Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Devaneios maternais

1 comentário

Todos os anos, o segundo domingo de maio é reservado à celebração do Dia das Mães. Dir-se-á que a invenção é consumista, imposta pelo mercado, responsável por quase tudo o que acontece na sociedade contemporânea. Ou que “dia das mães é todo dia”, pois existe divórcio de marido, mas não se pode divorciar de filho. Mãe continua mãe durante toda a sua vida. Mesmo que a cria a ela pré-morra.

Mãe é uma instituição. Uma das poucas que resistem nesta era de pós-modernidade ou de modernidade líquida, na linguagem de Zygmunt Baumann. Enquanto várias outras instituições se liquefazem, colhendo descrenças após desalentar os últimos otimistas, resta “o colo da mãe” como abrigo seguro quando das intempéries existenciais.

Mãe é a mulher confiável. Aquela ainda capaz de morrer por seu filho. Nada cobra, nada exige, nada reclama. Parece configurar a própria tradução do amor, na clássica epístola de Paulo, a qualificar o sentimento com uma série de atributos que o absolutizam.

É alentador verificar que os humanos, tão descrentes das vãs promessas feitas pelos detentores de qualquer parcela de poder, nutram irrestrita confiança em suas mães. Nem mesmo quando elas desaparecem, levadas ao etéreo, deixa de existir esse vínculo de solidez irremovível.

Com base nessa constatação, até os céticos enxergam perspectiva de aprimorar o convívio entre os homens. Se estes já não se comovem com a invocação a mitos como Pátria, não se sentem atraídos a serem éticos, se colhem decepções com aspectos exteriores das confissões – eis que seu crescimento religioso padece de crônica deficiência – ao menos não desacreditam do amor materno.

Valioso patrimônio esse que a humanidade preservou e que pode servir de estímulo a que outros bons sentimentos venham a ser desenvolvidos. Um deles, de urgente concretização, é o respeito à Mãe Terra. Vilipendiada, maltratada, desconsiderada, continua a terra a produzir nossos alimentos e também está pronta a nos receber, quando a ela retornarmos. É, verdadeiramente, mãe. Tudo perdoa, tudo suporta. Ela até que mereceria um presente de seus filhos – todos nós – um pouco mais de carinho nestes dias tristes, em que ela é golpeada por quem deveria ser o primeiro a protegê-la.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Devaneios maternais

  1. V. Exa. deveria pedir a algum deputado que lesse este M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O texto na tribuna, quando a questão da reforma do Código Florestal estiver em discussão.
    Quem ali é corajoso o suficiente para levantar a mão e bater a face de sua própria mãe, ao votar a favor desta aniquilação que chamam de reforma? Só sendo filho de chocadeira!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s