dificuldades é estimulante. Vive-se uma era cujo signo é a velocidade e a obsolescência. Ambas nos atropelam. Mas sobreviver com esperança é o que nos mantêm animados e a caminho de um horizonte sedutor e infinito.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 18/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Tem de ser ousado

A reforma política é a mais urgente deste País. Não é possível contar com quase quarenta partidos, todos eles dependendo do Fundo Partidário, num momento em que há milhões de desempregados e outros milhões que já deixaram de procurar emprego. Acomodaram-se em casa de parentes – o fenômeno da “volta ao ninho”: filhos separados retornam ao convívio dos pais. Ou passaram para a informalidade.

Segundo consta, o Fundo Partidário era de R$ 300 milhões enquanto as empresas podiam doar. Passou a R$ 900 milhões neste período em que se vedou a contribuição empresarial, pois ela teria alimentado propinodutos e outros ilícitos. Para o ano que vem, pensa-se em algo como R$ 2 bilhões e 700 milhões. O Brasil aguenta esse custeio?

Além da cláusula de barreira, da vedação à reeleição, da adoção do voto distrital misto, seria muito interessante se permitisse a eleição avulsa. Aquela que dispensasse filiação a partido político. Mas essa ideia é uma utopia. A nossa política não permitiria a participação de “outsiders”. Outras ideias podem ser postas em prática e acredito que representariam economia real.

As eleições representam um dispêndio considerável. Convocação de inúmeras pessoas – alguns milhões – para os serviços de preparação e para o funcionamento das zonas eleitorais no dia reservado à coleta da opinião do eleitorado. É preciso transportar e alimentar estes que prestam serviço gratuito. Os dias seguintes são de folga para quem trabalhou. Como não há almoço grátis, alguém paga a conta. Como é o povo que paga a conta do “Programa Eleitoral Gratuito”. Gratuito para quem, cara pálida? As concessionárias de TV e rádio têm custos. É o governo que paga ou deixa de ganhar, abatendo da tributação que recai sobre essa atividade lucrativa.

Seria interessante converter o voto obrigatório em facultativo. De certa forma, ele já é. Qual o número de votos em branco e nulos somados às abstenções? Basta somar para verificar a representatividade de quem não quis opinar. Além disso, o voto poderia ser exercido pela internet, sem necessidade de locomoção do eleitor até a zona eleitoral. Já existe tecnologia suficiente. E se nós acreditamos na presunção da boa-fé, como o ordenamento prevê, por que desconfiar que haveria fraude?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Quem escapará da surdez?

Em boa hora se deliberou multar quem produz som excessivo em seu veículo, fenômeno quase corriqueiro nesta era de incivilidade crescente. O som subiu de tom nos últimos tempos. Em todos os lugares. Até em casamentos requintados, chega a hora do “bate-estaca” e que eu chamo de “despedida dos idosos”. Ninguém consegue conversar e aquela percussão que reverbera no tórax deixa um desconforto atroz.

E o que dizer dos “pancadões”, em que o ruído seja a revolta da moral pelo que ali se pratica? O fato é que formaremos gerações de surdos diante da imprudência de se elevar o volume de tudo, como se os tímpanos fossem de metal ou qualquer outro material resistente.

A infância também sofre as consequências desse descaso. Em São Paulo, o programa “Psiu” praticamente sumiu. E é comum nas famílias e na escola, verificar que mais pessoas têm dificuldade de escutar direito. Essa dificuldade pode ser a de saber de onde vem um som, em decorar uma sequência de sons, em diferenciar sons parecidos, em lembrar instruções, em apreciar música, aprender outra língua e dificuldade em concentrar-se. Há quem demore para entender o que é dito e o que está escrito, compreender o que uma pessoa fala quando há outros sons simultâneos, ou a pessoa fala muito depressa ou existem outros falando por perto. Isso é sintoma de dificuldade de processamento auditivo. Precisa de tratamento.

Há dicas para pais e professores. Quando houver crianças com essas dificuldades, o correto é falar devagar e de forma clara, lendo e conversando com a criança, falando com o olhar nos seus olhos, acompanhando a fala com gestos, repetindo tantas vezes quantas for necessário, utilizar frases curtas, sempre que possível, escrever o que foi dito. Também é bom procurar falar com a criança em lugares com pouco ruído. Verificar se ela entendeu, pedindo para ela repetir. Realizar pausas para evitar o cansaço.

Há muita gente que precisa de fonoaudiólogo ou médico especialista. Mas para todas as pessoas, o bom mesmo é ficar livre de carros particulares que parecem carros de som e fugir dos “pancadões”, que além de deixar as pessoas surdas, fazem-nas descrer do estágio civilizatório.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 17/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.