Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Chega de mentira!

A era da “pós verdade” é, de fato, o reino da mentira. Mente-se descaradamente e em todos os espaços. Perdeu-se a noção do pecado original que reside na falsidade. Verdade, ainda que nos faça sofrer.

A veiculação de inverdades ganhou impulso extraordinário nas redes sociais. Elas recebem todo o tipo de informação. Prioritariamente informação falsa. Pois a mentira vem sempre revestida de sensacionalismo. Causa espanto! Gera comentários! Repercute.

A disseminação de mentiras interfere em tudo. Desde as eleições norte-americanas, até a vida pessoal de indivíduos desimportantes. A reiteração da mentira em doses cavalares resulta em dúvida e pode acabar na sensação de verdade. O perigo é que não se retifica a falsidade. Ela é ratificada à força de repetição. Prevalece como se fora um fato incontestável.

A proliferação de notícias falsas na internet, já universalmente conhecidas como “fake news”, angustia a lucidez que sobrevive. Com sacrifício, porque mentir é mais fá-cil. A imaginação criadora do mentiroso está sempre a postos para disseminar maledicência.

Uma réstia de esperança é a promessa do Wiki-tribune, de ajudar a reverter a situação de predomínio da mentira. Foi criado pelo fundador da Wikipédia, Jimmy Wales e é um site colaborativo a ser lançado com o intuito de obstar a difusão cada vez maior de notícias falsas. O plano é reunir jornalistas e uma comunidade de voluntários para produzir reportagens, com acesso gratuito e sem propaganda.

Só que isso dependerá da boa vontade dos leitores para se financiar. De acordo com Wales, a veracidade das reportagens poderá ser facilmente constatada porque será publicado o material usado como fonte.

Se vai funcionar, não se sabe. O que se sabe é que a humanidade fica mais pobre e menos civilizada se passa a acreditar em tudo o que se espalha nas redes, cuja dependência está em todos os lares, todos os espaços, todas as famílias.

Vamos acreditar que a verdade prevaleça e, como a luz solar, ganhe adeptos, que também precisarão repudiar a mentira, sob pena de confirmar, com sua omissão, o vaticínio de que o projeto humano foi um fracasso, do qual o próprio Criador se arrepende.

Fonte: Correio Popular| Data: 26/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.


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Um litro a menos

Uma interessante campanha está no ar: aquela que propõe a cada ser humano reduza o seu consumo de água em um litro por dia. As pessoas estão convidadas a economizar aquele litro que não fará falta se deixar de ser consumido.

É algo que todos podem fazer. Mais importante até do que a economia global, é propiciar uma reflexão essencial. Há países que já sofrem a falta d’água, o líquido mais precioso no Século XXI e nos vindouros, se eles existirem na História da Humanidade. Sim, porque o Planeta poderá continuar durante milhões de anos. Mas prescindirá da espécie humana para tanto.

Ninguém parou para pensar que a captação da água tem custo, a filtragem e tratamento também. A distribuição é cara. O desperdício é dispendioso. Podemos evitar um pouco essa gastança de quem se acostumou a pensar que água é um bem infinito?

O pequeno gesto de cada um pode ser a diferença de que o mundo se ressente. Ou seja, basta abrir um pouco menos o chuveiro para o banho e terminar um minuto antes. Ao escovar os dentes, mantenha a torneira fechada. Ao lavar as mãos, não precisa lavar também o sabonete. Ensaboe suas mãos com a torneira fechada.

Ao molhar as plantas, use apenas o necessário. Não é preciso lavar a calçada. A chuva pode fazer isso por nós. A limpeza dos pisos pode ser feita em espaços maiores. Um pano molhado pode mantê-los asseados.

As crianças já são bastante sensíveis a esses apelos que nem sempre comovem os que têm sido inimigos da natureza. Airton Senna já reconhecia que se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que devemos começar. E a Declaração Universal dos Direitos da Água, editada pela ONU em 1992, explicitou que a água é parte do patrimônio do planeta, pelo qual cada indivíduo é responsável.

Cada brasileiro consome em média 120 litros de água por dia. Dá para viver com 119. Por sinal que, sem alimento, uma pessoa pode resistir até quarenta dias. Mas sem água, ela sobrevive apenas por setenta e duas horas.

Não custa nada tentar reduzir esse gasto e também incentivar familiares, amigos e o seu entorno de influência a fazerem o mesmo. O planeta agradece. Por sinal que a crise hídrica de 2014 pode voltar. Não se fabrica água. O estoque terrestre é sempre o mesmo e, portanto, finito.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 22/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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De perda em perda

Lamentável que o Brasil registre contínuos retrocessos na tutela ambiental, mostrando que a opção ecológica do artigo 225 da Constituição da República foi retórica marqueteira e não opção consciente.

Passa praticamente na surdina o fato de se reduzir área em uma floresta e em dois Parques Nacionais, com destinação incompatível com a preservação.

A Floresta Nacional Jamanxim perde 486 mil hectares, ou seja, 37% de seu total. O Parque Nacional de Jamanxim, também no Pará, perde 11,7% de sua área, ou 101 mil hectares e o Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, perde 10,4 mil hectares, ou 21,5% de sua destinação. É óbvio que se fala em “recategorização”, mas o interesse é proteger a mineração, que avança contra a floresta e que vai produzindo a sequência de resultados nefastos, como tem acontecido desde a exploração setecentista/oitocentista nas Minas Gerais.

A mídia apurou que a Medida Provisória 756 incluiu na Área de Proteção Ambiental Jamanxim glebas reivindicadas por inúmeros infratores ambientais. 4.500 hectares foram transformados em pasto só no ano de 2015, por pessoas cuja identidade se esconde e que atuam com o que se convencionou chamar “laranja”. Se no Pará e em Santa Catarina medidas provisórias são editadas contra a natureza e atingem esse patrimônio da Nação de maneira explícita, continua no universo micro a destruição velada, perpetrada em todo o território nacional, que vê perder o seu verde e continua a produzir resíduo sólido em abundância.

Árvore derrubada, solo contaminado, água conspurcada, lixo amontoado. Triste destino de uma República que havia dado exemplo ao mundo quando erigiu em “titular de direitos”, aquele que ainda não nasceu.

O artigo 225 da Constituição da República foi considerado um dos mais belos dispositivos jurídicos editados no planeta. Só que a promessa não seria cumprida. Era um mero “faz de conta”, com a conivência de todos os que silenciam diante dos atentados inclementes perpetrados contra a natureza.

 

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 22/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Um apelo à consciência

O mundo parece acometido de evidente falta de juízo. Os paradoxos demonstram que a racionalidade foi embora. Às vezes não faz falta. O que falta é sentimento. Se o amor fosse mais estimulado, substituir por sua prática a razão não faria mal à sociedade.

Há debates infinitos sobre os mesmos assuntos que longe estão de merecer resposta clara, objetiva e eficaz. Prega-se o aborto, agora com a afirmação de que as vedações do Código Penal não teriam sido recepcionadas pela Constituição de 1988. Mas por que não se confere idêntico entusiasmo ao planejamento familiar, à adoção de crianças que permanecem na fila de espera e que não encontram um lar para se desenvolverem?

Critica-se o tratamento compulsório do dependente. Justifica-se o uso da droga como fuga à carência afetiva. O que se faz para impedir que esse mergulho definitivo ocorra? Prevalece um discurso de falência da educação, cujos índices nos aproximam da parte mais miserável do planeta. Mas o que se faz, no âmbito pessoal, para estimular a criança a aprender, para mostrar que sem escola tudo se tornará mais difícil e que a vida real não é a fantasia propagada pela mídia consumista, mas impõe sacrifício, esforço, empenho e responsabilidade?

Dispensa-se ao animal de estimação um carinho desproporcional àquele reservado à criança desprovida de lar. Nada contra o animal, tão mais carinhoso do que muitos humanos. Mas a vida merece cuidados e os semelhantes precisam de uma dose multiplicada de amor. Onde está a coerência com o discurso de quem apregoa fazer parte de uma civilização cristã e, para o agnosticismo ou ateísmo, integrar uma sociedade alicerçada sobre o princípio da dignidade da pessoa humana?

Não há quem não possa deixar o mundo melhor, mesmo que seja aquele mundinho que o destino ou nossa escolha pessoal nos reservou. Ter compaixão, compreensão, carinho, semear entendimento e estar aberto ao diálogo já representaria lenitivo a um convívio que ostenta ferimentos graves, pois propenso a explosões de ira e violência. Tudo aquilo que sugere um quadro patológico distante de se converter na sonhada higidez de uma verdadeira fraternidade.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 15/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Município: escola da democracia

Em tempos de policrise, como aquela que ora atravessamos, a esperança reside nas comunidades menores. A vida cidadã não precisa, necessariamente, ser afetada de tal forma que paralise a rotina das cidades. Nestas é que as coisas acontecem e precisam continuar a acontecer.

Até mesmo analistas estrangeiros assinalam que a retomada do desenvolvimento virá dos municípios. Explorar a vocação local ou regional, consorciar-se, adotar estratégias de sobrevivência digna e blindar suas fronteiras para que os munícipes se conheçam e se auxiliem, cooperando entre si até que o Brasil melhore.

Um grande papel está reservado aos Prefeitos, muitos dos quais herdaram pesados ônus de seus antecessores. A auto-gestão municipal deve adotar rotinas de racionalização, de otimização, de organização e método, com foco em resultados. Os jovens são chamados a um protagonismo essencial. São eles que precisam se preparar, com vistas à assunção de responsabilidades que, de certa forma, foram negligenciadas por muitas lideranças que fracassaram.

São os jovens que podem renovar os quadros da política partidária e da administração municipal. A formação de novas lideranças começa na escola, na disputa das eleições de um Grêmio Estudantil, espraia-se na filiação partidária e na aproximação com as Câmaras Municipais e Prefeituras.

É na cidade que as coisas acontecem. Sempre é oportuno lembrar Franco Montoro: “Ninguém nasce na União, nem no Estado. As pessoas nascem na cidade”. Os jovens precisam refletir sobre temas desafiadores, como a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a participação e a solidariedade. Tais assuntos encontram suas aplicações em inúmeros âmbitos da vida social, da vida familiar, nas relações de trabalho. Afetam a economia, a política, as relações internacionais e o meio ambiente.

Aos 16 anos, o jovem pode mudar o destino de sua cidade, de seu Estado e do Brasil. É urgente dotá-lo de consciência política, para interferir, positivamente, na condução das políticas públicas.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 15/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.


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Tecnologia é tudo?

Evidentemente que não. Mas ela está presente em nossa vida e não pode ser ignorada no universo mais sensível e urgente para um amanhã menos sombrio: a educação. As crianças já nascem com chips! Têm uma circuitaria neuronal digital, enquanto a nossa é analógica. Não faz sentido continuar no modelo analógico, se o destinatário do processo educativo é digital!

Isso é o que justifica a crescente preocupação de todos os que realmente pensam numa educação consistente, com a utilização da tecnologia a favor do aprendizado.

A sabedoria acumulada pela civilização está disponível a todos os que têm acesso à conectividade. Uma das urgências da cidadania é exigir que os benefícios do acesso à banda larga sejam estendidos a toda a população, conforme se propuseram as concessionárias quando da privatização das comunicações e constou dos contratos de concessão.

O futuro é hoje e o “mobile”, representado pelos smartphones, celulares, tabletes e outros equipamentos eletrônicos teve seu uso disseminado entre todas as pessoas. É raro encontrar alguém que não tenha celular. Tornou-se um bem imprescindível, tanto que assanhou até a criminalidade. O furto e roubo de celulares é um dos ilícitos mais verificados em nossos dias.

O professor tem de estar preparado para se servir com eficiência das novas ferramentas. A tecnologia é uma aliada sua e não pode ser descartada.

A utilização do acervo infinito e cada vez maior de filmes, animações, aplicativos, conteúdos e plataformas tornará a apreensão do conhecimento cada vez mais atraente. E é isso o que precisa residir em nossa mente. Se tornarmos o aprendizado sedutor, interessante e desafiador, a criança responderá com entusiasmo.

É verdade que a tecnologia é um terreno movediço diante da ameaça constante da obsolescência. Esta corre atrás de nós e nos morde os calcanhares se estacionarmos. Mas é algo que deve nos estimular a manter a corrida, vencer a distância que nos separa da ficção científica, animar as novas gerações para a magia do domínio da verdade. Quem conhece passa a amar. E o amor pelo conhecimento é o único incapaz de traições, de causar decepções e de frustrar.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 11/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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O senhor das moscas

Assisti à pré-estreia de “O Senhor das Moscas”, peça de William Golding (1911-1993), nascido em Newquay, região da Cornualha, Grã-Bretanha e prêmio Nobel de literatura. O livro que deu origem à peça foi publicado em 1954, depois de 21 recusas de editores. Nele se expõe a falência do racionalismo e a fragilidade do verniz da polidez, quando o ser humano é confrontado com situações difíceis.

Um avião com crianças inglesas de um colégio interno caiu numa ilha deserta. Elas tinham sido encaminhadas por seus pais para lugar seguro, em fuga da próxima guerra. Ensaia-se uma organização, com duas lideranças em cotejo. Jack é o superativo, tipo valentão, quer se impor pela força. Sua preocupação é caçar, matar os porcos selvagens e agrupa sua equipe de caçadores. Ralph tem esperanças de voltar à civilização e propõe que uma fogueira permaneça acesa, a fim de despertar a atenção de eventuais salvadores.

Aos poucos, toda a capacidade de convívio harmônico vai se mostrando a cada momento mais frágil. Crianças de famílias abastadas, fruto de educação formal sofisticada, vão se tornando selvagens. Instala-se a barbárie. Temem o “bicho” real ou imaginário e se transformam em seres irracionais.

O “bicho” está na alma dos que perdem parâmetros e já não conseguem respeitar o semelhante. “Eu vi o bicho nos olhos das pessoas. O bicho está em mim”, diz Ralph num solo que faz pensar.

A peça é muito atual. A temporada no teatro do SESI, à Avenida Paulista, 1313, permanecerá em cartaz até 3 de dezembro. Todas as quintas e sextas-feiras são reservadas para agendamento escolar. Vale a pena levar os alunos para assistir e depois fazer debates porque estamos todos sujeitos a passar por situações análogas.

Somos o misto ambíguo de convenções e instintos. Como nos comportaremos diante de adversidades? Qual a nossa resistência ao infortúnio? Somos coerentes quanto ao que declaramos crer e a nossa resposta na concretude da vida?

O “Senhor das Moscas” é uma cabeça de porco espetada numa estaca, invocada como poder místico diante do desespero e da falta de perspectivas. Vale a pena assistir e refletir sobre a mensagem de William Golding, adaptada para o palco por Nigel William e dirigida por Zé Henrique de Paula.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 11/06/2016

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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