Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Subsidiariedade urgente

O princípio da subsidiariedade é uma das alavancas mais eficazes de transformação da sociedade. Parte do pressuposto de que a criatura racional seja capaz de resolver grande parcela dos problemas existenciais, sem ter por si a tutela de um responsável. Seres plenamente capazes, não acometidos de sério comprometimento mental, ostentam condições de superação das dificuldades postas no caminho de todo vivente.

Embora às vezes o paternalismo pareça adequado, na verdade ele cria dependência e reduz a dimensão humana em sua integral potencialidade.
Quem precisa de tutor é o incapaz, seja menor ou o maior desprovido de condições de autogestão de sua vida. Todos os normais podem ser orientados, estimulados, assistidos em suas necessidades excepcionais.

Mas o caminho verdadeiro é prover as pessoas de espírito de iniciativa, de vontade firme e deliberada para o enfrentamento das vicissitudes. Estas surgem como fatos naturais para quem está vivo e precisa conviver. Mas permanecer sob a tutela permanente, sem o preparo no sentido da autonomia, não parece digno das criaturas inteligentes.

A Igreja sempre postulou observância ao princípio da subsidiariedade, pois a base do cristianismo é reconhecer que todos os humanos são iguais em dignidade, pois igualmente filhos de Deus. Não há ninguém melhor.

A preferência aos hipossuficientes foi lição do próprio Cristo, no clássico discurso das bem-aventuranças. Ali está presente a hierarquia cristã em toda a sua explicitude. Mas a vocação das criaturas é crescer, continuamente, até se possa atingir a plenitude das potencialidades. Pois o destino dos homens é a perfectibilidade.

Como seria bom se os mais providos de clarividência amparassem os menos providos até se conseguisse a possível equanimidade. Se cada alfabetizado adotasse por missão alfabetizar um analfabeto. E isso vale para outros analfabetismos: o monoglota, analfabeto idiomático; o jejuno em informática, analfabeto digital. O revoltado, analfabeto em tolerância. O irado, analfabeto em convívio harmônico.

Depender é uma situação que só pode ser encarada como transitória, até se alcance o estágio da autonomia. Direito de todos e dever da sociedade.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 28/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Conhecer-se melhor

A máxima socrática “Conhece-te a ti mesmo” continua a ser poderoso instrumento de obtenção do equilíbrio. É um dos eixos do conceito de inteligência emocional, hoje mais interessante de se abordar do que o superado índice do quociente de inteligência. E por que a inteligência emocional se torna tema sedutor para todos, mas essencial para os educadores? Porque ele interfere na saúde física. Administrar angústia e estresse é algo que se aprende ao se autoconhecer. A inteligência emocional controla nossas atitudes e perspectivas de vida. Alivia a ansiedade, evita a depressão. Favorece adoção de atitudes positivas, auxilia detectar perspectivas menos sombrias, tão frequentes nos períodos de crise.

Investir na inteligência emocional propicia relacionamentos mais saudáveis. Quantos desencontros surgem da dificuldade de adequada comunicação dos sentimentos? Aprenderemos a conhecer melhor as pessoas, compreender suas necessidades, sentimentos e reações do outro. Com isso edificaremos relacionamentos mais consistentes, duradouros e satisfatórios. Instrumento valioso na resolução de conflitos, a inteligência emocional permite discernir as emoções das pessoas e atuar com empatia ao reconhecer seus pontos de vista. Em lugar do estranhamento, a abertura ao entendimento. Tudo isso representa verdadeiro crescimento da personalidade, pois aumenta a autoconfiança, incrementa a capacidade de identificar problemas, relativizá-los e solucioná-los sem estimular ressentimentos.

O mundo não precisa de mais agressividade. A vida é muito curta para ser encarada com rancor. A diversidade emocional de pessoas ameaçadas pelas vicissitudes de um presente incerto, sofredoras por antecipação diante de um futuro sombrio, aparentemente perdidas diante da falência dos valores, reclama alguns líderes que consigam preservar a serenidade. Construir pontes de relacionamento, abrir janelas de compreensão, acolher com o abraço fraterno é tudo o que o mundo espera do que restou de lucidez.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 28/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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O que governa o mundo

Para grande parte dos pensadores, o interesse é que governa o mundo. Mas há quem não pense assim. Shaftesbury, por exemplo, acredita que uma observação atenta descobrirá que paixão, humor, capricho, zelo, sectarismo e mil outras peças têm parte igualmente considerável nos movimentos do mecanismo.

Todas as ações da vontade têm causas particulares. Como identificá-las? A filosofia kantiana se baseava na convicção de que as ações humanas provinham de ponderação ética. A razão seria o instrumento de aferição entre os diversos sentimentos colidentes.

Já os chamados “filósofos da suspeita”, na linguagem de Luc Ferry, dentre os quais Nietzsche e Freud, adotam como princípio de análise o pressentimento de que, por trás das crenças tradicionais, que se pretendem nobres, puras e transcendentes, há sempre interesses escusos, escolhas inconscientes, verdades mais profundas e frequentemente inconfessáveis.

Na verdade, o ser humano só age por paixão. A razão seria escrava desse intenso sentimento que faz a roda do mundo girar. É o que se extrai de Rousseau, ao detectar que a vida em sociedade é o registro da busca de prover o necessário e então o supérfluo. Em seguida vêm as delícias, depois a riqueza, os súditos, os escravos. Não há um momento de descanso.

Quanto menos naturais e prementes as necessidades, mais aumentam as paixões e a vontade de satisfazê-las. Como se domestica uma paixão? Para Agostinho e Calvino, o Estado é o repressor das paixões. Mas como cumprir sua missão, se o governante é também movido por paixões? Reprimir paixões parte do pressuposto de que a ética se sobreponha aos impulsos.

Por isso é que o Estado é impotente para reprimir os instintos, as paixões e os desvarios. A alternativa é acreditar que a sociedade possa atuar como agente de transformação, como veículo civilizador, em lugar de ator da repressão. É por isso que a educação se torna o motor da conversão de uma coletividade movida por paixões, em uma sociedade que saiba se sacrificar para que o bem comum, o interesse coletivo ou a vontade da maioria seja respeitada.

Essa a crença que legitima a continuidade das políticas públicas: a fé, nem sempre inabalável, de que a sensatez prevaleça e afaste o descontrole, do qual só poderá resultar prejuízo para todos.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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A espiral da morte

Claudio Angelo é jornalista e durante 15 anos fez cinco viagens às regiões polares. Tudo o que viu tornou-o comprometido com o futuro do planeta, que estamos maltratando e que irá se vingar em nossos netos.

O nome do livro que escreveu é autoexplicativo: “A espiral da morte”. Não é catastrofismo, porém relato sóbrio, tranquilo e até bem humorado, sobre o que ocorre na Terra, em virtude do aquecimento global. Bilhões de toneladas de gelo acumulado ao longo de milênios derretem nos extremos do planeta.

Claudio chegou a ouvir o ruído de cachoeiras no derretimento das geleiras e tem certeza de que porções imensas de gelo despencarão no mar. O resultado é que o nível dos oceanos vai subir alguns metros. Em outros lugares, tufões e furacões serão ainda mais frequentes. Epidemias causadas por insetos não serão raras.

Por que é que não nos preocupamos com isso? Estamos ocupados a cuidar de nossa vidinha, da subsistência, das encrencas diuturnas do convívio. Não temos tempo de pensar no futuro. Continuamos a produzir resíduo sólido – eufemismo para o lixo – a desmatar, a construir, a asfaltar.

Quem é que se preocupou com a recomposição da mata ciliar? Será preciso outra crise hídrica, ainda mais grave, para nos convencer de que o remédio é reparar o mal que a humanidade causou ao seu habitat?

São Paulo é um exemplo nítido da insensatez humana. Centenas de córregos enterrados para dar lugar à passagem de automóveis. Três grandes rios pútridos, malcheirosos e mortos. Transportam esgoto e fazem um roteiro devastador por muitos quilômetros. Generosa, a natureza se recompõe mesmo assim. Mas a água aparentemente límpida, a mais de cem quilômetros da capital, não pode ainda ser consumida pelos humanos.

Onde estão os parques, as árvores, a recuperação dos cursos d‘água que sepultamos? Onde está a redução do transporte viabilizado por combustível fóssil que é veneno mortal? Onde a devolução da vegetação devastada à superfície que já foi exuberante e bela?

De inconsequência à inconsciência, de descaso à lassidão, do desinteresse ao acinte, vamos prosseguindo na sanha assassina. Depois achamos exagerado o título de um livro que se chama “A espiral da morte“. Nós a produzimos, nós permanecemos nela.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 21/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Treinar para o diálogo

As pessoas andam muito irritadas. Ríspidas e pouco amigáveis. As discussões se desenvolvem num clima de animosidade, não se consegue obter que alguém ouça até o final uma argumentação. Menos ainda, obter um consenso.

Isso mostra quão árdua é a missão da escola. Escola serve para desenvolver potencialidades, com o objetivo de propiciar o desenvolvimento dos atributos e talentos, até que o ser educando atinja a sua plenitude. Mais ainda, a escola serve para formar cidadãos. E o terceiro eixo inspirador da educação é qualificar para o trabalho.

Todas as três metas são relevantes. Mas no momento em que o Brasil enfrenta crise nunca dantes configurada em nossa História, é de singular interesse preparar pessoas aptas ao exercício do diálogo. Capacidade de ouvir, paciência, tolerância, compreensão. Atributos talvez mais importantes do que o acúmulo de informações. Estas jamais estiveram tão disponíveis, acessíveis a todos os que têm curiosidade intelectual e interesse genuíno em se apropriar do conhecimento.

Uma regra de ouro é aquela atribuída à era socrática: “conhece-te a ti mesmo!“. Há pessoas que chegam ao final da existência e não se conhecem de verdade. Explodem a qualquer estímulo, nem precisa ser provocação. Enxergam o mundo com ressentimento, destilam angústia e não conseguem ampliar o seu leque de relacionamentos.

A edificação de uma sociedade fraterna, justa e solidária é uma promessa do constituinte de 1988. Para alcançá-la, todos devem se debruçar sobre a missão mais relevante que se possa atribuir a uma criatura: semear bons sentimentos, cultivar o convívio saudável, levar a sério o supra-princípio norteador de todos os brasileiros e residentes no Brasil: a dignidade da pessoa humana.

Se todos os humanos merecem respeito como seres providos de ínsita dignidade, o diálogo é a única forma de relacionamento civilizado entre iguais. Não nos descuidemos disso.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 21/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Fome infinita

O século XXI vive a era das informações. Elas são acessíveis, mas são infinitas. O que gera uma fome infinita por armazenamento de todos os dados. As grandezas do mundo virtual nos obrigam a uma contínua revisão da própria linguagem. Basta mencionar que já falamos em kilobyte, de reduzidas proporções.

Um retângulo de 2 por 4 centímetros é o equivalente a um kilobyte. Já um jornal inteiro, no suporte físico papel, equivale a 224 kilobytes. Um megabyte é a soma de 1.024 kilobytes e um gigabyte representa 1.048.576 kilobytes.

Agora já se fala em terabyte, ou 1.073.741.824 kilobytes e o petabyte é a cifra sequer mencionável de 1.099.511.627.776 kilobytes. A área do Brasil pode ser traduzida em 8,9 exabytes e, a continuar no ritmo atual, em 2020 precisaremos de 4.600 Brasis para armazenar toda a informação disponível no planeta.

O mundo gera mais informações a cada segundo. E todos temos receio de “deletar” nossos arquivos, pois ficaríamos perdidos neste ambiente digital. Os cientistas e os tecnólogos trabalham de forma incessante para dar conta da demanda. Há dez anos, um pendrive correspondia a 128 megabytes. Hoje ele acolhe informações contidas em 128 gigabytes.

O desafio impõe trabalho incessante. Agora chegam os chips 3D de memória. Os chips de memória flash que conhecemos gravam as informações em áreas planas.

Já um chip em 3 dimensões permite colocar tais áreas umas sobre as outras e isso forma prédios microscópicos de informações. A densidade de cada chip aumenta de forma extraordinária.

Mas a despeito do progresso e dos esforços dos profissionais dessa área que nos obriga a permanecer acelerados, pois a obsolescência está ao nosso encalço, a verdadeira questão não é da informática, mas da filosofia.

O que fazer com tanta informação? Ficaremos asfixiados de tantos números, textos, dados, notícias e figuras? Estamos nos tornando mais felizes, mais tranquilos, mais tolerantes com tantas conquistas.

Isso é que deveria provocar nossa consciência, para que não deixemos de lado a busca por um convívio harmônico, pacífico, que não desespere nem desalente, mas que torne nossa frágil e efêmera existência uma passagem prazerosa por este pobre planeta.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 18/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Chame os universitários

A universidade brasileira se alicerça em três eixos: ensino, pesquisa e extensão. Do ensino, bem ou mal, damos conta. Da pesquisa, nem tanto. Mas na extensão é um fiasco. O que é que a maioria das universidades faz para transformar a sociedade enquanto conjunto de alunos?

É claro que uma universidade, lugar onde se busca o conhecimento com plena liberdade, ao diplomar profissionais colabora para o aperfeiçoamento do convívio. Mas os alunos têm de começar a influenciar o meio social ainda enquanto alunos.

Há inúmeras modalidades de atuação do universitário para cumprir a missão que ele tem quanto ao pilar da extensão. Uma delas é atuar junto à escola pública. Nada obstante o empenho dos responsáveis pelo ensino público, é preciso muito mais força, intensidade e garra para fazer o Brasil chegar aos índices dos Países mais adiantados.

Um universitário que frequentar uma escola pública pode fazer a diferença no aprendizado do estudante do ensino fundamental ou médio. Talvez o auxiliando nas deficiências, com o reforço que não virá de um professor com o qual ele ainda não apreendeu tudo o que teria de aprender. Mas com um jovem com menor diferença etária, linguagem coloquial, outra qualidade de relacionamento.

Enquanto isso, o universitário treinará para aprender o que é ensinar. Conhecerá outra realidade. Poderá se entusiasmar com o magistério, que deveria ser a mais nobre dentre as profissões. O professor é aquele que transforma a vida do discípulo. É quem faz a criança ou o jovem enxergar mais longe. Descobrir-se como pessoa. Detectar suas potencialidades e explorá-las até atingir a plenitude possível.

São Paulo tem, na rede pública, uma boa experiência que é a chamada “Escola da Família”. Manter a escola aberta aos sábados e domingos e propiciar um espaço de convivência entre famílias, mestres, alunos, comunidade. Ambiente muito agregador e aconchegante. Ganharia bastante se viesse a contar também com a presença de universitários. A sociedade mostraria que é possível edificar a harmonia, a paz, a fraternidade, além de acrescentar experiência ao aprendizado. Universitário, você está sendo chamado a frequentar a Escola da Família. Anime-se. Só ganhará com isso.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 14/04/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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