Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Meus mortos vivem em mim

Tenho sentido cada vez mais falta de meus mortos. E minha coleção aumenta sem cessar. Por experimentar a morte dos avós, na verdade pouco sentidas a não ser a partida de minha avó materna, que me mimava demais, não era estranho o contato com o desaparecimento de seres próximos. Também nunca hesitei em estar presente nos velórios, nos sepultamentos e de acompanhar meus pais – principalmente minha mãe – às contínuas visitas ao cemitério.

A morte do irmão já é um baque mais forte. Mais novo, mais generoso, até mais querido por meu pai. Mas havia o colo da mãe. Depois vem a morte do pai, que fora redescoberto em sua ternura, pois teve de canalizar o carinho nos outros filhos quando perdeu o favorito. Houve ainda uma vez o colo da mãe.

Quando ela se foi, não houve mais colo. E, na sequência, tanta gente querida, tanta gente próxima. Parece que já não há com quem conversar. Resta o diálogo impossível, qual monólogo patético, em que se imagina falar – pois em silêncio – e se imagina a resposta que o ausente daria. Subsistem as dúvidas. Por que não dão sinais? A intimidade desapareceu de vez? Onde foram parar a individualidade, o sofrimento, os sonhos e angústias. E onde foi parar o amor que nos nutríamos? Foi-se de vez?

Leio Paul Ricoeur, em “Vivo até a morte” e ele não auxilia o enfrentamento com o ignorado: “Há primeiro o encontro da morte de outro ser querido, de outros desconhecidos. Alguém desapareceu”.

Uma questão surge e ressurge obstinadamente: ele ainda existe? Onde? Em que outro lugar? Sob que forma invisível aos nossos olhos? Visível de outro modo? Essa questão liga à morte ao morto, aos mortos. É uma questão de vi-vos, talvez de sadios, direi mais adiante.

A questão “Que tipo de seres são os mortos? ” é tão insistente que mesmo em nossas sociedades secularizadas não sabemos o que fazer dos mortos, isto é, dos cadáveres… Não nos desfazemos dos mortos, nunca nos livramos deles.

Nem quero me livrar de meus queridos. Acompanham-me. Fazem parte de mim. É por isso que a partida deles me deixa mutilado. Só morrerão de verdade quando me esquecer deles. Enquanto tiver consciência, isso nunca acontecerá.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 24/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Investimento em educação

No ano de 2015, as receitas efetivas com despesas educacionais em São Paulo importaram em R$ 30.873.164.048,99, para um número de 3.953.859 alunos matriculados na educação básica, de acordo com o censo escolar. A receita per capita efetiva de São Paulo importou em R$ 7.808,36, a segunda maior do Brasil, somente superada pelo Rio de Janeiro. Ali o investimento é consideravelmente menor – R% 8.544.129.399,14 e também inferior o número de alunos: 772.773, o que garantiu um per capita de R$ 11.056,45.

Verificou-se, nos últimos meses – de novembro de 2014 a maio de 2017 – violenta queda de arrecadação. O ICMS caiu 37,08% no período, de acordo com o Confaz – Secretaria do Tesouro Nacional e Secretaria da Receita Federal do Brasil.

Uma pesquisa levada a efeito pelos professores Ursula Dias Peres e Rogério M.Limonti Tibúrcio fez o mapeamento das receitas das Unidades Federativas e o cálculo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino- MDE. Embora a Constituição da República determine aplicação de 25% das receitas resultantes dos impostos e transferências dos Estados e Distrito Federal em educação, São Paulo está entre as unidades da Federação cuja Constituição impõe investimento de 30%.

Além dos recursos com a Manutenção e Desenvolvimento do Ensino, para se entender o total de recursos disponíveis para a Educação Básica é preciso incluir aquilo que provém do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – Fundeb,a complementação da União ao Fundeb, a cota-parte do salário educação e as demais transferências do FNDE. O resultado líquido com o Fundeb reflete a diferença entre o que o Estado destinou a este Fundo e o que realmente dele recebe. Em resumo, consiste na destinação de 20% dos impostos e transferências correntes vinculados à MDE para o Fundeb e o retorno de recursos conforme o número de matrículas nos Ensinos Fundamental e Médio.

Nessa redistribuição de meios financeiros, todos os Estados apresentaram resultado negativo. Em consequência, o volume de recursos disponíveis aos Municípios recebeu acréscimo, ou seja, todos os Estados têm transferido recursos às cidades por meio do Fundeb.

Tal constatação resulta de três efeitos: a) os Estados têm arrecadação maior do que o conjunto dos Municípios; b) os impostos de competência municipal, como o IPTU e o ISS, que são representativos nas capitais, não são contabilizados para efeito do Fundeb e c) os Estados têm número de matrículas inferior ao dos Municípios.

Em São Paulo, a principal fonte de receita é o ICMS. Em 2015, a arrecadação nominal chegou a R$ 44.662.950.000,00, o que representa 80,6% do montante tributário. São Paulo não recebe da União os valores correspondentes ao que envia ao Fundeb. Enquanto em 2015 a dedução de recursos chegou a 20.737.57 milhões, a transferência do Fundeb foi de 15.802.44 milhões de reais, o que equivale a um prejuízo de 4.935.13 milhões.

Enquanto isso, Estados como o Pará, a Bahia, Maranhão,Ceará e Amazonas, tiveram complementação da União correspondente a 816,25, 794,77, 663,52, 389,50 e 326,66 milhões de reais, respectivamente.

No momento de revisão de todas as estratégias, políticas públicas, estruturas e concepções do Brasil real, em cotejo com o Brasil ideal, é importante que as lideranças lúcidas redesenhem a Federação. Novo pacto federativo se mostra urgente, pois São Paulo não pode continuar a ser desconsiderado em suas necessidades, quando é a unidade federativa que mais contribui para o sustento da máquina pública. Nem sempre módica nos seus gastos, nem sempre contida na criação de instâncias que deveriam ser de controle, mas que se tornam em sorvedouros do suado dinheiro do povo.

Educação merece respeito e os números de São Paulo não permitem que ele seja maltratado na repartição das receitas. Mesmo porque, aqui se educam brasileiros e seres humanos de todas as plagas, pois o coração paulista continua aberto a quem queira vir e trabalhar pelo crescimento da Pátria, com ênfase para o desenvolvimento moral. Pois não há progresso se não for eticamente construído sobre uma base de valores tão esmaecida nos últimos tristes tempos.

Fonte: Correio Popular| Data: 22/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Foto: Milton Michida/A2 Fotografia


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Quer passar dos cem?

A longevidade é um fato. Fica velho quem quer. Ou, melhor ainda, há pessoas que nascem velhas. Desiludidas, desencantadas da vida, infelizes. Só esperam a hora da partida…. Não é o que acontece com quem vibra com a vida, considera essa dádiva um milagre e fica satisfeito por nutri-la com ânimo e vontade.

O sonho de muita gente é deixar a cidade grande e terminar seus dias na tranquilidade do interior. Mas isso pode não corresponder à realidade.

O arquiteto alemão Matthias Hollwich, que escreveu “New Aging” (Novo Envelhecimento), defende o “Love Living”, ou o Amar Viver. Para isso, há três passos: seja social, seja saudável e faça atividades com significado.

Para atingir a plenitude da existência, todos precisamos de amigos, família e pessoas ao nosso redor. Somente juntos criamos significado para nossa vida. Para ser saudável, é preciso cuidar de si. Do corpo e da mente. Fazer exercício. Manter-se em forma. Não é apenas frequentar a academia. É exercitar-se continuamente. Por exemplo: subir escadas. Fazer alongamento quando possível. Beber muita água. Apresentar-se condignamente, pois não se usa roupa apenas para cobrir as intimidades. O vestuário nos apresenta aos outros. Muito do que se pensa a nosso respeito deriva de nossa aparência e de nossas roupas.

Entreter-se é outra coisa essencial. Cada um gosta de uma coisa.

Mas não há pessoa que não goste de nada. Essa está fora do mundo. Ou excluiu-se do convívio, o que não é saudável.

Há tanto a ser feito. Por que não nos dedicamos a ajudar alguém? A ajudar uma criança a ler melhor? A dar aulas de reforço? A coletar sementes e fazer mudas para substituir a vegetação que é destruída de forma cruel a cada momento?

Ler, fotografar, visitar alguém que não tem companhia. Há milhares de locais que podem ser visitados gratuitamente. Escrever. Pode ser carta, pode ser poesia, ensaio, conto, romance. Ou pode ser a conversação eletrônica, hoje viabilizada pelos inúmeros instrumentos das tecnologias da informação e da comunicação ao nosso alcance. E-mails, WhatsApp, twitter, seja o que for. Comunique-se.

Partilhe suas alegrias e tristeza. De repente, distraidamente, você chegará aos cem anos.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 21/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Estudantes da  escola estadual Professora Terezinha Sartori  leem cartas produzidas em sala de aula aos idosos da Casa de Repousos Tempo Dourados, em Mauá.

Foto: José Luis da Conceição/A2FOTOGRAFIA/ 2014


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Profissões descartáveis?

A inteligência artificial vai mudar ainda mais o mundo. Já está mudando, o que nem todos percebem. Um jovem francês resolveu criar a empresa “Wonderlegal”. Resolve problemas jurídicos para evitar a judicialização. Já está em nove países, cresce 400% ao ano e seu melhor advogado é um computador!

Catalogar todas as opções mais rotineiras de questionamentos e tentar respondê-los, faz com que o cérebro da máquina seja mais rápido e eficiente do que o humano. Aquilo que já está acontecendo com a burocracia, vai chegar a outros campos. Os setores de extrema regulamentação ganham bastante com o uso do BI, o Business Intelligence. São as “machine learning”, as máquinas capazes de aprender, que estão hoje atendendo às reclamações no setor de telecomunicações. Logo em seguida estão os Bancos e em terceiro as seguradoras.

O atendimento é tão perfeito que as pessoas humanas atendidas chegam a conversar com a máquina e a desejar a ela bom dia, agradecer pela gentileza e formular votos que não formularia se soubesse que o sistema é artificial.

A elaboração de contratos também é um nicho que está atendendo a muitos interesses. O sistema de inteligência artificial no J.P.Morgan chega a interpretar doze mil contratos de empréstimos comerciais por ano, reduzindo as 360 mil horas despendidas por advogados e analistas de crédito. Há menos erro no processo administrativo, pois o erro, em regra, é humano.

Documentos completos são checados em alguns segundos. Também se paga seguro mais rapidamente com a inteligência artificial. O sistema dispensa a intervenção humana e o prazo para o pagamento do seguro passa de quinze para três dias. Há um campo imenso aberto para a inteligência artificial. Os humanos que se cuidem e tratem de ser criativos, engenhosos e aptos para que muitas profissões não sejam descartadas, sem que a “era do ócio” tenha chegado para que só desfrutemos do lazer, do prazer e do deleite.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 21/09/2017

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Jundiaí mantém o foco

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo divide-se administrativamente em 91 diretorias de ensino, geridas por dirigentes do quadro de pessoal dessa gigantesca e complexa estrutura. São cerca de 400 mil pessoas na folha de pagamento, à frente de mais de 5 mil escolas estaduais que atendem a uma clientela aproximada de 4 milhões de alunos.

Em Jundiaí, a diretoria de ensino desenvolveu em 2016 uma ação formativa denominada “Mantenha o Foco”, a partir da plataforma “Foco Aprendizagem”, com vistas ao nivelamento do aprendizado. Os “olhares” da gestão contemplaram inicialmente a própria escola, em segundo o documento orientador da Coordenadoria do Ensino Básico, fundada no trabalho com reforço e recuperação. O terceiro olhar foi para os resultados internos, com análise crítica das avaliações, interpretação de dados, criação de indicadores e proposta de intervenções ou aprofundamento das habilidades.

O quarto olhar mirou a avaliação da aprendizagem em processo, que bimestralmente auxilia a elaboração de diagnóstico e a adoção de estratégias. O quinto olhar é para o currículo, o sexto para as matrizes de avaliação processual, o sétimo para o Saresp (Sistema de Avaliação Anual da Secretaria), o oitavo para o Plano de Ação da Escola e o nono para o fluxo.

Em 2017, o projeto continua, agora com a exploração dos simuladores de desempenho e fluxo, com aprimoramento da metodologia e experiências propostas pela experiência levada a efeito em 2016. O acompanhamento do currículo oficial por meio de observação de sala de aula foi outro plano bem-sucedido, a partir da definição do tema em 2016: “Ser professor coordenador na escola pública estadual em 2016”. Houve observação pessoal de 756 aulas ao longo do ano, com redação pelo professor coordenador do Núcleo Pedagógico de um Termo de Acompanhamento, contendo orientações ao docente e ao professor coordenador.

A Olimpíada Estudantil Astra de Matemática é outro diferencial jundiaiense, iniciado em 1996 e destinada a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. É excelente instrumento de avaliação externa, indicador de diagnóstico, redirecionamento de ações pedagógicas, aproximação do alunado de uma empresa tradicional da cidade e participação efetiva do processo seletivo de seus quadros.

Incrementou-se importante diálogo com os grêmios estudantis e o protagonismo da juventude entusiasma os vários quadros da Educação. A coleta de informações entre escolas e Diretoria de Ensino – informatizada e em tempo real – evidencia a aproximação da Rede com a mais contemporânea das tecnologias, que é a de informação e comunicação, para o contínuo aprimoramento da qualidade do ensino/aprendizado oferecido ao estudante jundiaiense, paulista e brasileiro.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 17/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Foto: Daniel Guimarães/A2IMG


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Vou aprender em casa

O mundo inteiro debate a questão da educação, única chave capaz de transformar o panorama desalentador dos esquemas atuais de preparação de novas gerações. Para os que são atentos, há sinais de grave contaminação da estratégia utilizada para a formação dos quadros humanos que assumirão os desafios do amanhã. A educação convencional nem sempre atende às expectativas do alunado e, menos ainda, as necessidades universais.

O jovem é aquele que mais se ressente do anacronismo das aulas convencionais. Ainda prelecionais, o detentor do conhecimento dissertando e o auditório imobilizado, sentado em fileiras imutáveis, sem possibilidade de interação e, menos ainda, de individualização do aprendizado. Daí a crescente e indomável evasão do aluno de Ensino Médio.

Aqueles mais inconformados adotam o “homeschooling”, o ensino dentro de casa. 63 países aprovam essa modalidade, no reconhecimento de que é uma opção da família e a liberdade é o primeiro dentre os direitos fundamentais. No Brasil essa permissão não existe, o que não impede a atuação da Associação Nacional de Educação Domiciliar – ANED. Cerca de 3,2 mil famílias fazem parte dela. Aqui, a matrícula na rede regular de ensino é obrigatória e a assiduidade do aluno um dever dos pais. Desistir da escolarização pode até caracterizar um crime: abandono intelectual.

Enquanto se debate a inadiável adoção do método, alinham-se argumentos favoráveis e contrários. Na primeira vertente, a autonomia e prazer pelo aprendizado. Não existe obrigação, nem dever de casa, nem disciplina. Nem uniforme, nem deslocamento. Para muitos, significa também economia. Para os detratores, a criança fica privada do processo de socialização. Não convive, não aprende a se submeter a regras de convivência. Tende a se isolar e a se converter-se em alguém deslocado no amanhã.

Os países que adotam a prática não dispensam a visita de fiscais que examinam o progresso no aprendizado e avaliam se a criança está recebendo a carga mínima de conhecimento, que propicie acompanhamento paralelo à do aluno escolar tradicional.

Talvez se possa chegar ao ideal de um ecletismo. Que tal os pais e demais familiares se interessarem efetivamente pelo aprendizado de nossas crianças e acompanharem o desenvolvimento do educando, incentivando-o e propondo tarefas sedutoras, atraentes e hábeis a evidenciar que aprender é mais do que útil e necessário: é prazeroso?

Vive-se um momento em que se constata evidente deficiência nos esquemas formais de ensino. Seja na rede pública, seja na particular, nossas crianças – em regra – não apresentam desempenho excepcional. É preciso alavancar a aprendizagem e fazer uso racional e inteligente das tecnologias da informação e comunicação disponíveis. O conhecimento nunca foi tão acessível e tão completo como hoje. Oferecer tal acervo mágico às nossas crianças e jovens é cuidar com carinho do porvir nacional. Vamos completar a árdua missão da escola convencional com o papel fundamental e criativo dos pais, demais familiares e pessoas de boa vontade, que podem contribuir para a verdadeira revolução na educação brasileira. Cuja urgência está a clamar por socorro e precisa de todos nós. Sem exceção, qualquer pessoa tem condições de integrar esse processo de verdadeira salvação nacional.

Fonte: Correio Popular| Data: 15/09/2017

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power and controoool I will make you faaaalll


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Pobre ambiente

O Brasil continua a desprezar seu maior patrimônio: a natureza. Uma série de más notícias confirma a sensação que os mais conscientes e sensíveis há muito alimentam: não se respeita aquilo que deveria ser preservado para que a vida no planeta pudesse prosseguir.

O “Cadastro Rural”, subproduto da revogação do Código Florestal, não inibe desmate nem incentiva restauro. Ao contrário, os proprietários que se cadastraram se sentem confortáveis em continuar desmatando e em não recuperar as áreas desmatadas.

Isso foi apurado num estudo da revista científica “PNAS”, que se baseou em 49.669 propriedades rurais entre 2008 e 2013. É que não existe monitoramento, não existe fiscalização e continua tudo ao sabor da insensibilidade de quem só enxerga lucro na árvore derrubada.

Para completar o quadro tétrico, uma área de 47 mil quilômetros quadrados na Amazônia, que dizem ser rica em cobre e outros minerais, pode ser explorada pela iniciativa privada. Foi editado um decreto extinguindo a Reserva Nacional do Cobre e Associados – Renca -, área equivalente ao território do estado do Espírito Santo.

É evidente que foi mais um golpe nas áreas protegidas, que agora estão sujeitas à sanha do ruralismo inclemente. Os danos ultrapassam os moradores da região. Haverá exploração demográfica, desmatamento, perda da biodiversidade e comprometimento dos recursos hídricos. Sem falar no acirramento dos conflitos fundiários e ameaça ao que resta dos povos indígenas e populações tradicionais.

Essa reserva foi criada em 24 de fevereiro de 1984 e agora é entregue à cegueira inconsequente de quem destrói tudo o que é verde. Não que ela estivesse preservada assim como se encontrava quando Portugal começou sua colonização. Uma pesquisa do WWF-Brasil e do ICMBio indica que no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e na Flona (Floresta Nacional do Amapá), em 81% dos espécimes investigados há contaminação por mercúrio.

Isso decorre do processo de extração de ouro, que já envenenou os peixes da região. Foram analisados 187 peixes, coletados em 33 locais. Estavam contaminados por mercúrio 151 deles.

Parece não haver saída para a natureza que foi ocupada por uma espécie daninha e insensata, chamada ser humano.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 14/09/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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