Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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O Brasil precisa de paz

As pessoas sensatas – ainda existem, felizmente! – são concordes em que o Brasil precisa de serenida­de para enfrentar a violenta crise política, econômi­ca e financeira. Não é possível que o País sinalize ao capital internacional que este é um solo seguro para investimento, se continuarem as manifestações, as violências, os ressentimentos e esta ira difusa que vai desaguar em vandalismo.

Até espectadores externos detectam o clima desfavorável para a retomada do desenvolvimento.

Não só os observadores encarregados de trans­mitir um diagnóstico sério e confiável da situação, mas pensadores de outras áreas, como a literatura, por exemplo.

No livro “Homens Imprudentemente Poéticos”, o português Valter Hugo Mãe, que se baseou na “Flo­resta dos Suicidas” do Japão, procura mostrar que a lição japonesa da tolerância e do convívio entre desi­guais precisa servir de mensagem para nós todos.

“Queria que fôssemos capazes desse antagonis­mo cordial, de uma inimizade educada. Isso sempre existiu, especialmente em comunidades pequenas, no Japão ou em outras partes do mundo.

O que me choca hoje é que estamos entrando num período de um súbito extremismo, em que as pes­soas votam porque têm raiva de outro ou de uma ideia diferente da sua. ”

Não é isso o que se nota quando sem tomar co­nhecimento do que se pretende, já se começa a con­testar? Quando pessoas ditas escolarizadas incitam outras, facilmente manipuláveis, a atitudes insensatas e até ilícitas?

O que explica o gesto aparentemente insano de um pai que mata o filho por não querer que ele par­ticipe da invasão de sua faculdade? Ou de um ame­ricano que mata três filhos brasileiros? E o que falar de cunhado que mata a irmã da mulher, ex-marido ciumento a assassinar ex-esposa que já fugira dele e tantos outros gestos que evidenciam angústia, dese­quilíbrio e completa perda de uma serenidade sem a qual não se consegue aturar a crueldade da vida?

Todo aquele que não perdeu ainda a razão preci­sa se compenetrar de que gestos simples podem tran­quilizar aquele que estiver prestes a cometer um ato do qual, se sobreviver, muito se arrependerá.

Paz para o Brasil, a urgência mais urgente deste ano.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 19/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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A natureza precisa de nós

A Humanidade tem sido cruel com a nature­za. Por inúmeras causas, destacando-se a cupidez e a ignorância, dela temos nos servido como se fora um enorme shopping center gratuito. Apoderamo-nos de tudo o que pode ser convertido em cifrão e não nos preocupamos com repor o tesouro que não fomos nós que produzimos.

Um dos países mais providos de água doce em todo o planeta, não soubemos preservar esse patrimônio. A ocupação desenfreada do solo, o desmatamento, a destinação das cidades para o automóvel, não para as pessoas, tudo contribuiu para redução drástica da quantidade de água disponível.

A conurbação paulistana é um exemplo emblemático. Centenas de riachos e córregos afluíam aos três grandes rios – Tietê, Pinheiros e Tamanduateí – mas o ser humano os enterrou. Cobriu o espaço com asfalto. Os grandes cursos d’água foram poluídos e passaram a ser meio de transporte para dejetos, resí­duos sólidos e tudo aquilo que a sociedade consumista costuma descartar.

Não é fácil refazer o caminho de volta. Impossível recompor o ambiente, fazendo-o retornar à fase anterior à devastação. Mesmo assim, é importante que se tente atenuar a situação de carência extrema de água potável. Um dos projetos importantes no setor é o Programa “Nascentes”, que envolve parceiros de diversos setores, capitaneados pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Dentre as iniciativas levadas a efeito nesse pro­grama, destacam-se a atuação da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais – CBRN, encarregada de realizar pesquisa em silvicultura de espé­cies nativas e hidrologia florestal desenvolvidas pela Esalq, na Estação Experimental de Itatinga. O Insti­tuto de Botânica realiza estudos de quantificação de carbono assimilado em florestas em restauração no Parque Estadual Aguapeí. A Fundação para a Conser­vação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo procedeu a restauração ecológica em 140 hectares por meio da técnica de plantio em área total no Parque Estadual Aguapeí, para compensação das emissões de CO2 da operação dos Jogos Olímpicos em São Paulo.

Por sua vez, a Sabesp cuida do repovoamento vegetal e recuperação da faixa de área de preservação permanente, na área da Represa Taiaçupeba e proje­ta a restauração de áreas às margens do Reservatório Cachoeira. O Itesp, Instituto de Terras de São Pau­lo recupera ambientalmente as áreas de preservação permanente em assentamentos estaduais, enquanto a Secretaria de Agricultura e Abastecimento recupera estradas e áreas com degradação do solo nas propriedades rurais da bacia hidrográfica do Rio Pardo. Me­diante utilização do FID – Fundo de Interesses Difu­sos, executa-se a implementação do Parque Ambiental Ecológico de Lazer das Nascentes do Panaro. Dentro do Parque Itaberaba, a Dersa restaura ecologicamente, mediante plantio adensado e manejo de espécies exó­ticas, o interior do Parque Itaberaba, em Santa Isabel. Procede a operação análoga no Núcleo Santa Virgínia, em São Luiz do Paraitinga.

O Departamento Hidroviário projeta plantio compensatório das obras do Canal de Anhembi e o DER concretiza o Programa de Recuperação Ambien­tal com vistas a promover maior ganho ambiental com a formação de corredores de conectividade e interliga­ção de fragmentos florestais.

A Artesp desenvolve projetos de restauração ecológica mediante cumprimento de Termos de Com­promisso de Recuperação Ambiental firmados no âmbito dos processos de licenciamento dos empreendi­mentos de concessões de rodovias e faz o mesmo em relação à concessão de saneamento e energia.

À Secretaria da Educação incumbe explorar o eixo Comunicação e Formação Continuada, para que primeiramente a comunidade escolar e, em seguida, toda a sociedade, possa conhecer a abrangente expe­riência e, melhor do que isso, participar desse impor­tantíssimo Programa.

Quatro milhões de alunos da Rede Pública Es­colar do Estado podem fazer a diferença ao se inte­ressarem pelo Programa Nascentes. Não há quem não possa colher sementes, fazer mudas, plantá-las – de preferência em locais que já hospedaram vegetação, sobretudo nas margens dos cursos d’água que resis­tiram à sanha assassina da única espécie racional que vive sobre a Terra. Uma conscientização de seus pais e demais familiares também seria importante para refazer o que destruímos e continuamos a destruir, de forma contínua e inclemente.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 20/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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A única missão

Qual a finalidade da existência? Por que se vive? A vida tem sentido? Essa indagação pode variar, mas é uma constante em várias fases da vida e em muitas faixas etárias. Para Morris Schwartz, o mais importante na vida é aprender a dar amor e recebê-lo. Deixar o amor vir. Pensamos que não merecemos amor; pensamos que se nos dermos a ele, nos enfraqueceremos. Porém, quando se aprende a amar, aprende-se a viver.

Em qualquer idade! Envelhecer não é só decair fisicamente. É crescer. Quem encontra um sentido para a vida não deseja voltar atrás. Deseja ir em frente. Quer ver mais, quer fazer mais. Para dar sentido à vida, dedique-se a amar os outros. Dedique-se a amar os outros. Dedique-se à sua comunidade. Empenhe-se em criar alguma coisa que dê sentido e significado à sua vida. Doar-me aos outros é o que me faz sentir vivo. Faça aquilo que vem do coração. Isso não depende de estímulo externo. A chave está na própria consciência. Depende apenas de cada um de nós. Uma postura menos egoísta e menos derrotista pode ressignificar todas as fases da existência e, principalmente, a velhice. Os gregos tinham o conceito “Kairós” e hoje temos de repensar “Kairós”: o tempo vivido é o tempo da experiência. O tempo do aprendizado. Todos temos condições de nos tornarmos, em qualquer fase, um novo ser, que continua a construir sua história. Envelhecer e viver são processos indissociáveis. A alternativa a envelhecer é muito dolorosa: morrer jovem.

A velhice é uma categoria cultural. Há quem continue a pensar e a agir como se o velho fosse alguém desprovido de utilidade. Por isso, o lugar do velho é sua casa. Ou, preferivelmente, uma casa de repouso. Mas há novos paradigmas para o idoso. Avanços da neurociência, a plasticidade cerebral, a regeneração do cérebro. Conceber a velhice como período de novas aquisições. Há velhices bem-sucedidas. Basta saber que é possível fazer novos neurônios até o final da vida. É algo comprovado pela ciência. O velho que ama, na verdade, ainda não é velho. Ao contrário, o jovem que não ama, este sim, é um idoso sem remédio prescritível.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 19/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Saudável iniciação política

Os Grêmios Estudantis consti­tuem a alternativa mais eficiente de treinar a infância e a juventude para um convívio social saudável. As elei­ções propiciam a elaboração de metas e objetivos, o exercício da persuasão, a oportunidade de ouvir sugestões e de obter consensos.

Meu testemunho é modesto, mas pode sugerir alguma coisa. No Ginásio Divino Salvador, fui presi­dente do GEDIS, Grêmio Estudantil Divino Salvador e aprendi muito no trabalho comunitário, na cooperação, na obtenção de atenção por parte dos adultos.

Quando universitário, presidi a AUJ – Associação do Universitário Jundiaiense e foi outro belo apren­dizado. Disputei eleições no Dire­tório Acadêmico XVI de Abril, na PUC-Campinas e perdi, mas ganhei novamente em experiência.

Fui eleito membro da Apama­gis – Associação Paulista de Magis­trados em disputada eleição.

Fui o mais votado para o Conselho.

Por isso é que sou adepto dessa iniciação adequada. Agora, na Se­cretaria Estadual da Educação, esti­mulo todas as escolas a que levem a sério o ritual da eleição e deem voz ativa a seus Grêmios Estudan­tis. Tenho comparecido às posses e aos eventos que eles realizam. E fico feliz quando tenho a notícia de que o Grêmio “Força Jovem”, da Escola Estadual Rubens de Oliveira Camar­go, de Rubinéia, ganhou o primeiro lugar no Prêmio “Construindo a Na­ção” 2016, ora em sua 16ª edição. Esse prêmio é iniciativa do Instituto da Cidadania Brasil e destinado às agremiações estudantis que desen­volvem práticas de cidadania que beneficiem suas comunidades. Este ano houve a participação de 524 Grêmios Estudantis de 22 Estados brasileiros e São Paulo se destacou pelo volume de inscrições e pela qualidade de projetos.

Esse é o treino mais adequa­do e mais saudável para o exercí­cio da cidadania. Fazer algo tangí­vel, benéfico e construtivo. Essa é a mocidade que liderará o Brasil nos próximos anos. Nossa obriga­ção é incentivá-la e mostrar que o País precisa de gente séria, que estude e que trabalhe. Ainda não há outra fórmula de atingir o que se espera senão mediante esforço, iniciativa, sacrifício, responsabili­dade e entusiasmo.

Parabéns gremistas atuantes e patriotas! O Brasil se orgulha de vocês!

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 15/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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FOTO: Diogo Moreira/A2IMG


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O que eu tenho com isso?

As rebeliões em presídio não podem ser consi­deradas um caso fortuito. Lembram mais a crônica de mortes anunciadas. Superlotar espaços que são edifi­cados para abrigar metade ou até um terço do número de ocupantes só pode acabar em carnificina. Afinal, os reclusos são seres humanos que se consideram in­justiçados, têm ressentimento e quando submetidos a disciplina rígida e a condições desfavoráveis, liberam mecanismos instintivos de violência reprimida.

A recorrência de episódios tais deveria servir para uma profunda reflexão coletiva. Quem está dis­pensado de pensar a respeito e de procurar pistas de fórmulas racionais de enfrentamento do assunto?

Ninguém está excluído desse debate. Primeiro, porque é um tema de interesse nacional e se não for adequadamente equacionado, interferirá na vida de to­dos os residentes no Brasil. Em seguida, porque a de­linquência é um fenômeno social, não é um problema exclusivo do governo. Aos poucos, fomos produzindo as condições favoráveis ao surgimento de uma crimi­nalidade precoce, cada vez mais intensa.

A experiência evidencia que o delito é praticado pelos jovens. Se conseguíssemos conscientizar os mo­ços de 15 a 24 anos de que há outros caminhos a se­guir para a consecução dos objetivos existenciais que não o crime, cerca de 80% do flagelo da delinquência estariam debelados.

Por que chegamos a esse ponto?

Há um conjunto de causas. A primeira é o de­clínio dos valores. Honestidade, probidade, seriedade, lisura e outras virtudes encontram-se muito despresti­giadas. Disseminou-se uma percepção de que não vale a pena sacrificar-se ou passar necessidades. A vida é breve e precisa ser curtida.

As instituições que auxiliavam a blindagem da criança e do jovem, protegendo-o da peste do mal, fo­ram aos poucos perdendo força. Família era um nú­cleo formador do caráter, de transmissão dos atributos caracterizadores da pessoa de bem, escola de disci­plina e de trabalho. Pais exerciam autoridade e, infe­lizmente, o conceito passou a significar autoritarismo. Corrigir passou a representar opressão. O Brasil edi­tou a “lei da palmada”, consequência de se encarar a repreensão como intolerável forma de traumatismo do ser educando.

A Igreja – seja qual for a confissão religiosa – flexibilizou-se para não ser de todo relegada. Acon­teceu no mundo inteiro. É uma tristeza verificar na Europa Continental que inúmeros templos, repositó­rios arquitetônicos e históricos que acolheram emo­cionantes manifestações de fé, hoje servem a outras finalidades. Foram transformadas em boates, bares, casas de comércio, quando não mereceram destino menos nobre.

A escola foi perdendo prestígio. Não acompa­nhou a profunda mutação dos costumes e foi de lon­ge superada pelo avanço tecnológico. Vivencia-se a quarta ou quinta Revolução Industrial e a sala de aula continua, em tese, com o mesmo design.

Qualquer modificação do sistema encontra óbi­ces, naturais quando se considera a força da inércia, mas também ditados por interesses setoriais, nem sempre vinculados ao bem comum.

A constatação é cruel: a sociedade está enferma. Encarcera o infrator jovem que ela mesma produziu e descumpre a obrigação de ressocializá-lo para que sua reinserção no meio social se faça de maneira tranquila.

Não chega a um acordo sobre o que fazer com essa população carcerária que só cresce. Construir mais presídios? Continuar a sustentar esse equipa­mento em que cada unidade onera o orçamento pú­blico mais do que o dobro do custo de uma escola de qualidade?

A cidadania está com esse desafio em seu colo: o que fazer com a questão carcerária? Chegar-se-á a um consenso neste momento em que a percepção ge­neralizada é a de que só existe um consenso no Brasil: a mais absoluta falta de consenso?

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 13/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Fratura do material

Aquilo que está acontecendo no mundo e o Bra­sil nele incluído é objeto de reflexão de pensadores que merecem atenção. O estudioso Philippe Schmit­ter, professor emérito do Departamento de Ciência Política e Social do Instituto Universitário Europeu e autor da obra “Transições de Regimes Autoritários – Conclusões Preliminares sobre Democracias Incer­tas”, esteve no Brasil na semana pós-Trump.

Sua leitura é a mesma de outros pensadores que analisam a situação e pode trazer luz sobre fenôme­nos que outros estranham, sofrem as consequências e não conseguem explicar. É que estamos numa fase em que os novos conceitos “torpedeiam os antigos e, nesse processo, as pessoas perdem a noção de per­tencimento a um grupo estabelecido”. As pessoas se sentem isoladas e manipuladas. É uma combinação de isolamento com ressentimento.

Quem é que não percebeu uma desconfiança generalizada nas instituições políticas? Não é apenas a corrupção endêmica. É um cansaço evidente, uma “fratura do material” político-partidária. O remédio era a comunicação direta com as categorias profissio­nais, com as associações de bairros, com a chamada “sociedade civil”. Mas ela hoje, segundo Schmitter, “está em declínio”. Tanto que as manifestações coleti­vas são o produto da sensação de anomia. São difusas e fluidas. Não têm organização, o que inviabiliza di­álogo ou negociação. Não deixam traço, a não ser as depredações, destruição de patrimônio público e pri­vado e sensação de desordem.

Os partidos políticos, para Philippe Schmitter, não conseguirão reverter o quadro: “acho que eles estão mortos. São um instrumento de representação ineficaz. Há uma pulverização de candidatos em mais partidos ou então os políticos fingem que não são de partido nenhum”.

O remédio seria enfatizar a participação dos ci­dadãos. Estes precisam se articular e lembrar que a promessa do constituinte foi a Democracia Participa­tiva. E também fortalecer as instituições guardiãs. Fa­mília, escola e igreja, principalmente, são chamadas a um protagonismo salvífico. Sem isso, o risco de um populismo de consequências nefastas não está longe do horizonte no Brasil e no restante do mundo.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 12/01/2017


JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Educação resolve tudo

Este 2017 começou tumultuado com rebeliões e mortes em presídios. Não é surpresa, diante da crônica superlotação nas penitenciárias brasileiras. Há muitas lições a se extrair das tragédias. Se a política pública persistir na cultura do encarceramento geral e irrestrito, então é urgente multiplicar o número de estabelecimentos prisionais. Não é a solução mais singela, nem a menos dispendiosa. Há opções. Priorizar segregação apenas para quem deve ficar segregado. Não são todos os crimes que implicam em privação de liberdade. Privar de outras coisas pode doer mais. De dinheiro, de patrimônio, de frequentar certos lugares. Impor o trabalho como escarmento é muito mais doloroso do que trancafiar uma pessoa e deixa-la desocupada e dispensada de produzir.

Também é bom retomar projetos como estimulados pelo Ministro Gilmar Mendes, quando presidente do STF e do CNJ. Começar de novo, formação profissional, reinserção efetiva e viável, pois a pena cumpriria essa função imprescindível de resgatar o indivíduo para a licitude e o convívio social. A Igreja Católica tem uma Pastoral Carcerária importante. Assim como sistemas que foram banidos mas funcionam em Minas Gerais, como a APAC- Associação de Proteção e Assistência Carcerária. Iniciativas tópicas também existem. Mas é preciso que a sociedade inteira se engaje nessa missão que é dela. Sim. É dela, a mesma sociedade que não está sabendo prevenir a criminalidade, fenômeno precoce. Se tivéssemos uma rede protetiva da juventude entre 15 e 24 anos, eliminaríamos 90% dos problemas.

E é responsabilidade também da sociedade, sim. Não se diga que apenas do governo. Este é um coordenador de políticas públicas escolhidas pelo povo quando elege seus representantes. O que não dispensa o eleitor de fiscalizar, de opinar, de corrigir e de reclamar atitudes mais compatíveis com aquilo que ela espera de seu representante. O representado não tem o direito de permanecer inerte se o representante não atende às suas expectativas. Essa a características da democracia, sistema que escolhemos e ao qual precisamos ser fiéis.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 12/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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