Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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POBRES CRIANÇAS

Às vezes me apiedo das crianças de hoje. Em 2030, haverá no Brasil mais idosos do que jovens. As crianças de hoje terão de se encarregar da velhice. Não é uma tarefa muito fácil. Mas anima-me a certeza de que elas darão conta. Basta investir numa educação consistente, lembrar ao jovem que o problema da juventude o tempo resolve. E que ficar velho é melhor do que a alternativa: morrer moço.

Vejo que hoje o conceito de velhice é outro. Idade é uma contingência que pode ser encarada de muitas formas. Convivo com pessoas mais idosas do que eu e com outras que têm décadas menos. Procuro me situar e aprender com todas as idades.

Animo-me com gestos como o de Abilio Diniz que, aos 81, lança plataforma digital gratuita para garantir longevidade com bem-estar. Sua ideia é agrupar no espaço pesquisas e projetos amparados em evidência científica, além de narrar sua experiência pessoal, sem desprezar a de outros indivíduos e organizações interessadas no envelhecimento.

Para Abílio, “envelhecer é uma certeza; envelhecer com qualidade é uma escolha. Para isso, você tem que começar a se preparar antes”. Ele diz ter começado aos 29 anos e espera viver mais 20 ou 30.

            A plataforma www.plenae.com tem seis pilares: 1. Corpo: sono, alimentação, exercícios; 2. Mente: estresse, aprendizagem; 3. Relações: família, comunidade; 4. Espírito: fé e meditação; 5. Contexto: renda, educação; 6. Propósito: sentido de vida.

Dentre os seis pilares, escolhe a alimentação como o aspecto mais importante para se chegar a uma idade avançada e fisicamente bem, além de estar com a cabeça em ordem. Comer pouco é a receita fundamental. Consumir apenas o que será queimado. Com a chegada dos anos, comer ainda menos.

Atividade física é também essencial. Não é preciso competir. Mas é necessário o exercício de fortalecimento. Principalmente dos músculos das pernas. Pouca gente cuida de evitar as piores consequências da sarcopenia, a morte das células que compõem os músculos. Ela é infalível, mas seus efeitos podem ser amenizados com exercícios constantes.

Outro conselho do Abílio é cuidar de não cair. As quedas, para os idosos, são fatais. Comendo pouco, caminhando muito, não caindo, olhando a vida com amor e tendo fé, não é impossível chegar ao centenário.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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TEIMOSIA CAUSA CEGUEIRA

Há cinco séculos, Michel de Montaigne criticava a educação convencional. Coloca-se um número de várias dezenas de pessoas no mesmo espaço, faz com que elas se enfileirem e as submete ao mesmo sacrifício: ouvir preleções em silêncio. São pessoas com identidade, temperamento, inclinação, origem e anseio muito próprio. Transmite-se o mesmo conteúdo. E depois se estranha quando apenas quatro ou cinco “dão certo na vida”.

Ninguém ouviu Montaigne, nem leu os seus “Ensaios”. Continua-se a fazer tudo igual. Mas nem todos. A Nova Zelândia, por exemplo, não acredita no velho esquema. Dá às suas escolas um grau de autonomia como não existe no restante do planeta. Em 2017, foi o país eleito como o que melhor educa para o futuro, pela revista britânica “The Economist”.

Deixou para trás Canadá, Finlândia e Suíça, que também concorriam em quesitos como presença de resolução de problemas nos currículos e percentual de gastos na educação. O Brasil, entre 35 países, ficou em 22º lugar. A receita é bem conhecida: aprender não é decorar. As crianças praticam aprendizagem com objetos como serrotes, martelos, enxadas.  Isso é mais producente do que ensinar a decorar coletivos, por exemplo.

A resposta dos professores é “Faça você mesmo!” ou “Pergunte antes a três colegas”. O professor inglês Richard Wells, que se mudou para a Nova Zelândia, chamou o País de “paraíso da aprendizagem”, no livro que escreveu em 2016. Conta que ouviu de um aluno: “O senhor poderia, por favor, parar de falar?”. Foi durante uma aula em 2009, quando ele ainda exercitava o método clássico de ensinar. “Se o professor fala por mais de 15 minutos, está errado. O jovem não se concentra mais do que isso com alguém à frente da sala”.

 Os alunos escolhem o que querem aprender, num cardápio de 40 opções, dentre as quais marcenaria, programação, culinária ou jardinagem. Eles têm 6 matérias por série no currículo. Apenas por alguns semestres são obrigatórias inglês, matemática, ciências, filosofia, estudos sociais e educação física. O restante é eletivo. No Brasil ainda temos 13 disciplinas. E milhares – sim, são milhares! – de projetos de lei para incluir novas disciplinas no currículo oficial, tanto do Ensino Fundamental como do Ensino Médio.

É claro que Nova Zelândia e Brasil são muito diferentes. Sua população é de 4,7 milhões. A nossa, 208 milhões. O IDH deles é o 13º e o nosso, o 79º mundial. No PISA, em matemática eles estão em 22º e nós em 65º. Em leitura, eles são o décimo, nós o sexagésimo segundo. No ranking de percepção sobre corrupção, Nova Zelândia é o país com menor percepção de corrupção em todo o mundo. Nós estamos em 96º.

Mas exatamente porque somos enormes, gigantescos, somos vários Brasis, mais se justifica prestigiar as diferenças, a heterogeneidade e se conceder mais autonomia às escolas.

Impera a tendência à homogeneidade, à blindagem, a preocupação com rankings que, paradoxalmente, sempre nos reservam os piores lugares. Mas a teimosia é um vício que também leva à cegueira. E o pior cego é o que não quer enxergar.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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SAIR DA CAVERNA

O tsunami de más notícias que assola o país reserva hiatos para bons sopros. Um deles é o anúncio de que o Instituto Serrapilheira formará divulgadores de ciência, na beatífica missão de resgatar a valia e o interesse pela pesquisa científica nesta terra de atrasos.

O Brasil cometeu a façanha de se tornar a Nação mais judicializada do planeta. Tudo aqui chega ao Judiciário. Uma das causas: o número excessivo de Faculdades de Direito, que preservam o longevo modelo coimbrão, já antigo em 1827, quando D.Pedro I o transplantou para o Brasil. De lá para cá, assistimos ao “milagre da multiplicação” das escolas de Direito. Elas atingem uma cifra superior à soma de todas as outras que existem na Face da Terra! Não pode dar certo uma República com tantos bacharéis.

            Enquanto isso, capengamos na ciência. E é a Ciência que modela a humanidade do Futuro. Países que passaram por guerra, que têm cataclismo recorrente, que sofrem vicissitudes terríveis dão o show em termos de patentes, de descobertas, de avanços científicos. Aqui amargamos um retorno à origem colonial, com a exportação de commodities primárias, num primitivismo de dar dó.

Em excelente momento Bianca Vianna e João Moreira Salles instituíram o Serrapilheira. O primeiro instituto privado de fomento à ciência no Brasil. O programa de divulgação científica tem três eixos: 1. Formar profissionais para divulgação científica. Uma chamada pública selecionará 50 projetos de divulgação científica. Em setembro próximo, num evento de quatro dias, os selecionados mostrarão suas ideias e participarão de workshops na área. Nova seleção apoiará 20 projetos com até R$ 100 mil cada. 2. Incentivar jovens a adotarem carreira científica. Ampliar o programa de formação científica de profissionais de física em funcionamento no Instituto Perimeter, do Canadá. O objetivo é ensinar física avançada por meio de conceitos simples, de maneira a que se possa transmitir também de forma singela ao alunado 3. Aperfeiçoar a habilidade de comunicação dos pesquisadores. Os 65 cientistas selecionados no primeiro edital do Serrapilheira gravarão vídeos com explicação clara e objetiva de suas pesquisas. Cada um gravará três vídeos diferentes, voltados para três públicos específicos: crianças, universitários e especialistas.

Somente a ciência poderá resgatar o atraso do Brasil num campo em que tantas Nações avançaram e, com isso, atingiram estágios de desenvolvimento que impactaram a vida de todos os nacionais. Precisamos de mais cientistas em física, química, biologia, matemática, e em outros ramos da chamada “ciência dura” ou “exata”. Quanto às humanas, já estamos bem. Dá para viver com aquilo que se tem, pelos próximos dois ou três séculos.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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UM COPO D’ÁGUA, POR FAVOR!

Quatro anos apenas se passaram desde que São Paulo sofreu terrível crise hídrica e, aparentemente, o povo já se esqueceu de que a coisa é muito mais séria do que se pensa. O nível dos reservatórios da região da Grande São Paulo está hoje muito pior do que há cinco anos. Será que ninguém nota que em maio não choveu e em junho também não?

O inverno é estação seca e o sistema Cantareira não tem metade de sua capacidade de reserva. Em 12 de junho estava com 45,6% de reservatório e em 11 de junho de 2013, contava com 58,2% de sua capacidade. O mesmo ocorre com os sistemas Alto Tietê e Guarapiranga.

Não é demasia dizer que logo mais enfrentaremos outra crise hídrica. Ninguém está nem aí. Aquilo que deveria ser feito não se fez. Água existe, mas é contaminada. Conseguimos transformar os três grandes rios que correm por São Paulo em cloacas pestilentas, canais transportadores da ignorância de um povo que, mesmo miserável, desperdiça demais.

A característica dos povos ricos – e, portanto, civilizados – é a consciência ecológica. Houve eras sombrias, mas tanto londrinos como parisienses conseguiram recuperar o Tâmisa e o Sena. Em ambos é possível enxergar o fundo do leito e não é raro ver peixes saltando fora d’água.

Aqui negligencia-se na despoluição do Tietê, em cuja salvação já se afogou em pestilência uma montanha de dólares e de euros. Sem resultado aparente. A espuma fétida continua a atormentar Pirapora do Bom Jesus, que poderia ser um centro romeiro importante para a cultura, para a religião, para o turismo e para a economia.

A falta absoluta de educação da população continua a arremessar à rua e, portanto, às bocas de lobo e, portanto, aos emissários de esgoto e, portanto, – e finalmente – aos rios, tudo aquilo que é descartável em nossa época. Ou seja: quase tudo. Colchões, geladeiras, fogões, sofás, pneus, imensidão de garrafa pet, papelão, fraldas descartáveis, animais mortos, imagine-se o que um dia teve serventia e, se apostar, lá estará: no Tietê, no Pinheiros ou no Tamanduateí.

A falta de educação e de consciência ecológica sujeitará a todos a mais uma carestia. Muito mais grave do que a falta de petróleo. Sem petróleo consegue-se viver. Sem água, aposto que não.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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O BRASIL MELHOROU?

Para 72% da população, o País piorou! Ou seja, sete em cada dez brasileiros acredita que a situação do Brasil deteriorou nos últimos meses. Em abril, esse percentual era de 52%. E a expectativa para o futuro, em compensação, também não é boa. A maior parte dos que foram ouvidos acreditam que nada vai melhorar.

Indagados sobre a vida pessoal, 49% dos brasileiros dizem ter sofrido retrocesso econômico. Não há dúvida de que o mau humor é o sentimento disseminado nesta República pessimista, que não vê motivos para se entusiasmar. A inflação, silenciosa e insidiosa, chega aos postos de gasolina e aos supermercados. Os planos de saúde, pagos por aqueles que são esfolados com a mais alta carga tributária do planeta, aumentaram 22%. O desemprego aumentou. De 12,2% no trimestre passado, chegou a 12,9% no segundo trimestre de 2018. E o dólar subiu, o euro também, trazendo pânico para o mercado.

Enquanto isso, as promessas dos candidatos estão na platitude. Ninguém assume a coragem de dizer que o governo é excessivo, que há Estados-membros que não têm condições de subsistência só por si – e deveriam voltar a ser Territórios – e que os municípios idem – se não têm receita, têm de voltar a ser distritos.

Quem é que acredita na redução do número de partidos políticos? Ou na extinção do Fundo Partidário? Ou na proposta de que o exercício legislativo seja gratuito, por pessoas eleitas que continuem a extrair seu sustento de suas profissões, já que não existe a “profissão político”?

O povo tem razão, portanto, para estar descrente. É por isso que a nata da inteligência vai para outros Países. E que haja uma grande vontade de ir embora, por parte daqueles que não podem sair ou não têm para onde ir. Pois se pudessem e tivessem, já teriam partido.

O que será do amanhã, se ninguém consegue diagnosticar o que é, como pensa e o que fará a geração que já nasceu conectada à internet? Para a “geração morango” da China, o diagnóstico é de que ela tem ótima aparência, mas é facilmente esmagada por qualquer pressão. Para a agência americana Box1824, ela é a GenExit – geração saída – exatamente porque está ansiosa em busca de saídas para a armadilha de um mundo sem promessas, nem ilusões. Há rótulos, há explicações, há teses e há versões. Só não há certeza quanto ao amanhã.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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JÁ NÃO CHEGAMOS AO CAOS?

O sociólogo e especialista em comunicação Manuel Castells publica “Ruptura” pela Zahar, com a mensagem apropriada para os dias que vivenciamos no Brasil. Tempos de incerteza, de insegurança e de ausência de perspectiva. Tudo já visto, tudo já dito, tudo já mastigado, digerido e vomitado.

A esperança de alguns é o surgimento de nova ordem. Para estes poucos otimistas, “aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos”.

A crise crônica, o que é um paradoxo, assume o polimorfismo: “A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança. A consolidação de máfias no poder; …a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo”.

Por fim, salienta Castells, “o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista, dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política”.

A ruptura da relação entre governantes e governados é caótica e particularmente problemática no momento em que se questiona a habitabilidade deste planeta, a partir da própria ação dos humanos e de sua incapacidade de aplicar as medidas corretoras, de cuja urgência ninguém pode alegar inconsciência. É o superdesenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento político e ético, em ritmo veloz ladeira abaixo.

O desespero da falta de perspectivas talvez seja a tábua de salvação para que o ser humano, cada criatura provida de lucidez, aja com humanidade. Mediante a capacidade de autocomunicação, deliberação e codecisão de que agora se dispõe na Galáxia Internet, é cuidar de si e de sua família, na tentativa de reconstruir o tecido de nossas vidas, no plano pessoal, familiar e social.

Sem esperança de que partido algum responda aos desafios urgentes, acreditar na utopia de um caos criativo, “no qual aprendamos a fluir com a vida, em vez de aprisiona-la em burocracias e programa-la em algoritmos. Dada nossa experiência histórica, aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo quanto conformar-se à disciplina de uma ordem”. De uma ordem carcomida, burocrática e falida, pode-se acrescentar.

Talvez o caos não seja tão ruim. Ou será que já não estamos nele?

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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O RESGATE DA CONFIANÇA

Na visão de Sérgio Abranches e de outros pensadores atuais, as três angústias que afligem o homem contemporâneo são: a destruição do meio ambiente, a falência da Democracia Representativa e as ameaças da 4ª Revolução Industrial.

Todas graves e urgentes. Todas capazes de acabar com a vida no planeta. Pelo menos a vida como acreditamos que ela seja ou deva ser. Só que uma delas tem um encontro marcado com a nacionalidade: as eleições de 2018, para este triste país chamado Brasil.

A política partidária se desgastou de tal forma, que atingiu deterioração inimaginável. Hoje, quem tem coragem de se dizer político, parece estar assinando um atestado de corrupção. Generalizou-se aquilo que todos os partidos fizeram e se enlamearam, confundindo o público e o privado, se apoderando de dinheiro do povo e aprofundando a iníqua desigualdade social que se agravou nos últimos anos. Ninguém saiu ileso. Respingou a dúvida em desfavor dos poucos honestos que ainda são encontrados nos quadros eleitorais.

Como devolver à população a esperança de que a política partidária continua a ser a fórmula adequada para estabelecer um convívio solidário? Não é fácil. Mas não é impossível.

Para isso, é preciso ter coragem. Muita coragem, o que não é apanágio de tantos. Enfrentar os temas polêmicos. Com firmeza e sem receio de ser politicamente incorreto. Ninguém mais suporta a tergiversação. As pessoas têm nojo do populismo. Principalmente do populismo brega, da mediocridade, daquele aproveitamento vulgar de tudo o que possa parecer simpático ao eleitor e que é utilizado por quem nunca se preocupou com os temas nevrálgicos, porém quer agora oportunizar sensibilidade.

Coragem para dizer a verdade. Destemor para ter franqueza. Mentir é mais fácil. Omitir-se também é uma tática em voga. Ficar na platitude, repetir chavões, dizer aquilo que o auditório quer ouvir. Variar o discurso conforme a plateia.

Não dá mais para esse jogo. Haverá saída?

O caminho só pode ser o que não se espera dos camaleões. Expor-se. Ousar. Ser audaz. Dizer a que veio. Fazer escolhas. Definir-se. Não se iludir com a espera da unanimidade. É melhor o não com clareza, do que o talvez ambíguo. Não há partido incorruptível. Toda instituição humana é suscetível de acolher seres humanos com fissura de caráter. Mas condenar o adversário e ocultar as faltas dos parceiros é ignominioso. Impõe-se pedir perdão pela cegueira, por haver se entregue a praxes hoje inadmissíveis. Aceitar o erro da omissão ou da imprudência de ter navegado nas águas turvas da quase ilicitude. Uma postura de dolo eventual: aceitar o risco de se expor. Conviver cercado de pessoas que não mereciam confiança. Tudo em nome de coalizões nefastas.

Mas a população séria quer muito mais.

Assumir o compromisso de reduzir drasticamente o número de partidos. Uma República de quarenta partidos é uma falácia democrática. Acabar com o Fundo Partidário: que o partido seja sustentado pelos seus filiados. Interromper a sanha irresponsável da criação de novas entidades federativas. Frear o crescimento desenfreado da máquina pública.

Contar a verdade sobre a Previdência, que mais dia menos dia – e isso está mais próximo do que se imagina – deixará de honrar proventos e pensões. Pois o Brasil real não cabe no PIB. Muito delírio, muita mentira, muita pretensão desancorada de encarar um quadro tétrico: a recessão brava, a estagnação, o desemprego crescente. Não se previu o tsunami da modernidade e nossa indústria perdeu o rumo da inovação. A educação não foi levada a sério por todos os responsáveis, não só pelo Governo. Até porque, o timing do governo é o da próxima eleição, incapaz de imaginar o que deva ser uma geração adiante da sua.

A população que não está pronta para a mutação estrutural que ciência e tecnologia trouxeram e já alteraram o que se acreditava estável e permanente é a mais penalizada. Ainda acredita em diplomas, em cursos universitários de profissões que serão descartadas. E que já o são, sem que grande parte dos interessados o perceba.

O próximo Presidente, o próximo Congresso, os Legislativos estaduais não terão condições de resolver a tragédia nacional. Mas poderão mostrar que o Brasil tem jeito e esse jeito não pode se afastar da verdade. Nunca houve uma conjunção de fatores adversos tão sérios e tão comprometedores como hoje. Atraso tecnológico, paralisação da produtividade, violência em ascensão, na mesma proporção do desânimo e da desesperança.

Quem teve condições procurou abrigo no Primeiro Mundo, num êxodo inverso ao das correntes migratórias que tanto desenvolvimento trouxeram para o Brasil pós-abolição.

Uma responsabilidade enorme recai sobre os próximos governantes. Não se espere que em quatro anos haja reversão do caos. Mas a sinalização de que gente séria assumiu o leme já seria suficiente para conquistar aqueles que não podem sair do Brasil e gostariam de encontrar estabilidade, paz e condições de viver dignamente neste chão em que nasceram. Conscientizem-se disso e abandonem a obsoleta e necrosada fórmula de fazer política. Chega de discurso. Chega de promessas vãs.

Sem isso, nas próximas eleições o espaço estará aberto para a aventura. Para o inesperado e para o temerário. Não se deve correr esse risco. Pode ser a derradeira oportunidade de se garantir o sonho de Nação desenvolvida. De se cumprir a promessa do constituinte de 1988, ao acenar com uma pátria justa, fraterna e solidária.

Sem que se admita a falência da Democracia Representativa neste Brasil que já não crê em nenhum mandatário, sem que as máscaras sejam arrancadas e permaneça exclusivamente o ser humano em cotejo com a sua vontade de encarar a verdade, não haverá futuro decente no horizonte.

José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e conferencista.

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