Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Triste gente desmemoriada

O Brasil de hoje parece que surgiu há alguns anos e que tudo começou com os atuais quadros. Políticos, atores, cantores, jogadores, celebridades. Não existiu passado, nem interessa o futuro. Importa é o presente, com a busca de interesses imediatos. Vide a “tática das homenagens”: o importante é o cargo, não a pessoa. Reverenciem-se os cargos, as funções, qualquer ser humano que detenha – até por pouco tempo – uma parcela de poder.

Já fomos melhores. Já tivemos brasileiros mais patriotas. Revisito, com nostalgia, um pouco da vida de José Bonifácio de Andrada e Silva, não o Patriarca da Independência, aliás meu Patrono na Cadeira 40 da Academia Paulista de Letras. Mas o “Moço”, ao mesmo tempo neto e sobrinho do “Velho”.

José Bonifácio nasceu em 1827, o mesmo ano de criação da nossa Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Nasceu em Bordeaux, onde seu pai se encontrava exilado. Filho de Martim Francisco, um dos irmãos Andrada, e de Gabriela Frederica, filha de José Bonifácio o Patriarca. Ao se casarem, no ano de 1820, ela tinha catorze anos e o tio, seu marido, quarenta e cinco.

Foi um estudante exemplar. Estudou nas Arcadas e logo após formado, foi nomeado Lente Catedrático Substituto na Faculdade de Direito de Pernambuco, onde permaneceu por três anos. Nomeado Lente em São Paulo, aqui lecionou por décadas, jubilando-se em 1881.

Foi um homem polivalente. Poeta, professor de Direito, parlamentar e orador, um dos mais importantes abolicionistas brasileiros.

Alguns enxergam nele um “poeta menor”, pois não se compararia aos que conseguiram seus nomes inscritos nas colunas de sustentação da Velha e Sempre Nova Academia do Largo de São Francisco: Fagundes Varella, Álvares de Azevedo e Castro Alves. Mas críticos severos, como Silvio Romero e João Ribeiro o elogiam. Consideram-no até influenciador da poesia de Casimiro de Abreu, “Meus Oito Anos” e de Luiz Guimarães Júnior, “Visita à Casa Paterna”. Dez anos antes deles, elaborou poesias que têm muito em comum com esses tão repetidos versos.

Foi pioneiro ao contemplar o africanismo em sua poesia. Ao escrever “Saudades do Escravo”, profetizava a sua vocação para lutar pela libertação dos irmãos africanos tratados como semoventes, quais mercadorias, vergonha que só desapareceu formalmente em 1888, dois anos depois da morte de José Bonifácio, “o Moço”.

Como professor, em 1868 lecionava para terceiranistas famosos: Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Castro Alves, Afonso Pena e Rodrigues Alves. Suas aulas eram tão esplêndidas, que Rui Barbosa chegou a escrever: “Discípulo, como fui, de José Bonifácio, seria orgulho, se não fosse gratidão, vaidade, se não fora dever, dar-vos aqui testemunho do seu magistério. Foi em 1868, quando comecei a ouvi-lo. ..Quando José Bonifácio assomou na tribuna, tive pela primeira vez a revelação viva da grandeza da ciência que abraçávamos. A modesta cadeira do professor transfigurava-se; uma espontaneidade esplêndida como a natureza tropical borbulhava dali nos espíritos encantados. Um sopro magnífico animava aquela inspiração caudal, incoercível, que nos magnetizava de longe na admiração e no êxtase”.

Nesse mesmo ano, os alunos se reuniram para homenageá-lo num banquete que aconteceu na Sala da Concórdia, em 13 de agosto. Quem o saudou foi Joaquim Nabuco. Ao rememorar essa festa, Rui Barbosa novamente esgrima seu belo verbo: “Entre as reminiscências do meu curso jurídico nesta cidade, nunca se me desfará da lembrança a recepção com que o acolheu, depois do golpe de estado de 16 de julho, a juventude acadêmica de 1868, em um banquete político de grandes proporções, que assinalou data na memória de quantos o celebramos; Joaquim Nabuco, o futuro orador do abolicionismo, ponto radiante que já se destacava na coroa solar do nome paterno;” – e enuncia outros nomes – para concluir: “José Bonifácio teve ali palavras comovidas, que se fonografaram no espírito dos ouvintes: ‘Os combatentes de hoje’, dizia, ‘são as aves já em meio do caminho, pisadas nos ramos secos da floresta. A mocidade é o futuro, as andorinhas em busca da primavera e da luz!”. Nisso um aluno aparteia: “A luz é Vossa Excelência!”, fazendo com que todos aplaudam, longamente, o homenageado.

Há muito mais a ser dito sobre José Bonifácio, “o Moço”. Quem é que hoje se lembra dele?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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O tempo não existe

Essa a singela conclusão de Carlo Rovelli, físico italiano que publicou “Sete Breves Lições de Física” em 2014, livro do qual foram vendidos mais de um milhão de exemplares. Agora ele publica “A Ordem do Tempo” e conclui que temos ideia errada dele. Por exemplo: eu não sabia que o tempo é mais vagaroso quanto maior for a gravidade. Ou seja: os pés envelhecem menos do que a cabeça, que está mais longe da superfície da Terra.

Como a maioria das pessoas acha Física muito complicada e difícil, o interesse por desvendar seus segredos é reduzido. É natural que muitos tenham medo da ciência. Ela pode mostrar coisas difíceis de se acreditar. Ainda mais nesta época de 4ª Revolução Industrial, em que a ficção científica restou superada pelos avanços científicos e tecnológicos. Nada parece impossível para a ciência.

Pessoalmente, sempre me apaixonei pela possibilidade de recuperar o tempo perdido. De fazer viagens de volta a um passado que nós redesenhamos na memória e que parecia maravilhoso. Não sei se isso um dia será possível. Ou se teremos uma esfera na transcendência, depois de partirmos, em que reviveremos os melhores momentos, poderemos acertar contas que ficaram em aberto e mergulhar diante do abismo que evitamos ou do qual desistimos.

Embora físico, o italiano Carlo Rovelli fala muito em intuição, ou seja, sustenta que a magia da ciência é compreender as coisas antes mesmo de vê-las. É quase impossível acreditar que o tempo não exista, pois estamos sempre atrasados, sempre perdendo a hora, sempre perdendo oportunidades, encontros, deixando de fazer coisas e de procurar afeições.

A lição a se extrair da leitura do livro e das reflexões que ela suscitar é ter presente – olha aí o tempo! – que as coisas não são o que parecem. É preciso estar aberto para uma compreensão que nem sempre se tem. Concluir que há um “tempo humano”, diferente do tempo da natureza. Uma noção que só funciona para nós, seres limitados, embora sonhadores. Tempo é instrumento para se autolapidar, para se aprimorar, para crescer em plenitude. Para saber enfrentar os medos que nos atormentam: da doença, da incapacidade mental, da dependência, da solidão e da morte.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Alargar as fronteiras

A única esperança de um Brasil melhor é a educação. Educação muito diferente de “escolarização”. Educação como processo permanente de lapidação dos talentos com os quais nascemos, do aprimoramento contínuo de um ser humano em constante mutação e destinado à perfectibilidade.

Tudo começa na escola. Mas a escola brasileira precisa ser reinventada. É difícil hoje convencer-se de que alguém seja detentor do conhecimento e deva transmiti-lo a uma “tábula rasa”, a alguém que nada sabe.

A concepção é outra. Todos aprendemos com todos. Ao ensinar também aprendemos e ao aprender também ensinamos. Isso vale para o alunado que nasceu em plena turbulência causada pela 4ª Revolução Industrial. O excesso de informações é um dado preocupante. Ninguém sabe o que deve ser memorizado e o que deve ser esquecido. Decorar não significa aprender. O aprendizado pressupõe adequada utilização do acervo de sabedoria com que se defrontou na busca de se tornar um ser humano melhor.

Os índices obtidos pelo Brasil nas avaliações periódicas são sofríveis. O drama é que o Brasil não investe em educação muito menos do que outras nações exitosas nessa área. É algo cultural, a refletir empenho deficitário de todos os responsáveis, a saber: Estado, família e sociedade. Não é só injetar dinheiro no sistema. É trata-lo com devotamento. Respeito, carinho, consideração, constituem ingredientes tão ou mais relevantes do que os recursos financeiros. A maior urgência é alargar as fronteiras de nosso acanhado modo de enxergar as coisas. Coragem para ousar!

Não faltam boas ideias. Algumas bem antigas, como o “sloyd”, ensino a partir do fazer. O “aprender fazendo” já fora objeto de pregação de John Dewey. Há outras linhas e todas elas têm espaço, pois a Constituição da República é muito clara: a educação é servida por princípios básicos, dentre os quais o pluralismo e a diversidade de concepções pedagógicas.

O ensino se depaupera se quiser padronizar criaturas que são irrepetíveis, heterogêneas, distintas por sua própria natureza. O ideal seria contemplar os dons de cada educando, fornecendo-lhe um projeto individualizado de preparação para a vida. Itinerários personalizados não são impossíveis e isso está nas cogitações dos implementadores da BNCC – Base Nacional Comum Curricular. Cujo sucesso depende da compreensão e da adesão de todos os responsáveis. E quem não é responsável por tornar o Brasil que temos no Brasil que queremos?

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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Não há mais tempo

Durante algum tempo acreditei que a questão ambiental poderia ser amenizada se formássemos novas gerações eticamente conscientes de que a vida depende de nosso comportamento. Vejo hoje, com tristeza, que não há mais tempo. A Terra não teve como sensibilizar a cruel espécie humana, senão reagindo aos maus tratos.

Todas as notícias dão conta da exaustão do planeta. O aquecimento global derrete as geleiras, provoca chuva ácida, desertifica áreas férteis, inunda e causa mortes. E continuamos como sempre fomos. Achando que isso não é conosco. Mas é conosco sim!

No mundo micro e no macro, não há inocentes em relação ao decreto de morte que a humanidade lançou sobre a Terra. Nas coisas mais triviais, como o uso de canudinhos, de cotonetes, de produtos de limpeza que vão envenenar nossos rios, na produção desmesurada de resíduos sólidos que demoram séculos para serem absorvidos pela pobre Terra.

No mundo macro, quando deixamos revogar o Código Florestal, continuamos a usar herbicidas, aceitamos aquilo que o chamado “mundo civilizado” descarta, mas que nós, miseráveis, aceitamos como contribuição ao nosso desenvolvimento.

Não nos mobilizamos para exigir que o infrator ambiental seja punido. Que suas multas sejam efetivamente recolhidas. Que as compensações sejam levadas a efeito. Não impomos ao Parlamento a elaboração de normas eficientes de logística reversa, para que não proliferem os “desmanches”, “ferros-velhos” e “lixões”, atestados exuberante de nossa ignorância.

Deixamos desmatar, aumentar a poluição em todos os níveis. Não há mais água pura, nem solo saudável, nem atmosfera respirável. Com isso agravamos o já combalido sistema de saúde. E quem não respeita a natureza também não é um perito em respeitar a dignidade do semelhante. Por isso convivemos com níveis insuportáveis de violência, de homicídio, de mortes no trânsito e de disseminação de um clima de guerra de todos contra todos.

Tendemos a fazer a “cultura do repasse”. Tudo é culpa do governo. Esquecemo-nos de que governo está lá porque nós o elegemos. Ele nos representa. Merecemos o que estamos vivenciando. E, se não aprendermos na dor e no sofrimento, o fim dessa aventura humana sobre este ínfimo e minúsculo planeta está mais próximo do que se imagina.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 10/05/2018

Solaris, Mundo, Terra, Watts, Mar


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Dá pra ser otimista?

O “milagre brasileiro” converteu-se no “desastre tupiniquim”. Ou no fracasso da política. A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD) apurou que, em 2017, ainda são 10.355 milhões de brasileiros que sobrevivem com 40 reais por mês!

A situação piorou desde o ano passado, quando a “renda” mensal desses seres humanos chegava a 49 reais. Dá para falar em tempos promissores? Será que a situação nacional não ensejaria medidas urgentes de recomposição dessa imensa fratura? Pode-se falar em “bem estar” quando essas famílias não sobrevivem com dignidade, mas vivenciam a “rua da amargura”?

A desigualdade aumentou no Brasil e nada indica que possa vir a ser mitigada se as coisas continuarem como estão. A política só se interessa pela sobrevivência partidária. Por que não reduzir o número de partidos, que interessa apenas a seus próprios integrantes, acabar com o Fundo Partidário e fazer com que os filiados sustentem as campanhas? Por que é o povo que deve pagar pelos “programas gratuitos” no rádio e na TV? Tais programas são gratuitos para quem?

Houve piora em todas as regiões, na escala GINI – indicador que mede a desigualdade de renda. No ano passado, os 10% com maior renda concentraram 43,3% de toda a riqueza do Brasil, montante superior àquele representado por 80% da população com renda inferior. Caiu também a renda média mensal. Dentre os trabalhadores que conseguiram permanecer empregados, os de menor remuneração tiveram queda salarial. Metade dos trabalhadores com menor renda recebia em média R$ 754 por mês em 2017, menos do que os R$ 773 do ano de 2106. Isso significa que quase 45 milhões de pessoas ficaram ainda mais pobres, distanciados de receber o salário mínimo legal.

O que era ruim ficou ainda pior. Enquanto isso, o País continua a gastar com propaganda, com o estardalhaço de medidas aparentemente saudáveis, como os deslocamentos de equipes acompanhando encarcerados de nível, trocas de presídios e aviões da FAB levando de cá para lá e de lá para cá os réus diferenciados.

Estas reflexões não entram na cogitação do palanque eleitoeiro já montado, para que tudo continue igual. Sem um choque fulminante, não há perspectivas para o otimismo ufanista que alguns teimam em proclamar.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 06/05/2018

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Afinal, o que é a BNCC?

O Brasil ouve há algum tempo o discurso da BNCC. Sigla que significa Base Nacional Comum Curricular. Muita gente confunde a Base com o Currículo. Os que elaboram a BNCC repetem incansavelmente: Base não é Currículo. Ela é o documento que define os conhecimentos essenciais a que todos os alunos da educação básica têm direito.

A Base constitui um núcleo comum de conteúdo obrigatório para todos os currículos. Todas as escolas, públicas ou privadas, urbanas e rurais, têm de ofertar ao alunado esse mínimo. Sua importância é definir, com clareza e objetividade, o que o aluno tem direito a aprender. Com isso, haverá uma diretriz para os que propiciam o ensino à criança e ao jovem brasileiro.

Os currículos continuarão a ser elaborados pelas instâncias próprias. Mas a BNCC servirá como referência para a sua construção. Ela não impõe metodologia de ensino, abordagem pedagógica, critério de avaliação, mesmo porque não é isso o que a Constituição diz, ao prestigiar o pluralismo e a diversidade de concepções pedagógicas. Não se pretende o engessamento, ao contrário. Cada região, cada cidade, cada confissão religiosa, cada esfera de pensamento pode educar da forma como entender mais adequada. O que existe é uma concepção de complementaridade entre BNCC e currículo. Aquela fornece o rumo da educação, a sinalizar onde o ensino deve chegar e este elabora a trilha para atingir o desejado.

A BNCC prevê o desenvolvimento integral, com dez competências gerais norteadoras. Aspectos cognitivos, sociais e pessoais devem ser desenvolvidos pelos alunos. Investe-se em pensamento científico, crítico e criativo, capacidade de argumentação, autonomia e resiliência. Praticamente é o que já existe na experiência do Ensino Integral de São Paulo. Notável a desenvoltura com que jovens falam do seu “Projeto de Vida”, elogiam os “Clubes Juvenis” e amam a “Tutoria”, além do acolhimento. É o protagonismo do aluno em ação. Reforçada pela “Gestão Democrática”, ponto de honra da atual composição da Secretaria da Educação do Estado.

A aprendizagem, de acordo com a BNCC, deve ser ativa. A cada conhecimento vincula-se uma habilidade, que permite ao aluno encontrar o que não acha no ensino convencional: a finalidade do aprendizado. O liame entre a teoria e a vida real. Ao conciliar processos cognitivos mais sofisticados como investigar, analisar e criar, contrapostos a outros mais passivos, como lembrar e identificar, estimula-se o protagonismo dentro da escola e fora dela.

A BNCC contém as dez competências gerais que os alunos devem desenvolver durante todas as fases da educação formal e que norteiam a aprendizagem nas várias áreas do conhecimento, mas também explicita os direitos de aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil, cada vez mais objeto de atenção. Sabe-se que os anos iniciais são nevrálgicos. Se a criança não merece atenção, carinho e cuidado permanente, pode ser estigmatizada com sequelas que perdurarão durante toda a vida adulta. Daí a relevância de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se.

Estimula-se a experimentação em cinco campos da primeira infância, em que a interação e o lúdico representam os eixos estruturantes da prática pedagógica: O eu, outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Há um vasto universo a ser vivenciado por educador, que aprende com a criança e a criança, que aprende e também ensina o educador.

Tudo precisa da colaboração de todos. Recordemos, uma vez mais: a educação é direito de todos, mas dever do Estado e da Família, em colaboração com a sociedade. Por isso, ninguém está excluído, ao contrário, todos estão obrigados a se responsabilizar por educação de qualidade. Quem ganha é o Brasil. É o futuro. É o tesouro geracional do porvir.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Fonte: Correio Popular de Campinas| Data: 04/05/2018

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Disciplina Faz Mal?

Li outro dia um dos saborosos textos de meu amigo e confrade da Academia Paulista de Letras Ignácio de Loyola Brandão. Por sinal, ele participa de uma obra coletiva com 75 escritores que escreveram seu próprio epitáfio. Mas não é disso que gostaria de falar. É sobre o artigo que li, em que ele diz que o regime dos funcionários da extinta Companhia Paulista de Estradas de Ferro era autoritário.

Fui praticante de escriturário dessa ferrovia modelo, infelizmente detonada por mais uma política pública equivocada. Prestei concurso e fui admitido em 1º de setembro de 1964 para trabalhar no Departamento de Pessoal.

Excelente escola. Ali aprendi a ser disciplinado, é verdade. Horário inflexível, até que ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Campinas em 1966. Ainda não era Pontifícia! Tinha de apanhar o trem às 6h39 e voltar com o das 11h20. Caminhando a pé de minha casa até à estação, descendo a pé a rua 13 de maio em Campinas e correndo pela Francisco Glycério até à belíssima sede da Faculdade.

Fazia com alegria e entusiasmo. Na volta, minha mãe me esperava com um sanduíche à porta e eu entrava por uma entrada lateral na rua Siqueira de Morais. Em setembro, uma aleia azul parecia um tapete formado pelo jacarandá mimoso que forrava o chão.

A Companhia Paulista já se convertera numa empresa de reclamações trabalhistas. Minha função era datilografar enormes quadros com diferenças salariais para os processos movidos pelos funcionários prejudicados, invocando favoritismo perpetrado por inconsequência de administrações pouco ciosas de sua responsabilidade.

Era pressionado a optar entre estudar Direito e trabalhar. Meu chefe considerava “incompatível” o trabalho e o estudo. Resisti bravamente, até que a Providência Divina cuidou de propiciar a queda da diretoria, com a substituição do diretor de pessoal pelo meu querido protetor Dr. Lincoln de Carvalho Soares. Foi a minha salvação! Ele assumiu procurando qualquer funcionário que estudasse Direito. Eu era o único do departamento.

Ressalvada a perseguição de um chefe limitado, não senti a alegada crueza da Companhia Paulista. Guardo saborosas recordações. Talvez porque, ao começar ali, não tivesse ainda completado meus 20 anos.

JOSÉ RENATO NALINI é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 03/05/2018