Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Quem é racional?

O aquecimento global é um fenômeno palpável em todo o planeta. 2016 foi o ano mais quente da Ter­ra. O clima está confuso e no país que tem enorme quantidade de água doce, a distribuição inclemente foi agravada por crise hídrica em 2014 e registra índices pluviométricos exagerados em 2017.

A devastação continua infame. Enormes áreas florestais são devastadas e ninguém é punido. Con­sidera-se um “crime menor”, enquanto o furto – este sim – é um delito maior e gera prisão.

Enquanto isso, aqueles que pensam que vão du­rar para sempre patrocinam campanha contra os de­fensores da natureza. O livro “Caiu do Céu: o Promis­sor Negócio do Aquecimento Global”, de Mc-Kenzie Funk, evidencia o que apenas se intuía. As maiores empresas petroleiras e de transporte marítimo esta­belecem parcerias com os países do Ártico, aqui in­cluídos o Canadá, a Rússia, a Noruega e os Estados Unidos, para explorar financeiramente o derretimento do gelo marinho em torno ao Polo Norte.

O gelo derrete em velocidade maior do que se esperava. Há poucos anos, dizia-se que isso ocorreria dentro de um século. O que levava as pessoas a pen­sar: “Daqui a um século não estarei aqui. Quem esti­ver que se vire!”. Hoje talvez essas mesmas inconsci­ências venham a experimentar o que será do mundo após o degelo.

Mas alguém lucrará com isso. As rotas de comércio aumentarão. Poder-se-á explorar petróleo onde antes ha­via gelo. Talvez se possa plantar na terra nua. O recuo das geleiras é lucrativo para alguns. Pouco importa que desa­pareçam as praias brasileiras. O que interessa é o negócio.

Neste caso, a ganância, a cupidez, a mesquinharia, o imediatismo são as várias faces da mesma enfermida­de que acomete a espécie humana. Sabe-se que o aque­cimento global é um fato. Não se desconhece que ele resulta da incúria do homem. Este inquilino infiel não se recorda de que lhe é dado habitar a Terra por algumas décadas, não mais do que isso. A maior fortuna do mun­do ainda não conseguiu evitar a morte. Esta aguarda os bons e os maus. Todavia, estes fazem questão de levar o futuro com eles. As próximas gerações pagarão pela irracionalidade dos ancestrais. E ainda se reafirma que a espécie é provida de razão e de discernimento.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 27/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Geração de prosumidores

Na presente fase de pessimismo e de visão ca­tastrófica do futuro, é interessante ler livros como “So­ciedade com Custo Marginal Zero”, de Jeremy Rifkin, publicado pela editora M.Books. Ele é um professor da Universidade da Pensilvânia, onde ensina execu­tivos a tornarem suas empresas sustentáveis, projeto da Escola de Negócios Wharton. Observa que o dina­mismo e a eficiência produtiva, alvo de todos os em­presários, tangidos pela onda empreendedorista, além da rápida mutação tecnológica, farão com que o capi­talismo perca sua dominância e ceda espaço para uma economia solidária, colaborativa e compartilhada.

O avanço da ciência e da tecnologia acelera o ritmo de produção e faz com que o custo marginal, o preço para produzir uma unidade a mais de um determinado produto, chegue bem próximo a zero. Amplia-se o acesso a todos os bens de consumo. Por consequência, os lucros das corporações se reduzem, a ideia de propriedade abandona o seu caráter abso­luto – o que já ocorre com a implementação da ideia de “função social” – e a economia da escassez é subs­tituída pela abundância.

Na visão idílica de Jeremy Rifkin, o ser huma­no passará, naturalmente, a compartilhar seus bens, a desfrutar de produtos e de serviços independentemen­te da necessidade de comprá-los.

Hoje a concepção capitalista prestigia o inte­resse próprio, é motivada pelo ganho material, pelo egoísmo e pelo exacerbado individualismo narcisista. Passar-se-á a vivenciar uma era de fruição de bens co­muns sociais, motivados por interesses colaborativos e impulsionados por um profundo desejo de se conec­tar com os outros, de dialogar e de compartilhar.

Para o autor, sinais dessa mutação tornam-se perceptíveis quando a volúpia do automóvel, ícone do consumismo e símbolo da propriedade privada, perde força perante uma geração que já não se entusiasma com a posse exclusiva do automotor. Além do com­partilhamento, animam-se os jovens com a ideia de fruir de carros autônomos, aqueles que não precisam de condutor. Eles atendem a uma outra tendência con­temporânea, ao menos perante os mais sensíveis: a tu­tela responsável do ambiente.

Assim também, casas, roupas, objetos, poderão ser compartilhados, na visão consciente de que “do mundo nada se leva’ e que a sabença popular eterni­zou no dístico “caixão de defunto não tem gaveta”.

A facilidade de acesso a bens da vida que se­rão cada vez mais baratos e mais disponíveis torna­rá os jovens libertos das amarras materiais. Em lugar da acumulação de bens, do enriquecimento pessoal, o mais cobiçado será o prazer de cultivar interesses colaborativos. Em lugar de “ter”, tornar concreto o so­nho de uma qualidade de vida sustentável.

Tudo isso afetará, é natural, o mercado de traba­lho. O mundo já está diferente e ficará ainda melhor. Os desafios são imensos. Basta dizer que mais da me­tade das profissões ainda indicadas como o futuro das crianças de hoje deixará de existir dentro de duas dé­cadas. A educação tem o compromisso aparentemente utópico de formar profissionais para misteres que se­quer têm denominação.

Mas a internet das coisas, que propicia a conec­tividade entre objetos e pessoas, facilitando as tare­fas e rotinas, o big data e o infinito acervo de dados e suas potencialidades, os algoritmos, a inteligência artificial, cada vez mais surpreendente, a robótica, a cibernética, vão eliminar postos de trabalho, mas vão permitir o desenvolvimento da sensibilidade. Tempo e espaço para as artes, para a poesia, para o cultivo da natureza, para oferecer talento para a beleza.

A impressora 3 D converterá o hoje consumidor em “prosumidor”. Ou seja, será ao mesmo tempo um produtor e um consumidor. Fará aquilo que desejar, desde uma caneta a um móvel, uma obra de arte e um chocolate, uma prótese e uma colher.

Há, portanto, quem acredite que Rousseau tinha razão e que a índole humana é direcionada à bondade. Que estejam certos e que Hobbes tenha se equivocado ao edificar o seu “Leviatã”.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 24/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Matemática na escola pública

Um dos pontos frágeis, mais vulneráveis, da educação brasileira, é a matemática. E precisamos muito dela. Quem gosta de matemática vai se dar bem nas carreiras que necessitam das chamadas ciências “duras” ou exatas. Precisamos de engenheiros, de físicos, de estrategistas, de estatísticos, de químicos e de outros profissionais aptos à missão de desvendar o futuro. Pois nunca houve tamanha incerteza em relação ao amanhã como hoje. O que se imagina para daqui a 20 anos?

Quando uma Nação dá certo, a maioria de sua população compara a situação do pai com a do filho. O brasileiro de hoje pode olhar para seu pai e dizer que ele conseguiu futuro melhor para a sua descendência. E nós? Temos certeza de que o porvir de nossos filhos será melhor, menos sacrificado, mais exitoso e mais feliz do que tem sido o nosso?

Essa reflexão tem de levar as pessoas de bem no Brasil – e ainda há muitas – a uma responsabilidade redobrada em relação à educação. Esta precisa do acompanhamento efetivo e permanente dos pais, da sociedade, de todas as pessoas que tiverem condições de alavancar a escalada do conhecimento. Sem estudo efetivo, sem aprendizado eficiente, nunca chegaremos ao Brasil de nossos sonhos.

Uma oportunidade para mostrar que não é apenas intenção, mas que podemos atuar na prática, é fazer com que um número maior de estudantes da Rede Pública participe da 13ª Edição da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP 2017. As inscrições estão abertas até 31 de março, na página www.obmep.org.br

Cada Escola cadastrada no MEC/INEP recebeu um kit de divulgação com cartazes, folhetos explicativos e o calendário da Olimpíada. Os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio estão convidados a participar. Cada diretor está convidado a fazer com que sua escola participe e brilhe da Olimpíada. Assim como os esforçados professores de Matemática. Mas também os Pais de Alunos, os Grêmios Estudantis, a mídia, a Universidade, o empresariado. Todo brasileiro que estiver interessado em um amanhã mais exitoso para esta Nação que precisa muito de bons alunos e, principalmente, em Matemática.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 23/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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É melhor esquecer

A memória é um dos patrimônios intangíveis mais valiosos que todos temos e que não pode ser comprada. Menciono sempre – e de memória – um texto de Cecília Meireles: “Os jardins da memória só a mim pertencem! Percorro-os quando quiser…”.

Há coisas que nos dão prazer de lembrar. Ou­tras, preferíamos esquecer. Mas a perda da memória é patologia. Não é algo que se possa manipular. O que se pode fazer é evitar que uma memória se exprima. Aquilo que nos incomoda pode ser afastado, assim que prenuncie ressurgimento. Para o neurocientista Ivan Izquierdo, “a falta de uso de uma determinada memória implica em desuso daquela sinapse, que aos poucos se atrofia”.

No mais, inexiste estratégia para selecionar lembranças e em seguida eliminá-las. Até porque a mesma informação é salva por diversas vezes pelo mecanismo da plasticidade. Daí lembranças amargas vez o outra nos amargurarem novamente.

É saudável cultivar a memória. Até a memória do medo, que é o que nos mantém vivos. O medo nos faz atentos e vigilantes. Se ele for tão grande que nos paralisa, “antes parado do que morto. O cérebro atua para nos preservar, essa a prioridade”, ainda citando Ivan Izquierdo.

A vida é contínuo aprendizado. A cada dia aprendemos algo novo. E se nada aprendemos num determinado dia, esse é um dia perdido. Podemos trei­nar a memória para que ela retenha o que é agradável e encontre fugas para o que nos molesta. Um exercício racional de olvidar aquilo que nos machuca.

A sabedoria antiga descobriu a fórmula ideal. Guardar o que nos enleva, cultivar a gratidão para que a recordação do bem que nos foi feito enfatize a empa­tia com o ser generoso. Tentar esquecer as maldades, as traições, a maledicência, o acinte, o deboche, a insensibilidade e a ingratidão. Sintomas da miserabili­dade da matéria humana, infelizmente tão frequentes.

Passar pela existência terrena sem traumas não é para os humanos. Estes são imprevisíveis e incontrolá­veis. Quem se apega aos momentos infelizes prolonga a infelicidade. Assim como a inveja, veneno que alguém toma com a esperança de que o outro venha a morrer.

Nada obstante, quem está a perder a memória daria tudo para se lembrar até dos momentos terríveis. Eles fazem parte de sua história.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 23/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Quem lê não morre

Quer dizer, morre menos! Ou seja: leitores de livros têm mortalidade reduzida em 20%. Foi o que apuraram pesquisadores norte-americanos. Ler livros reduziu um quinto dos riscos de mortalidade. A Uni­versidade de Yale constatou boa vantagem na sobrevi­vência dos que liam 30 minutos por dia, quando com­parados a não leitores.

É que os livros propiciam uma “leitura imersi­va”, pela qual o leitor consegue fazer conexões entre o que está lendo e o mundo ao redor, as possíveis aplica­ções daquilo na vida real. Tudo melhora com a leitura: vocabulário, concentração, pensamento crítico, empa­tia, comportamentos mais saudáveis, menos estresse. O conjunto na melhoria de todos esses processos cog­nitivos, leva a uma vida um pouco mais longa.

O Brasil ainda lê muito pouco. Mas é dever de todas as pessoas conscientes fazer com que as crian­ças se habituem com a leitura. Afinal, ler é viajar sem ter que fazer as malas. É visitar outras Nações sem ter de pagar passagem, nem exibir passaporte. É pene­trar mentes alheias sem ser intruso e conhecer pessoas que nunca mais serão encontradas, até porque muitas delas já estão na eternidade, perscrutar suas mentes, partilhar suas alegrias e suas angústias.

Quem lê cresce e se transforma. Quem lê vive mil vidas antes de morrer. Quem não lê, vive apenas uma, dizia George R.R.Martin. Mergulhar na leitura é o que permite sair da esfera estrita de nossa rotina, de nossas atribulações, de nossos microproblemas e concluir que a existência humana é muito mais rica do que pode perceber nossa mediocridade.

Leio e cada dia mais. Vários livros ao mesmo tempo. Mal terminei de ler “Homens imprudentemen­te poéticos”, de Walter Hugo-Mãe, li “Machado”, de Silviano Santiago, “O Dono da Banca”, biografia de Roberto Civita, escrita por Carlos Maranhão e come­cei a ler “Rita Lee”, sua autobiografia que é muito divertida e me leva a tempos que também vivenciei, pois somos da mesma geração.

Memórias, biografias, autobiografias são hoje a minha predileção. Além das leituras obrigatórias para a sala de aula, pois o professor que não se recicla está con­denado a ficar muito abaixo da capacidade e aptidões de seus alunos, todos antenados e viajantes do networking.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Sem milagres, mas com esforço

A situação da educação brasileira preocupa a todos os bempensantes. Se levarmos em conta as ava­liações, notadamente as internacionais, como o exame PISA, critério da OCDE, não estamos no melhor dos mundos. Mas é preciso ponderar que não há respostas simples para problemas complexos. E a educação é uma questão extremamente complexa.

O próprio conceito de educação está em xeque. Vivencias e a 4ª – alguns dizem a 5ª – Revolução Indus­trial e continuamos a ensinar em salas fechadas, cartei­ras enfileiradas e um professor a prelecionar durante 50 minutos. Disciplinas compartimentadas e sem qualquer liame concreto com a vida real. Isso já era criticado por Montaigne em seus “Ensaios”, há séculos. Pouco mu­dou a estratégia de ensino em todo o mundo.

Não tem faltado dinheiro, por mais que se criti­que a insuficiência de verbas. Em São Paulo, em 2015, os gastos com educação chegaram a R$ 35,1 bilhões. R$ 8,3 bilhões para as Universidades e R$ 26,8 bi­lhões para a Educação Básica. Enquanto a Constitui­ção da República ordena destinar 25% das receitas em educação, o Estado de São Paulo tem aplicado mais de 30% e há seguidos anos: 30,13% em 2012, 30,15% em 2013, 30,22% em 2014 e 31,27% em 2015. No Fundeb, a aplicação foi de R$ 15,9 bilhões, o equiva­lente a 100% dos recursos recebidos. Desse montante, 68,5% foram utilizados para pagamento dos profissio­nais do magistério em efetivo exercício e R$ 5 bilhões transferidos aos municípios que possuem rede própria de educação básica.

Há muitos anos São Paulo dispõe de base curri­cular, cuja implementação serve de experiência para a atual discussão da BNCC. E é evidente que o ensino integral produz resultados mais eficazes do que o tur­no mínimo regular.

Isso porque no período expandido, o aluno pode se devotar a disciplinas eletivas e a desenvolver o seu “projeto de vida”, antecipando os desafios que enfren­tará assim que encerrar o ciclo de escolaridade normal. Tal estratégia propicia reflexão a respeito de seu futu­ro, das habilidades que necessitará para exercer uma profissão prazerosa e garantidora de qualidade de vida compatível com o investimento feito em sua formação.

Algo que o Brasil tem de levar em conta é a sin­gularidade das novas gerações, que já nascem apa­rentemente “chipadas” e plugadas às redes sociais e evidenciam excepcional desenvoltura para vivenciar o ambiente digital. O conhecimento nunca esteve tão disponível e acessível para quem tiver curiosidade intelectual. Através de smartphones, celulares, ta­blets e computadores, pode-se ingressar nas melho­res Universidades e nas mais prestigiadas bibliotecas de todo o planeta. Percorrer o tesouro de aulas e fil­mes bem realizados, obter informações detalhadas e exatas em todas as áreas essenciais a um adequado crescimento cultural.

O uso das modernas tecnologias da comunica­ção e informação é imprescindível para interessar essa geração 3D, que trabalhará com a inteligência artifi­cial e com a internet das coisas em sua vida adulta. Para isso, a conectividade em todas as escolas, a oferta de wi-fi gratuito e de banda larga a todos é urgente. As concessionárias devem cumprir sua parte nos termos dos contratos e o governo precisa exigir esse adequa­do cumprimento, com a atualização da melhor quali­dade, assim que a oferta comercial também merecer salto qualitativo.

Mas o fundamental é acordar a Nação inteira para as suas responsabilidades em relação à educação, chave de resolução de todos os problemas brasileiros. Se a educação é direito de todos, não é dever exclu­sivo do Estado. É obrigação do Estado, sim, mas em solidariedade com a família e com a sociedade.

O Estado está aplicando recursos preciosos na Rede Pública. Mas a eficiência do ensino/aprendizado se vincula também – e há quem diga que prioritaria­mente, – ao dever familiar de não se descuidar do “cur­rículo oculto” ou “currículo implícito” da boa educa­ção de berço. Professor merece respeito, assim como o equipamento público edificado para uso do aluno e pago com dinheiro do povo. E toda a sociedade, des­tinatária do processo educacional, precisa mergulhar nessa missão que, levada a sério, em uma geração, transformará o Brasil real, fazendo-o coincidir com os nossos sonhos. Temos o direito de sonhar, mas tam­bém o dever de concretizar as utopias.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 17/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Foto: Diogo Moreira/A2IMG


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Transgênico é do bem?

O brasileiro tem medo de transgênico, apurou uma pesquisa do Ibope Conecta. Transgênico é um organismo que recebe um gene originalmente presente em outro, geralmente por meio de biotecnologia. Isso muita gente sabe. Argumenta-se que os transgênicos são projetados para resistirem à praga, aumentando a produtividade e reduzindo custos. No Brasil, planta-se milho, soja e algodão transgênico.

Não se sabe ainda, ao menos com certeza, se eles fazem mal à saúde. É que tudo começou muito mal. A venda de sementes transgênicas se fazia simultaneamente à de um agrotóxico. Também se divulgou – e não se desmentiu – que a semente transgênica é estéril. A indústria de sementes ficaria com o monopólio. Certo ou não, os pequenos produtores de sementes desapareceram. Assim como aquelas plantinhas nativas que os antigos conheciam tão bem e que eram “milagrosas” para tantos males. Tudo ganhou escala, ganhou proporções e a biodiversidade foi sendo sufocada.

As pessoas entrevistadas para a pesquisa não sabiam que estavam a consumir DNA. Pois a inserção de um gene de um organismo em outro nada mais é do que a inserção de uma longa molécula de DNA, geradora de uma nova característica. E 75% delas se confessaram preocupadas. A explicação de quem ganha dinheiro com transgênico é o de que não há perigo para os seres humanos. Pois a maioria dos destinatários de milho, soja e algodão transgênico está na escala animal inferior: os grãos vão alimentar porcos, galinhas e gado. Mas não existe também o perigo de consumir carne desses viventes que nos alimentam, se eles agora são alimentados artificialmente? Galinha já não cisca no terreiro, porco já não come vegetais ou milho puro e as vacas só consomem ração transgênica?

À medida que a humanidade “brinca de Deus”, ela vai descobrindo que há consequências. O “aprendiz de feiticeiro” nem sempre domina integralmente a ciência e a técnica. A busca desenfreada do lucro pode causar nefastas consequências para o equilíbrio da natureza e para a subsistência humana sobre este sofrido planeta.

Quanta coisa já não se faz, sem conhecimento dos consumidores, cobaias inertes e impotentes diante do comando indiscutível e incontornável do senhor mercado?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 16/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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