Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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JORNAL DA CULTURA – 21h15.

Hoje estarei no Jornal da Cultura no Canal 2.

Assistam e participem, para que possamos interagir e nos conhecer melhor!

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CIÊNCIAS OU HUMANIDADES

Uma polêmica destinada a não chegar ao fim. De um lado, os humanistas, de outro os que pretendem prioridade à formação científica, sobretudo com vistas às competências necessárias para enfrentar uma sociedade sempre mais tecnológica.

No Brasil, a ênfase nas humanidades – que não dependem de comprovação científica, de laboratório e de profundo conhecimento das abstrações das “ciências puras” – há um difuso analfabetismo científico. Fenômeno de que se queixam nações mais civilizadas, como a nossa querida Itália. Pátria que forneceu braços e força de trabalho que salvou a elite paulista na crise de 1929 e que trouxe ânimo novo aos quatrocentões ancorados nas lavouras de café.

A edição do “Corriere dela Sera” de 30.6.2018 traz uma síntese daquilo que se pensa em relação ao tema. Pelas humanidades, fala Luciano Canfora, 76 anos, filólogo clássico, professor emérito de Filologia Grega e Latina em Bari. Ensinou papirologia, literatura latina, história grega e romana. Pelas ciências, Carlo Rubbia, 84 anos, recebeu o Nobel de Física em 1984, junto com Simon Van Der Meer. Diretor Geral do Cern em Genebra, de 1989 a 94 e senador vitalício desde 2013.

Para Canfora, humanismo e ciência são conexos de modo estreitíssimo. Não existe separação entre os campos. Desde o Oitocentos, difundiu-se a Enciclopédia e o Iluminismo e não há distinção. Fale-se, por exemplo, de economia. É humanística ou científica? É uma área simultaneamente humanística e científica. Quem pensa que humanismo se restringe a poesia e novela está num desvio. Os programas de ensino contemplam ambos os aspectos. Uma disciplina importante dos Liceus é a história do pensamento filosófico e científico.

Há um exemplo histórico: na China, no tempo de Alexandre Magno, um imperador fez destruir todos os livros de História, preservando apenas os livros que contemplavam a agricultura. Pensava que os volumes de História fossem perigosos. Faziam com que os leitores viessem a criticar o governo vigente. Ignorava que um cidadão sem formação histórica é débil. As ditaduras exaltam o culto da técnica e uma leitura acrítica da História. Descuidar da formação escolástica e pós-escolástica do terreno histórico-filosófico significa criar cidadãos indefesos e prontos a se tornarem súditos.

Já o ganhador do Nobel em Física 1984, Carlo Rubia, observa que ciência e cultura humanística são coisas diversas, mas ambas indispensáveis. A cultura é única e necessária para que alguém cresça. A distinção entre ambas surgiu porque a ciência é jovem e se pode dizer iniciada com Enrico Fermi nos anos vinte e trinta do século passado. “Para mim, a ciência sempre foi uma paixão, desde pequeno. Mas eu era bom também nas matérias literárias. Tanto que me queriam formar advogado. Ainda hoje a literatura é complementar, um elemento essencial, que não podemos dispensar. Sabemos quanto a cultura humanística italiana é rica e de grande ajuda para fazer pensar”.

Diz-se que a ciência é subavaliada. Há necessidade de crescer o interesse a respeito. Nada obstante, os pesquisadores italianos são reconhecidos e respeitados por seus próprios méritos nos grandes laboratórios do mundo.

O jovem deve preferir a ciência para ganhar o Nobel? Para Rubia, o Nobel é um reconhecimento mas não pode ser um objetivo de quem se dedica à pesquisa. A motivação deve ser a atração a fazer qualquer coisa de novo. Há muito ainda a ser descoberto. A cultura científica oferece grande oportunidade para desenvolver uma mentalidade adequada ao mundo e capaz de entender a realidade em que vivemos. Mas não é menos verdade que a cultura humanística abre as portas preciosas do conhecimento e da evolução do intelecto.

Enfim, na escolha entre humanidades e ciência, cada qual deve seguir a estrada que entender mais adequada aos próprios interesses, à sensibilidade cultural personalíssima. Quem adentra ao pórtico da ciência tem a faculdade de explorar coisas novas e imergir em uma dimensão global. Os pesquisadores colaboram em escala mundial, seja ao trabalhar num laboratório europeu, americano ou chinês. A ciência, hoje mais do que em qualquer outro período, é universal sobre todos os aspectos.

Não há contraposição, portanto, entre ciência e cultura humanística na formação dos nossos jovens. São dois aspectos do espírito humano. Seja como for, é preciso encorajar os jovens a pensar de maneira original. Ao mesmo tempo, a Nação deve garantir os meios adequados ao desenvolvimento da cultura em todos os campos, seja científico, seja humanístico.

A receita para saber mais, seja em qualquer campo que se escolha, é a curiosidade. Sem esta, não haverá interesse em perscrutar o conhecimento e aprofundá-lo até que alguém se possa considerar especialista, seja em humanidades, seja em terreno estritamente científico.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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UMA VIDA SEM LIXO

A designer catarinense Cristal Muniz, de apenas 27 anos, é uma das brasileiras preocupadas com a excessiva produção de resíduo sólido. No Brasil, cada pessoa produz um quilo do que se convencionou chamar “lixo” a cada dia. Convencionou-se chamar, porque muito pouca coisa é aquilo que não tem serventia. Quase tudo tem utilidade e só a ignorância é que deixa de descobrir que o descarte pode ser algo bastante rentável.

Pois a jovem não apenas criou um blog – https://www.umanosemlixo.com/ – mas escreveu um livro, exatamente o título deste artigo: Uma vida sem lixo.

Não é fácil converter-se à causa, porque estamos todos imersos na imensa e escura caverna de Platão (não exatamente a da Tailândia, onde se aventuraram os “Javalis Selvagens”), mas aquele mito-verdade da mais profunda ignorância. Achamos que tudo está bem quando poluímos o solo, a atmosfera, a água e tudo o mais, com o fruto de nossa sujeira.

Cristal, desde 2015, conseguiu reduzir em 80% a sua própria geração de resíduos. Trocou absorventes descartáveis por coletores menstruais, copos de silicone que armazenam o sangue. Formou uma composteira, que gera adubo para as ervas que cultiva em sua casa. Elabora suas próprias versões de xampu ou desinfetante. Reduziu o uso de materiais recicláveis. Não defende tenazmente a reciclagem, pois além de nem tudo ser reciclável, o processo brasileiro é muito falível.

Tem na bolsa um kit com marmita de aço inox, copo de silicone dobrável, guardanapos de pano, talheres de bambu e canudo reutilizável. Compra alimentos a granel e leva sacolas para carrega-los, dispensando o infame saco plástico. Compra menos e usa roupas adquiridas em brechós, confeccionadas com tecidos naturais como algodão orgânico e liocel, feito com fibras de madeira. Também não é dependente de marcas, nem precisa trocar cada eletrônico assim que um modelo mais recente o impuser, nesta era de obsolescência programada e predeterminada a nos fazer de servos do consumo.

O livro editado pela Alaúde traz outras dicas. Assim surgissem outras “Cristais”, cujo nome é metáfora instigante: transparência brilhante, para afastar a nódoa de uma civilização do descarte que acabará descartando qualquer possibilidade de vida neste sofrido planeta.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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A FALÁCIA DA PROTEÇÃO

O ser humano tem especial propensão à mentira. Mente, despudoradamente, nas pequenas e nas grandes coisas. Uma das mentiras mais comuns é aquela de que está a cuidar de maneira adequada de um patrimônio que não é dele: estava aqui quando ele chegou; dele se serve de forma irresponsável; gera a probabilidade de não conseguir legá-lo para as gerações do porvir.

Estou falando da natureza, do ambiente, dos recursos naturais, tão espoliados e tão desprotegidos. E da mentira deslavada de que eles estão sob a égide de um ordenamento preordenado a preservá-los.

Pois as “áreas protegidas” ostentam autoestradas, poços de petróleo, pastos e cidades. Zonas inteiras que formalmente estão sob a tutela do Governo e da sociedade, suportam pressão humana significativa. A ponto de se tornar insuportável.

É relatório da revista científica Science, a respeito de 6 milhões de quilômetros quadrados de terras protegidas. Nelas, a proteção de espécies em perigo reduz-se a cada minuto. Só 10% das áreas estão ainda sem atividade humana. Ainda, porque o destrutivo homem lá chegará. E tais dez por cento estão em regiões inóspitas e remotas, como a Rússia e o gelado Canadá.

Pouco adianta criar por decreto áreas protegidas. Se o fetiche da lei fosse levado a sério no Brasil, este seria o mais civilizado dentre os Países. Há lei para tudo. E em abundância. Mas o cumprimento da lei é uma mentira. Chegamos a ponto de importar ararinhas azuis, aqui nativas, mas salvas por outros povos mais civilizados do que o brasileiro.

O privilégio da devastação não é nosso. Existe na África, na Europa e na África. E também nos Estados Unidos, agora dizimados por um tsunami antiecológico bem potente. O triste espetáculo é o de que 90% das áreas protegidas no mundo, como reservas e parques naturais estão submetidas a prejudiciais e criminosas atividades humanas.

A ecologia, assim como a educação em geral, chave para a transformação efetiva da sociedade, aparece no discurso de algum presidenciável? Talvez de passagem. Mas não é algo que impregne o imediatismo da política partidária, mais ligada ao presente e pensando em si mesma, em dinheiro, poder e glória, do que num amanhã no qual os seus representantes aqui não mais estarão. Mas continuarão responsáveis pelos desmandos e pela crueldade que hoje sustentam com as suas vãs, imediatistas e tolas pretensões.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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ACREDITAR NO SER HUMANO

O Brasil é um país que teria tudo para oferecer à sua população a mais primorosa qualidade de vida, pois provido de um patrimônio natural de extrema valia. Não deriva de atuação do homem a exuberante biodiversidade, a quantidade de água doce, o clima generoso e o potencial turístico gratuitamente ofertados a uma população que já foi considerada “cordial”, ou seja, capaz de colocar o sentimento à frente da razão.

Talvez por não ser preciso recuperar a fertilidade do solo, nem remover meio metro de neve a cada borrasca, o ambiente não tenha merecido o respeito afetuoso constatável em outras plagas. Nem fomos submetidos a guerras cruentas, que dizimam gerações e oferecem o melancólico legado da reconstrução a viúvas e órfãos. Em compensação, parece não nos comover o morticínio crescente de uma juventude cuja perda é economicamente mensurável, sem que consigamos avaliar o prejuízo intangível do sacrifício de vidas em pleno viço.

Nosso país precisa crescer, adquirir maturidade e ter juízo. Refletir sobre o que foi feito de uma tradição de convivência alegre e pacífica, para permitir que a violência tomasse conta de todos os espaços. Avaliar o custo da omissão que permitiu a facínoras se apoderarem do interesse público e se locupletarem nababescamente, enquanto privam a infância de boa educação, os pobres de atendimento médico, os despossuídos de condições de sustento digno de suas famílias.

Onde foi parar a capacidade de indignação? O que foi feito da compaixão, da solidariedade, da comiseração pela indigência moral e a vontade de recuperar os valores?

Há quem tenha nojo da política partidária e tal sentimento é plenamente compreensível. Mas ainda não há como se livrar dessa fórmula de coordenação da vida coletiva. E se assim é, cumpre usar máscaras higiênicas, munir-se de luvas e colocar a mão na massa.

Garimpar, nesse universo de candidaturas, aquelas que possam nos fornecer um mínimo de esperança. Exigir compromissos. Cobrar compostura. Fiscalizar continuamente e ameaçar com atitudes firmes de denúncia e de implementação de instrumentos como o “recall”, para poupar à nacionalidade o ônus de suportar durante todo um mandato aquele que não se mostrar digno de nos representar.

Nossos filhos e netos merecem essa coragem patriótica, pese embora o cenário seja o de uma terra dizimada. Ninguém tolerará mais do mesmo e a reiteração de práticas que nos envergonham como brasileiros.

Acreditemos que resta decência e honradez em alguns espécimes raros dentre aqueles que se propõem a representar a população, mas logo chafurdam na representação inequívoca de seus egoísticos, exclusivos e nem sempre lícitos interesses.

Se assim não for, só a Providência Divina para dar conta do panorama tupiniquim neste final de segunda década do tão esperado século vinte e um.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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O QUE NOS ESPERA?

As profundas mutações resultantes da 4ª Revolução Industrial afetam a todos e o futuro é inteiramente imprevisível. Pense-se no mundo em que mais de setecentas profissões desaparecerão e não surgirão outras na proporção necessária à absorção daqueles que vão sobrar.

Como preparar as novas gerações para o inesperado? O melhor investimento que se pode fazer em relação à infância e juventude é o treino para a surpresa. A única certeza que a humanidade pode acalentar é a mais absoluta incerteza.

Aqueles que não se aperceberem disso vão se tornar ilhas descartáveis e o rumo das coisas prosseguirá sem a sua participação.

Até o momento, a educação se resumiu à transmissão do conhecimento. O detentor do saber se propõe a transferi-lo ao educando, concebido como a “tábula rasa” que ignora tudo, nada sabe, está pronto a receber o que lhe for ofertado.

Só que as tecnologias da comunicação e informação tornaram o acervo de saberes inteiramente disponível. Quem é que hoje não dispõe de um mobile e com ele possa percorrer todas as redes que se apropriaram de um conteúdo infinito de dados? Não há mais aulas com novidades, pois tudo está acessível aos curiosos. Volta à moda o autodidatismo, a melhor maneira de se tornar sapiente.

Mas um dos graves problemas contemporâneos é o da seleção do que deva ser consultado. Há uma inflação de informações à disposição, num permanente crescer que aterroriza quem se proponha a garimpar no sentido de se fixar naquilo que merece acolhimento. Há tanta coisa inútil a perambular pela web, a chamar atenção, a fazer com que o perscrutador perca tempo…

Uma educação consciente das questões postas à reflexão dos que não perderam a condição de pensar precisa cuidar daquilo que realmente interessa. Suscitar no estudante a curiosidade, treiná-lo para atributos até o momento negligenciados, mas que serão fundamentais para a sobrevivência de sua lucidez. Empatia, compreensão, paciência, equilíbrio, serenidade, tolerância, solidariedade. Tudo o que não se aprende na escola, ao menos na escola tradicional.

Cada vez mais, a humanidade precisa de humanismo. De sensibilidade. De compaixão. De fraternidade. Sem isso, vã será todo o aprendizado alicerçado na capacidade de memorizar aquilo que não precisa ser decorado, pois o mais importante é saber encontrar a informação quando dela se precisar.

Esse o desafio da educação no século XXI. Acordemos para esse repto, senão o caos chegará mais rapidamente do que possamos imaginar.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista.

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MÍSSEIS INTELIGENTES

O notável pensador Zygmunt Bauman, há pouco desaparecido, comparava o progresso da educação ao desenvolvimento dos mísseis balísticos. Quando lançados, a direção e a distância de seu percurso já fora predeterminada. A programação calculava o local de aterrissagem, para que os alvos fossem atingidos.

Ocorre que eles se tornam inúteis quando alvos invisíveis ao atirador se movem e o fazem mais rapidamente do que os mísseis. Pior ainda, se o movimento é errático e imprevisível. Foi preciso criar um míssil esperto, inteligente, capaz de mudar de direção em pleno voo. São mísseis que aprendem no percurso. Lição que a escola de hoje deveria aprender e seguir.

Os estudantes precisam que lhes forneçam de início a capacidade de aprender e aprender depressa. Precisam que se lhes desperte a curiosidade. E também precisam aprender a esquecer. Porque as informações são descartáveis. Logo serão obsoletas e substituídas por outras. Haverá um momento em que o conhecimento adquirido se tornará inútil e será preciso jogá-lo fora, esquecê-lo e substituí-lo.

Isso não era segredo para a sabedoria oriental de longeva tradição. Tanto que um dos provérbios da antiguidade citado pela Comissão das Comunidades Europeias em pleno século XXI, como fundamento para o projeto de aprendizagem por toda a vida, é: “Se queres colher em um ano, deves plantar cereais. Se queres colher em uma década, deves plantar árvores. Mas se queres colher a vida inteira, deves educar e capacitar o ser humano”.

Tudo hoje tem período de existência mais curto. Daí a urgência de mudar o paradigma e não ensinar o educando a adquirir estabilidade, conseguir um emprego que duraria a vida inteira, mas que pode estar dentre as 702 profissões descartáveis, de acordo com o advento da profunda mutação gerada pela 4ª Revolução Industrial.

Como bem observa Bauman, “Se a vida pré-moderna era uma encenação diária da infinita duração de todas as coisas, exceto a vida mortal, a vida líquido-moderna é uma encenação diária da transitoriedade universal. O que os cidadãos do mundo líquido-moerno logo descobrem é que nada nesse mundo se destina a durar, que dirá para sempre. Objetos hoje recomendados como úteis e indispensáveis tendem a virar coisas do passado, muito antes de terem tempo de se estabelecer e se transformar em necessidade ou hábito”.

Isso passa pela consciência dos educadores, dos pais e dos responsáveis pela coisa pública?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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